Uma das maiores viagens na maionese que existe na cabeça de economista é a do Banco Central independente. Economista parece criança querendo brincar de câmbio e juros. Eles acham divertido usar a população como cobaia. O problema é que o rei pode atrapalhar. O rei eleito pelas cobaias, o Presidente da República, pode distribuir puxões de orelhas e acabar com a brincadeira.
Para resolver o problema, os economistas inventaram a história do Banco Central independente. A pretensão deles é criar um racha no poder, de modo a impedir interferência do Poder Executivo no Supremo Banco Central.
Quem manda no Banco Central? Os dirigentes são recrutados dentre executivos dos principais bancos. Então, o Banco Central independente, na verdade, é um Banco Central controlado por quem? Pelos banqueiros que adoram juros.
Assim, essa história de subir juros é como se fosse um castigo ao governo que desobedece a cartilha dos técnicos do Banco Central.
O problema é que passam os anos, as décadas, tudo vai mudando, menos a brincadeira desses técnicos, que é sempre subir juros.
Ontem, OGLOBO publicou matéria sob o título ‘Ao Banco Central, não restava outra opção’, palavras de José Júlio Senna sobre a alta dos juros, ex-diretor do BC. Eu supus que ele era contra subir juros quando produzi o vídeo de 03/11/2021, em que ele foi citado junto com Solange Srour, economista-chefe do banco Credit Suisse, em uma matéria de OGLOBO com críticas à alta dos juros. Achei que os dois eram contra, mas estava errado.
José Júlio Senna é chefe do Centro de Estudos Monetários da prestigiada Fundação Getúlio Vargas, que forma técnicos, muitos deles ocupam cargos no Banco Central. Olha ele aí orgulhoso falando disso.
Mas será que ele acredita mesmo que a brincadeira dos juros ainda funciona? Bem, não é uma brincadeira. Estamos falando de uma medida que pode causar impacto de 500 bilhões de reais capaz de comprometer a solvência do país.
Vamos fazer o seguinte: vou reproduzir aqui as palavras dele e fazer uma tradução do economês quando necessário. Você julga se ele acredita ou não no que ele defende.
Pra começo de conversa, ele adianta que a medida não vai funcionar em 2022.
– Daqui do alto do prédio da Fundação Getúlio Vargas, com esta vista maravilhosa para o Pão-de-Açúcar, eu falei ao jornal OGLOBO o seguinte:
– “As altas de juros que o Banco Central está promovendo agora e deve promover no início de 2022 não têm mais efeito no comportamento dos preços em 2022.”
Ué, mas não vai afetar 2022. Então vai funcionar em 2023?
– “Em princípio, não há motivo para acreditar que essa alta de juro não tenha efeito positivo. Alguma melhora vamos ver.”
Em resumo, ele defende gastar meio trilhão em troca de alguma melhora, talvez quem sabe em 2023.
O jornalista insistiu e foi direto ao ponto ao perguntar: “O choque de juros do Banco Central vai debelar a inflação?” Ele repetiu o mesmo argumento de Samuel Pessoa, que expus aqui em uma série de 4 vídeos sobre metas de inflação:
– “A experiência universal é que a política monetária é o instrumento para segurar a inflação.”
Ele parece também acreditar na experiência universal. O universo que ele se refere seria composto pelos países desenvolvidos. O problema é que, igualmente afetados pela maior inflação dos últimos 13 anos, nenhum país desenvolvido subiu juros, coisa que nem José Júlio Senna, nem Samuel Pessoa explicaram por quê.
Em vários trechos da entrevista ele dá a entender que subir juros só funciona se houver o que ele chama de “suporte fiscal do governo”.
– O choque de juros que o Banco Central vem promovendo vai derrubar a inflação, mas é difícil avaliar se o resultado será o desejado sem que haja um suporte fiscal do governo.
– E o Banco Central não pode ficar esperando o Executivo oferecer um ambiente fiscal favorável. Ao Banco Central, não restava outra opção.
Agora vou traduzir para você. O que ele fala é sobre o jogo de cabo de guerra entre o Banco Central independente e o Poder Executivo, um jogo que só economista entende. Uma pessoa normal não é capaz de entender porque o governo tem que medir forças com um órgão do governo.
Em ano eleitoral, o governo quer dar dinheiro para pobre. Um auxílio de 400 reais mensais para 20 milhões de pobres, o que pode custar 100 bilhões de reais, dinheiro que não existe e vai ser obtido via aumento na dívida interna. Tem mais uns trocados para garantir a aprovação pelo Congresso Nacional, mas vamos deixar isso de lado.
O Banco Central não é contra os pobres, eu acho. Mas é favorável que o governo reduza despesas para arranjar dinheiro suficiente para pagar esse auxílio aos pobres sem precisar aumentar a dívida pública. Se o governo é irresponsável e gasta demais, o castigo do Banco Central independente é subir os juros.
Só que subir os juros cria mais despesa ainda para o governo.
Só que o dinheiro dos juros é um dinheiro que vai para quem? Para o bolso dos ricos.
Vou explicar de outro jeito. No fim das contas, o preço cobrado pelo Banco Central para Bolsonaro dar 100 bilhões para os pobres para se reeleger, vai ser dar 500 bilhões para os ricos sob a forma de juros.
Eu vou repetir mais uma vez. O Rei, para dar 100 bilhões para os pobres, será forçado a dar 500 bilhões para os ricos. Forçado por quem? Pelo Banco Central independente. Você entendeu? Não? Nem eu.
Ao final da entrevista, José Júlio Senna mostra que se contenta com essa relação de um para cinco.
– Só acho que não precisa aumentar a Selic em 150 pontos. Isso é uma alta muito expressiva.
Ou seja, está razoável dar aos ricos 5 vezes o que vão dar para os pobres. Ou seja, o castigo não precisa chegar a 7 vezes.
Eu fico pensando, pessoas inteligentes, estudam tanto, pra quê?
Cheio de gente capaz na Fundação Getúlio Vargas, gente com potencial para criar, gente que não precisa ficar copiando modelos importados de país desenvolvido, que eles mesmos pararam de usar. Modelos obsoletos, criados para uso em doses homeopáticas, que não dá para aplicar em doses cavalares, capazes de matar o paciente, como querem fazer no Brasil.
Será que esse pessoal da Fundação Getúlio Vargas não é capaz de usar a imaginação para viajar na maionese e criar uma maneira nova de resolver problema sem criar mais problema?
O Canal resolveu instituir um prêmio no valor de um bilhão para o economista que criar uma ideia diferente para resolver o problema sem que seja preciso subir os juros. (Obviamente vou tirar esse bilhão dos 500 que o governo vai gastar com juros.) Eu garanto que vai surgir alguém com uma ideia inovadora que vai economizar 500 bilhões de reais para os cofres públicos. Perguntei isso a José Júlio Senna: – Não seria uma ideia fantástica, professor? Ele concordou comigo (eu acho).
Para saber mais:
A autonomia do Banco Central foi aprovada no Congresso Nacional em fevereiro de 2021 com o apoio do Presidente da República e do Ministro da Economia:
Estudo publicado em janeiro de 2021 no site do Banco Mundial intitulado: ” A independência do Banco Central aumenta a desigualdade?” https://openknowledge.worldbank.org/handle/10986/35069