Estava aqui olhando estatísticas de mortes por covid por faixa de idade e notei algo estranho que, se for real, parece ter escapado aos virologistas brasileiros: mortes em excesso de menores de 20 anos, coisa que ocorre em número bem reduzido na Europa. Para fazer comparações, consegui dados por faixa etária de um punhado de países, cujas fontes você poderá conferir no site deste canal.
Vamos a números atuais para mortes de menores de 20 anos: Alemanha 52, Itália 44, Suécia 16, Suíça e Coréia 3. Nos EUA, a agência de saúde de lá, o CDC, não segue o padrão decimal. Usam faixas etárias quebradas. O número disponível é 795 para menores de 18 anos, bem mais que países da Europa, embora a faixa tenha dois anos a menos.
O Brasil tem 210 milhões de habitantes, contra 330 milhões dos EUA. Portanto, proporcionalmente, deveria ter coisa de 500 mortes. No entanto, embora sejam 0,5% do total, as mortes de jovens não estão na casa das dezenas, nem das centenas. Seriam milhares.
Achei dois números no mesmo lugar: 2.777 e 4.307 no site dos cartórios. Não importa a disparidade, ambos estão na casa dos milhares, de 5 a 8 vezes mais, indicando algo de muito errado que merecia ser, pelo menos, notado pelos infectologistas brasileiros. Estranho, não é?
Sergipe, com 2 milhões de habitante, tem 100 mortes por covid abaixo de 20 anos, número superior ao de Alemanha e Itália juntas. Aliás, nesta faixa etária, notei números bem mais altos nos estados do Norte e Nordeste. Não sei o motivo. Não quero comentar isso por vários motivos. Primeiro, não sou especialista na área. Segundo, os dados no Brasil são lotados de falhas, especificidades e detalhes que só sabe quem lida com eles no dia-a-dia. Não é o meu caso. Terceiro, porque não tou a fim de viajar na maionese sem ter na mão dados confiáveis.
Aliás, nem mesmo quem lida com esses dados, como a Fiocruz, costuma estar a par do que está acontecendo.
Esta semana, a Fiocruz divulgou dados que ela consegue retirar do site do Ministério da Saúde.
Divulgaram um gráfico na página 17 mostrando o que vem acontecendo com crianças abaixo de 10 anos. A Ômicron multiplicou por 5 as internações em UTI e triplicou as mortes de crianças. É o que está no gráfico. Sabe o que a Fiocruz disse a respeito disto que está no próprio gráfico que publicou? Nem uma palavra.

Em compensação, na primeira página do seu boletim, foi capciosa ao decidir falar mal do nosso país.
Divulgou, como se fosse novidade, números de mortes por milhão de habitantes que constam do site Worldometers desde o início da pandemia. Comentou o seguinte: “no mundo a mortalidade por milhão de habitantes foi de 720, no Brasil ela alcançou 2.932, ou seja, 4 vezes maior”.
Já mostrei em posts e vídeos que é inadequado fazer comparações com a população total, considerando que o coronavírus fez poucas vítimas em países muito populosos do oriente, como a China. O mesmo se aplica à África, embora por outra razão. É um continente com 1 bilhão de habitantes, o triplo da população da Europa ocidental, mas com a metade dos idosos.
A Fiocruz omitiu que o “4 vezes” que encontrou para o Brasil também é a mesma taxa de mortalidade dos EUA. Nos países ricos da Europa, é um pouco menos, a taxa varia de 2 a 3 vezes a média mundial. Ao invés de produzir informações novas com os dados que dispõe, a Fiocruz optou por dar destaque a dados públicos que estão na internet.
Vou falar agora dos idosos. O coronavírus no mundo prefere vitimar idosos por razões que os cientistas ainda não descobriram.
Acima de 60 anos, nesta faixa, os países da Europa concentram 95% das mortes. Na Coréia foram 93%. Nos EUA por volta de 82% (estimativas feitas com base em interpolações, pois a faixa etária dos dados disponíveis é de 50 a 64 anos e de 65 em diante).
No Brasil, temos um número mais baixo de 72%. Arrisco uma explicação para isso. O pico da pandemia e das mortes no Brasil foram entre março e junho de 2021. Nesta época, apenas os idosos tinham completado a vacinação. Os idosos pularam fora da estatística, para sorte deles. Uma evidência nesse sentido é o que está acontecendo agora, em 2022. Considerando somente 2022, com todo mundo vacinado e em igualdade de condições, o percentual de mortes de idosos voltou ao patamar de antes da vacinação, de 82%, que é parecido com o dos EUA.
Para encerrar, vou falar do problema dos dados. No Brasil, é muito difícil achar dados, mais difícil ainda é achar dados corretos. O site do Ministério da Saúde é um lixo. Já desisti de tentar obter qualquer coisa lá. Quer ver? Vamos entrar lá.
Onde arranjei dados para fazer este vídeo? Apelei para os cartórios. Muito ruim também. Fiz o download dos dados e tabulei. Só que os dados que eles disponibilizam não batem com o que consta do gráfico que eles mesmos publicam com base nos mesmos dados. No entanto, as falhas não tem uma dimensão capaz de comprometer o que eu disse aqui.
Também há problemas de dados nos países desenvolvidos. Infelizmente, até mesmo dados que deveriam ser corriqueiros, como mortes por faixa etária, são difíceis de achar. O que tem os melhores dados são os EUA.
Parte da culpa é da Organização Mundial de Saúde. O papel que cabe à OMS é compelir, eu disse compelir, os países a fazer o dever de casa para combater pandemia com eficiência. Qualquer cientista da área de saúde sabe que a maior arma que temos chama-se informação. Então, o dever de casa número 1 da OMS seria o quê? Apresentar um padrão de dados que os países deveriam disponibilizar na internet para acesso geral. Deveriam ter acompanhado o tema produzindo um ranking país a país, os melhores e piores, de maneira a identificar e divulgar quem esconde dados, prática muito comum, inclusive em países desenvolvidos.
No caso de países cucarachos, como o Brasil, o problema maior é o desleixo, a incapacidade de gestão do Ministério da Saúde. Os outros ministérios nada fizeram. Que eu saiba, nenhuma das nossas instituições de ensino ou pesquisa fez alguma coisa para resolver o problema. Gostaria de estar enganado.
Ah, Marco Polo, tudo bem, eu até gostei de saber essas coisas, mas o que tem a ver com viagem na maionese?
Ora, o que mais vejo por aí são informações desencontradas sobre coronavírus, que favorecem um monte de viagens na maionese. Acho que estou contribuindo do meu jeito, ao divulgar coisas que a imprensa não fala, como as evidências de excesso de mortes de jovens, coisa que ainda não vi comentários dos virologistas.