Desarmados e perigosos – o encontro de 7 ex-dirigentes do Banco Central – Parte 1

Pretendia não falar mais de juros, porém não dá para ficar inerte diante do filme que assisti semana passada em um painel virtual realizado no TCU – Tribunal de Contas da União.  A intenção deste painel era reunir 7 elementos de alta periculosidade, todos ex-dirigentes do Banco Central, a saber, Affonso Celso Pastore, Armínio Fraga, Gustavo Franco, Henrique Meirelles, Ilan Goldfajn,  o atual Roberto Campos Neto e o valentão que desafiou a todos para um duelo à sombra: André Lara Resende Eastwood.

Segundo a coluna de Maria Cristina Fernandes no Valor Econômico, Lara Resende só foi convidado por sugestão de técnicos do TCU, depois que Gustavo Franco cancelou. Portanto, sua presença pode ter surpreendido esses cinco ex-presidentes de Banco Central, que fugiram de seus tiros verbais. E o que ele disse não podia ficar sem resposta, mas ficou.

Ela não disse o motivo do não comparecimento de Gustavo Franco, mas há uma pista. Gustavo Franco odeia o TCU. Vou explicar o motivo depois de tomar um café.

Parece que nesta oportunidade, só vou falar de viagens da maionese daquelas bem inacreditáveis: são cisnes negros que existem no mundo real. Por isso, acho que vale à pena fazer um desvio para falar do ausente Gustavo Franco, pois ele é medalha de ouro quando se fala em brincar com juros e câmbio.

Quando presidiu o Banco Central, Gustavo Franco botou o juro acima de 40% ao ano, tornando-se campeão mundial de levantamento de juros. Acabou condenado pelo TCU em 2001, não pela brincadeira com juros, mas pela brincadeira com o câmbio.

O que ele fez? Transformou Foz do Iguaçu em porto livre de dinheiro sujo, mediante autorizações especiais (praticamente secretas) para 5 agências bancárias da cidade remeter bilhões de dólares para fora do país sem identificar o dono da grana. Traficantes de drogas e de armas, corruptos, sonegadores e outros vagabundos aproveitaram enquanto puderam. O chamado escândalo das Contas CC5 começou em 1995, dando origem à CPI do Banestado em 2003 e 2004. Bem, qualquer hora conto essa história com mais detalhes. Agora podemos deixar pra lá o ausente e vamos falar de quem compareceu.

Essa turma de ex-presidentes foi parar no TCU para o que parecia um inocente painel intitulado “Panorama recente de atuação do BACEN na condução da política monetária” a ser apresentado pelo atual presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Um compromisso que parecia ameno.

No entanto, apareceu por lá o Lara Resende, com sua característica polidez. Muito distante da figura de um pistoleiro, ele está mais para um típico lorde inglês. Ele foi o segundo a falar. Começou sua exposição elogiando os pontos elogiáveis da gestão de Roberto Campos Neto, destacando a criação do PIX.

Mais adiante, com a frieza de um lorde inglês ou de um pistoleiro do velho oeste, ele mostrou evidências de que a política de subir juros está baseada em viagem na maionese, podendo não ter efeito nenhum sobre a inflação.

Em contrapartida, disse ele, há uma certeza, o BC vai promover uma gigantesca transferência de recursos de 6% do PIB para os ricos, sem precisar de autorização orçamentária. Ou seja, o BC vai atropelar o Congresso Nacional e a Presidência da República, coisa que se tornou possível após a aprovação em fevereiro da Lei Complementar do Banco Central Independente. Você quer saber mais sobre alta de juros e Banco Central Independente?

Três dias antes deste painel no TCU, eu publiquei um vídeo aqui no Canal explicando essa coisa de Banco Central independente. No mês passado, em novembro, fiz 5 vídeos falando da viagem na maionese em que pode estar baseada a política de alta dos juros, de seus incertos benefícios e das consequências negativas que pode trazer, inclusive falência do país. Assista se você tiver interesse em entender como foi que embarcaram você em uma viagem na maionese cuja conta pode chegar a 500 bilhões de reais, que serão pagos por você, sabe para quem?  Para o bolso dos ricos.

Isso tudo pode acontecer sem que os autores sejam incomodados pela mídia, por princípios orçamentários ou pelo que quer que seja. Veja o que é o poder da viagem na maionese.

O agente 007 tinha licença para matar. O BC Independente tem licença para gastar, para ser um Robin Wood às avessas.

Enquanto isso, no Congresso, os nobres parlamentares se desgastam com seus eleitores para obter uns trocados. Eles precisaram criar expedientes como o chamado orçamento secreto, para obter a ninharia de 30 bilhões de emendas parlamentares, sofrendo horrores com a mídia o tempo todo criticando, mais o STF ordenando transparência. Quase sinto pena deles.

Nos próximos vídeos, você vai ver os tiros verbais de Lara Resende, quem fugiu apavorado antes do evento acabar e a reação dos presidentes de Banco Central que ficaram até o fim e tiveram a oportunidade de reagir.

Agradeço seu comentário, especialmente se acrescentar informações novas!