Eficácia das Vacinas – Fiocruz cruzou arquivos de vacinados e internados

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Pesquisadores da Fiocruz na Bahia cruzaram arquivo de vacinados com o de hospitalizados, produzindo o estudo que eu vinha reclamando que ninguém tinha feito até agora para verificar a eficácia das vacinas. Eles merecem palmas? Não. Muito boa a pesquisa, mas eu não assinaria este trabalho. Vou explicar o motivo depois de apresentar o estudo e seus resultados.

No final de agosto, o estudo foi publicado em medRxiv (pronuncia-se “med-archive”), um serviço gratuito que armazena estudos médicos que ainda não passaram por revisão por pares. São chamados de preprints. O estudo analisou apenas duas vacinas, Coronavac e AstraZeneca, possivelmente porque as demais vacinas são muito recentes no Brasil.

Os números impressionam. O trabalho viu o que aconteceu com 50 milhões de vacinados com AstraZeneca e 25 milhões com Coronavac entre 18 de janeiro e 24 de julho de 2021.

Neste vídeo, vou falar apenas dos resultados para imunizados, que são os que tomaram duas doses e aguardaram mais 14 dias. A eficácia é bem baixa com apenas uma dose. No blog deste canal você encontrará mais detalhes e estatísticas completas (inclusive para quem tomou só uma dose).

O estudo afirma que, para quem tem menos de 80 anos, ambas as vacinas foram altamente eficazes contra os três eventos adversos que interessam: hospitalização, internação em UTI e morte. A pesquisa mostrou, para a AstraZeneca, eficácia entre 88 e 90% para estes três eventos adversos, enquanto a Coronavac ficou entre 73 e 74%.

No entanto, acima de 80 anos, a eficácia da Coronavac para morte baixa para 67% e, acima de 90 anos, foi de apenas 34%, enquanto a AstraZeneca se saiu bem melhor, com 90% e 65%.

Essas informações parecem corretas. Onde está o problema?

Ninguém afirmou nada, mas quem lê o texto do estudo fica com a impressão de que uma vacina é superior à outra. Isso não é verdade. Os autores do estudo não fizeram a ressalva de que é um erro comparar os resultados por conta da diferença de prazos de imunização. Os mais idosos foram imunizados com Coronavac ANTES, bem ANTES, cerca de 3 meses antes em relação à AstraZeneca, seja porque tomaram a vacina primeiro, seja porque a segunda dose foi aplicada em média com 27 dias, ao invés de 84 da vacina inglesa.

No texto do estudo há pistas para se chegar a estes fatos, mas a sua importância foi omitida:

a) a vacinação com CoronaVac ocorreu maciçamente de janeiro a abril de 2021, enquanto AstraZeneca foi administrada mais adiante, predominantemente após março de 2021;

b) a segunda dose da Coronavac é aplicada após 27 dias, enquanto a da AstraZeneca ocorreu com 84 dias – praticamente 2 meses de diferença.

Assim, os mais idosos que tomaram AstraZeneca só vieram a completar imunização em junho, enquanto os que tomaram Coronavac isso ocorreu lá atrás, em março. Claro que estes 3 meses de diferença favorecem em muito à AstraZeneca, considerando a hipótese de que todas as vacinas perdem eficácia com o tempo. Eu não assinaria este estudo sem este esclarecimento.

Como fica a ética diante dos interesses envolvidos? Nesse ramo lucrativo de remédios e vacinas é comum estudo que só fala a verdade, embora seja uma verdade com recheio cremoso de maionese.

Na Declaração de Interesses, consta a revelação de que quatro dos autores são funcionários da Fiocruz, que fabrica a AstraZeneca. O coordenador do trabalho é um deles. Esta declaração é exigida por ser uma pista importante para a revisão de pares detectar a direção mais provável de eventuais favorecimentos.

É evidente a existência de muito dinheiro em jogo, quando se está discutindo a escolha da vacina para aplicação de uma terceira dose para os mais idosos. Reparem que o título da pesquisa é revelador do seu foco em idosos: “Influência da idade na eficácia e duração da proteção nas vacinas”.

Enquanto o Governo de São Paulo quer aplicar a Coronavac do Butantan, o Ministro da Saúde fala em aplicar qualquer uma, menos a Coronavac.

Na Inglaterra, a AstraZeneca adoraria ter argumentos para defender a sua vacina contra qualquer outra, não só no Brasil, mas no planeta. Estudos costumam vir a calhar para atender a este propósito.

Bem, daqui em diante, vou apresentar duas omissões que notei.

O sopé da figura 1 do estudo mostra o número impressionante de pesquisados, cujo placar é Coronavac 25 milhões x 50 milhões AstraZeneca. No entanto, este placar encolhe em 45 milhões e se inverte considerando os imunizados com a segunda dose: Coronavac 20 milhões x 10 milhões de AstraZeneca – números que foram omitidos, mas podem ser calculados a partir de percentuais perdidos no meio do texto em uma frase que diz: “…uma proporção menor completou o esquema vacinal completo (20,2% vs. 78,6%).”

É claro que chamaria a atenção revelar que dos 50 milhões que tomaram AstraZeneca, 40 milhões não foram imunizados com duas doses. Por quê? Porque não deu tempo. Estavam imunizados há coisa de apenas um mês e pouco, prazo insuficiente para ocorrer a perda de eficácia.

Da mesma forma, o estudo silencia quanto aos efeitos nos resultados finais provocados pela diferença de perfil etário entre os dois grupos. Havia muito mais idosos entre os vacinados com Coronavac:

– 61,5% dos pesquisados tinham mais de 60 anos, contra apenas contra 24,2% da AstraZeneca.

É evidente que isso afeta a eficácia entre os imunizados de não contrair a doença, que foi de 73% para a AstraZeneca e de 53% para a Coronavac (após 2 doses).

Bem, vamos agora a outros dois fatos que sugerem omissões:

Fato 1: Na Declaração de Financiamento, consta que: “Este estudo foi parcialmente financiado por uma doação do programa “Fazer o bem faz bem”. Informaram apenas nome de programa, ao invés de quem financiou, com quanto e quem foram os beneficiários dos recursos.

Procurando na internet, achei um programa com este nome, bancado pela JBS de Joesley Batista, empresa que está tentando limpar seu nome dos escândalos de corrupção com que se envolveu. Os “pares” estrangeiros que vão fazer a revisão do estudo vão ter alguma dificuldade de entender o que isso significa.

Fato 2: O estudo afirma textualmente que “Versões abertas de todos os conjuntos de dados estão disponíveis opendatasus”. Será? O arquivo de vacinados substitui a identificação das pessoas por um código. O arquivo de internados pode não servir para nada se não contiver o mesmo código, cujo dono é o Ministério da Saúde. Sem o código, o conjunto de dados não serve pra nada, mesmo que esteja aberto.

Se é assim tão fácil de obter esses arquivos como sugere a Fiocruz e esse conjunto de dados é de enorme interesse público, por que será que ninguém os analisou até agora, além da Fiocruz?

Quem quiser tentar, precisa entender mais de dados do que de vacinas. Mas suspeito que o requisito principal é a boa vontade do Ministério da Saúde de fornecer acesso aos dados acompanhados dos tais códigos.

Bem, meu objetivo é revelar fatos, fatos de interesse que escaparam à imprensa. Para não encompridar o vídeo, omiti os detalhes, mas eles estão lá postados no blog do canal.

Os fatos indicam que, com base nesta pesquisa da Fiocruz, não dá para embarcar em uma viagem na maionese de comparar as duas vacinas, muito menos afirmar que uma vacina seja inferior à outra.

Eficácia da Vacina por Tipo de Evento Adverso
VacinaInfecçãoHospitalizaçãoInternação UTIMorte
 Imunização Completa (2 doses + 14 dias)
Coronavac52,7%72,8%73,8%73,7%
AstraZeneca72,9%88,0%89,1%90,2%
 Imunização Parcial (1 dose + 14 dias)
Coronavac18,6%28,1%28,5%29,4%——
AstraZeneca34,7%50,0%56,2%51,1%

Nota 1: Em comparação com os indivíduos que receberam o CoronaVac, os indivíduos que receberam o Vaxzevria eram mais jovens (24,2% vs. 61,5% dos indivíduos com 60 anos ou mais) e uma proporção menor completou o esquema vacinal completo (20,2% vs. 78,6%). A vacinação com CoronaVac ocorreu principalmente de janeiro a abril de 2021, enquanto Vaxzevria foi administrado predominantemente após março de 2021 ( Figura 2) Entre aqueles que receberam a segunda dose, o tempo médio entre as doses foi de 84 dias (IQR 82–90) para Vaxzevria e 27 dias (IQR 21–28) para CoronaVac (Tabela Suplementar S1). (texto original do estudo, exceto os grifos que são meus)

Nota2: Não incluí na tabela os números por faixa etária, porque o estudo os divulgou em uma gráfico de barras, onde não constam números.

Agradeço seu comentário, especialmente se acrescentar informações novas!