Ao lançarmos um olhar para o passado remoto, para homens pré-históricos, é comum imaginarmos seres brutos, guiados quase exclusivamente pelo instinto de sobrevivência. Pensamos na ausência de estruturas morais, na predominância da força sobre a justiça. No entanto, talvez essa imagem diga menos sobre eles e mais sobre nós mesmos —sobre a forma positiva como gostamos de nos retratar em contraste com o passado.
Vamos saltar adiante no tempo. Imaginar a humanidade no ano 3.000, olhando para nós no século XXI. É plausível supor que, assim como hoje julgamos os homens das cavernas, os humanos do futuro nos considerarão primitivos — não por falta de tecnologia, mas por profundas limitações morais e sociais. A pergunta incômoda é: – Será que ainda nos guiamos pelos mesmos princípios seguidos pelos neandertais, desde que surgiram há 400 mil anos?
Não faltam pessoas de visão temporal curta, que celebram a economia capitalista contemporânea como se fosse o ápice da racionalidade organizacional de uma sociedade. Atribuem ao capitalismo o imenso progresso da humanidade – o que é uma falácia conhecida como falácia da falsa causa.
Daqui a 3.000 anos, o capitalismo e seus princípios individualistas serão vistos como uma doença mental que colonizou as mentes, transformando homens em zumbis a serviço de uma trajetória destrutiva do equilíbrio da natureza.
Estagnada por milhares de anos, a humanidade só veio a registrar avanços há uns 100 anos, cuja causa real não foi o capitalismo, mas sim a ciência, que hoje permite ao cidadão comum uma vida mais confortável e saudável que a de reis de outrora. Estes avanços só se tornaram possíveis depois que cientistas passaram a poder trabalhar exclusivamente como cientistas, com pesquisas bancadas com recursos do Estado. Antes, a ciência era atividade restrita a ricos que decidiam gastar seu próprio tempo com isso ou financiar a pesquisa de terceiros, bancando a construção de laboratórios ou telescópios.
Hoje, na Europa, os governos financiam diretamente 77% das pesquisas conduzidas em ambiente universitário. Nos EUA, mesmo em universidades privadas, como Harvard e MIT, o governo federal financia 60% da pesquisa acadêmica, dividindo espaço com doações privadas (endowments) e contratos corporativos.
Falsamente atribuída ao capitalismo, a transição da produção artesanal para a produção em massa nas fábricas somente ganhou força no final do século XIX, depois de a ciência criar fontes de energia como a eletricidade e o petróleo. Claro que o capitalismo ajudou alguma coisa com o desenvolvimento do mercado de capitais, mas isso não pode ser considerado o fator central como pretendem alguns.
Em sua forma mais crua, o sistema capitalista opera sob a lógica da competição, da ganância, da sobrevivência dos mais aptos, de pagar salários menores a número menor de pessoas em nome da produtividade. É um sistema voltado para o progresso de pessoas jurídicas, pouco se importando com pessoas de verdade, tratadas como meros insumos.
Em teoria, a sociedade moderna valoriza a dignidade humana universal. Na prática, porém, milhões permanecem à margem do sistema — não apenas economicamente, mas também social e psicologicamente. São largados para trás os fracos, os doentes, os incapazes de competir em um sistema altamente exigente. Programas de assistência existem, mas para casos extremos, condicionados a critérios que ignoram a complexidade da condição humana.
Idosos, por exemplo, após décadas de contribuição, frequentemente enfrentam abandono, solidão e precariedade. Órfãos e crianças em situação de vulnerabilidade ainda dependem de sistemas sobrecarregados e desiguais. Pessoas com transtornos psicológicos são, não raramente, estigmatizadas ou negligenciadas. Sob esse prisma, a ideia de que estamos em uma sociedade plenamente civilizada se torna questionável.
Outro ponto que pode causar estranheza aos olhos do futuro é o sistema penal. Apesar de haver preocupações com direitos humanos, ainda mantemos estruturas que estão mais voltadas a punições do que a processos de reabilitação. Prisões superlotadas, condições degradantes e a reincidência elevada indicam que, em vez de enfrentar o problema, optamos por o perpetuar.
Quando um historiador do ano 3.000 analisar esse cenário, vai argumentar que usamos uma lógica primitiva: isolar o indivíduo considerado perigoso e fazer ele sofrer. Ainda que o discurso oficial fale em ressocialização, a prática revela outra realidade. Isso levanta uma questão incômoda: até que ponto evoluímos, de fato, em nossa compreensão de justiça?
Além disso, a própria ocupação de posições de poder revela fragilidades que podem ser vistas, no futuro, como sinais de imaturidade coletiva. Sistemas políticos e econômicos continuam permitindo — e, em alguns casos, incentivando — a ascensão de indivíduos com baixo compromisso ético, desde que consigam mobilizar apoio, capital ou influência. Escândalos de corrupção, abusos de poder e decisões motivadas por interesses pessoais não são exceções, mas fenômenos recorrentes.
Essa tolerância ou incapacidade de banir esses casos da política pode ser interpretada como uma falha estrutural. Assim como em grupos primitivos, onde a liderança podia ser decidida pela força, carisma ou manipulação, ainda hoje vemos mecanismos semelhantes operando sob uma aparência institucionalizada. A diferença está mais na forma do que na essência.
Desenvolvemos ciência, medicina, tecnologia e formas de organização que transformaram radicalmente a experiência humana. A expectativa de vida aumentou, doenças foram erradicadas e a comunicação global encurtou distâncias de maneira inimaginável para nossos ancestrais.
No entanto, progresso técnico não é sinônimo de evolução moral. É possível que o olhar do futuro reconheça nossas conquistas, mas destaque nossas contradições. Poderemos ser vistos como uma civilização em transição: capaz de construir máquinas complexas, mas ainda longe de amparar seus semelhantes de forma justa e compassiva.
Discutimos ética, direitos humanos, justiça social, mas e daí? Talvez o julgamento mais duro não recaia sobre nossas limitações, mas sobre nossa consciência delas. Diferente dos homens pré-históricos, sabemos — ou ao menos temos os meios de saber — que existem alternativas. Ainda assim, não há clamor por mudanças – mantemos desigualdades e sofrimentos evitáveis.
O olhar do ano 3.000 poderá nos classificar não como ignorantes, mas como incoerentes. Uma espécie que compreendia os problemas, mas não conseguia — ou não queria — resolvê-los plenamente. Talvez essa seja a verdadeira marca de nossa época: não a barbárie explícita, mas a barbárie disfarçada de normalidade. Não a ausência de valores, mas a dificuldade de aplicá-los de forma consistente. Não a falta de capacidade, mas a insuficiência de vontade coletiva.
E é justamente nessa tensão que reside a possibilidade de mudança. Se há algo que diferencia profundamente os humanos contemporâneos de seus ancestrais mais distantes, é a capacidade de refletir sobre si mesmos. Podemos questionar nossos sistemas, revisar nossas práticas e imaginar alternativas.
Se o futuro nos verá como selvagens ou como uma civilização em amadurecimento dependerá, em grande medida, das escolhas que fizermos agora. Talvez ainda possamos evitar que o julgamento do ano três mil seja tão severo quanto aquele que hoje dirigimos aos homens das cavernas.