Elon Musk: “O dinheiro não importará em 2036”

Não gosto de falar sobre previsões de grandes mudanças que vão acontecer, sabe por quê? A maioria das pessoas tem enorme dificuldade de lidar com o que nunca viu. Outros julgam baseado se gostam ou não de quem falou, nem considerando o que foi dito. A reação inicial é sempre no sentido de rejeitar como impossível ou de rotular como especulação exagerada. É o condicionamento de olhar o passado para entender o futuro.

Nossa imaginação é, em grande medida, prisioneira da experiência. Tentamos projetar o futuro usando o que conhecemos. Sempre precisamos trabalhar para obter dinheiro, e precisamos de dinheiro para comprar comida, moradia, transporte e praticamente tudo o que consumimos. Parece simplesmente absurdo imaginar um mundo no qual essa relação deixe de existir.

Há uma frase atribuída a Albert Einstein que resume muito bem essa limitação:

– “Aquilo que a pessoa não conhece, não existe para ela.”

Imagine explicar a um camponês europeu do século XVIII que, no futuro, milhões de pessoas atravessariam oceanos em algumas horas, conversariam instantaneamente com alguém do outro lado do planeta e carregariam no bolso um aparelho com acesso a praticamente todo o conhecimento humano. Mesmo se quisesse acreditar na previsão, o camponês não teria como conceber o mundo descrito.

É nesse território que entra a previsão feita por Elon Musk em entrevista à editora-chefe do The Economist, Zanny Minton Beddoes, em 29 de julho de 2026.

A Entrevista

Ela perguntou a Musk como ele imaginava o mundo daqui a dez anos. Musk respondeu que, por volta de 2036, a inteligência artificial poderia superar amplamente a inteligência humana e que robôs humanoides poderiam levar a uma produção extraordinária de bens e serviços. A partir daí veio uma das previsões mais radicais. O homem mais rico do mundo disse que o dinheiro não servirá pra nada daqui a dez anos:

“Money won’t matter in 2036.”

O raciocínio de Musk é relativamente simples. Dinheiro é necessário porque os bens e serviços que desejamos são escassos. Se inteligência artificial e robôs forem capazes de produzir bens e serviços em quantidade muito superior àquilo que os seres humanos conseguem consumir, a própria função econômica do dinheiro começaria a desaparecer.

É uma previsão extraordinária. Não significa que ninguém precisará trabalhar. Significa que não será necessário que 100% da população precise de um emprego para garantir a própria sobrevivência. Essa diferença é fundamental.

O fim do trabalho obrigatório não é o fim do trabalho

Hoje, nossa economia está organizada em torno de uma relação aparentemente inevitável:

trabalho → salário → consumo → sobrevivência.

Quem não possui patrimônio suficiente precisa vender sua força de trabalho para obter dinheiro. Com o dinheiro, compra comida, moradia, energia, transporte, educação, entretenimento e todos os demais bens e serviços necessários à vida. O sistema funciona baseado na escassez.

Mas imagine uma situação em que máquinas possam cultivar alimentos, construir casas, transportar pessoas, fabricar produtos, cuidar de idosos, produzir energia, programar computadores e executar uma parcela significativa das atividades hoje realizadas por seres humanos. Nesse cenário, a sociedade não precisaria mais do trabalho humano na mesma proporção atual.

Uma pessoa poderia trabalhar porque quer, e não porque precisa trabalhar para não morrer de fome. Essa é provavelmente uma das ideias mais importantes escondidas na previsão de Musk. Não estamos necessariamente falando de um mundo sem trabalho. Estamos falando de um mundo em que trabalho e sobrevivência deixam de ser sinônimos.

Um ser humano poderia dedicar seu tempo à ciência, arte, esporte, filosofia, educação, entretenimento, convivência, viagens ou simplesmente ao prazer de fazer alguma coisa. Trabalhar poderia se aproximar daquilo que hoje fazemos por hobby.

Qual o problema que Musk não aborda?

É justamente nesse ponto que a previsão começa a ficar complicada. Musk descreveu o ponto de chegada, mas nada disse sobre o caminho até lá. E esse talvez seja o grande problema de toda essa transformação, um problema de natureza política.

Imagine que, nos próximos anos, um robô passe a realizar o trabalho de dez pessoas. Depois, uma geração de robôs realize o trabalho de cem. Depois, máquinas sejam capazes de produzir quase tudo aquilo que hoje exige milhões de trabalhadores. A Era da Abundância seria o resultado.

Mas quem será dono das máquinas? E, principalmente: como viverão aqueles que perderem seus empregos antes que as regras da distribuição da abundância estejam plenamente estabelecidas? Essa é a pergunta que não pode ser ignorada. O problema não está necessariamente em produzir abundância. Está na transição entre dois mundos economicamente incompatíveis.

O paradoxo da abundância

Existe aqui um paradoxo. A automação pode aumentar enormemente a capacidade produtiva e, ao mesmo tempo, destruir a fonte de renda de milhões de pessoas. Quanto mais eficiente a máquina se torna, menos trabalhadores são necessários. Quanto menos trabalhadores são necessários, menor pode ser a massa salarial. Menor poder de compra de uma população que continua dependendo dos salários para consumir o que as máquinas produzem.

A pergunta realmente difícil passará a ser: como distribuir uma abundância produzida por máquinas quando o trabalho humano deixa de ser necessário? E essa pergunta não é tecnológica. É política, econômica, filosófica e, sobretudo, educacional.

Crise antes da mudança

Não é difícil imaginar um período extremamente turbulento antes de A Era da Abundância se tornar possível. Se a automação avançar rapidamente, poderemos assistir simultaneamente à redução do emprego, à pressão sobre os salários e ao aumento da produtividade. O resultado pode ser uma crise diferente de todas as anteriores.

Nas crises tradicionais, faltavam produtos, máquinas, energia ou capacidade produtiva. Na crise da automação, poderá acontecer o contrário: haverá capacidade produtiva em excesso e renda de menos nas mãos das pessoas.

Nesse cenário, governos serão pressionados a encontrar alguma forma de criar poder de compra. Poderão surgir modelos econômicos que hoje parecem radicais.

Provavelmente haverá enorme resistência. Porque estamos tentando resolver um problema do século XXI utilizando instituições construídas em séculos passados. E é aqui que voltamos à dificuldade humana de imaginar aquilo que não conhecemos.

A educação terá de mudar radicalmente

Musk pode estar errado sobre 2036? Talvez tenha exagerado a velocidade das coisas ou subestimado obstáculos diversos de natureza técnica, política ou energética. Mas ele está falando de uma crise que já existe há duas ou três décadas, que a inteligência artificial e a robótica poderão impulsionar de forma exponencial.

Quando os meios para ter abundância chegarem, talvez a maior transformação não precise ocorrer nas fábricas. Precisará ocorrer na cabeça das pessoas.

Durante milhares de anos, fomos educados para sobreviver em um mundo de escassez. Aprendemos que precisamos competir por empregos. Precisamos ganhar dinheiro. Precisamos acumular patrimônio. Precisamos proteger aquilo que é nosso. Precisamos vencer os outros para garantir nosso lugar.

Esses comportamentos não são necessariamente perversos. Eles são, em grande medida, respostas racionais a um sistema baseado no egoísmo, em que os recursos são limitados.

Mas imagine uma sociedade na qual máquinas possam produzir praticamente tudo aquilo de que precisamos. Nesse mundo, talvez a competição permanente deixe de ser uma necessidade e passe a ser um desperdício. A educação das próximas gerações precisará ensinar algo que nossa civilização nunca aprendeu: como viver em abundância.

Isso pode parecer paradoxal. Estamos acostumados a ensinar crianças a competir. Precisaremos ensinar a cooperar. Estamos acostumados a associar sucesso à acumulação. Talvez precisemos associar sucesso à contribuição.

Estamos acostumados a perguntar: “Quanto eu consigo obter?” Talvez a pergunta do futuro seja: “Quanto podemos criar juntos?”

Do egoísmo à solidariedade

O capitalismo desenvolveu mecanismos poderosos para estimular a produção. No entanto, há uma narrativa recorrente de que o capitalismo teria sido o motor do extraordinário aumento de produção dos últimos cem anos, muito embora, na sua essência, o capitalismo exista há milênios. Neste post, “Qual a causa do salto da ciência nos últimos 200 anos?”, mostro que o motor do capitalismo só apareceu depois que mentes brilhantes passaram a não precisar mais plantar e criar galinhas para sobreviver.

Com a ciência abrindo caminhos, a mecânica do capitalismo facilitou o aumento da produção em um mundo de escassez. Mas o que acontecerá quando a produção deixar de depender do esforço humano? Quando uma máquina pode produzir mais praticamente sem custo adicional significativo, a lógica muda.

Passa a ser necessário substituir uma cultura baseada na competição por outra baseada na solidariedade. Não porque os seres humanos tenham subitamente se tornado melhores, mas porque as condições materiais da existência terão mudado.

Uma sociedade de abundância dificilmente funcionará com a mesma psicologia social de uma sociedade de escassez. Seria como colocar um motor de avião em uma carroça e esperar que tudo continue funcionando normalmente.

A Grande Transição

A previsão de Elon Musk é muito mais profunda do que sugere a simples afirmação de que “a Inteligência Artificial vai acabar com os empregos”. O verdadeiro acontecimento histórico poderá ser a separação entre trabalho e sobrevivência.

Durante praticamente toda a história humana, uma pessoa precisava produzir alguma coisa para conseguir o que precisava para viver.

Caçávamos. Plantávamos. Criávamos animais. Construíamos. Fabricávamos. Comercializávamos. Trabalhávamos.

A ideia de uma sociedade em que só uns poucos precisem trabalhar é tão estranha que muitas pessoas simplesmente não conseguem imaginar isso, ou aceitar.

Na China atual, a população passou a ter consciência do poder da tecnologia. Eles reverenciam cientistas. Com certeza, o chinês acredita em Elon Musk, acredita que é possível a ciência produzir o mundo da abundância. No Ocidente é diferente. Musk está descrevendo o destino. O problema é a viagem. E essa viagem poderá ser extremamente turbulenta para os ocidentais.

A tecnologia avança mais rapidamente do que nossa capacidade de reorganizar a sociedade. Hoje, já estamos assistindo ao início de uma crise sem precedentes: redução de vagas (especialmente das que pagam mais), queda no valor real dos salários, concentração da produção em cartéis, redução do consumo e conflitos políticos provocados por uma população que está perdendo sua função econômica.

Em 04/10/2023, em homenagem ao grande especialista em trabalho humano, Domenico de Masi, falecido no mês anterior, produzi uma série de três posts sobre “A Era da Maionese”, que fala de mais duas transições ocorridas em passado recente, que as pessoas não se dão conta por já terem nascido após sua concretização, quando já moravam em cidades e consumiam maionese industrializada:

  1. https://maioneses.com/2023/10/04/a-era-da-maionese-1-quando-o-desemprego-nao-existia/
  2. https://maioneses.com/2023/10/05/a-era-da-maionese-2-a-experiencia-urbana/
  3. https://maioneses.com/2023/10/27/a-era-da-maionese-3-empregos-de-verdade-estao-acabando/

A humanidade sempre viveu no campo. Não havia desemprego. A transição para a vida nas cidades só se torna viável se houver dinheiro para pagar as contas básicas: casa, comida, água, energia. Para ter dinheiro, precisa ter emprego. Domenico de Masi mostrava com números que a Era Urbana estava chegando ao fim. Ele detectou aumento da produção associada à redução do número de empregos. Domenico alertava para a gravidade do problema.

A crise já existe, vem aumentando e pode acelerar de forma exponencial com a inteligência artificial. Isso vai obrigar a humanidade a abandonar uma visão que hoje parece absolutamente natural: a de que uma pessoa precisa vender seu trabalho para merecer o direito de viver.

O verdadeiro salto civilizatório

A abundância material pode ser produzida pelas máquinas, mas a sociedade de abundância não será produzida por nenhuma máquina. Essa será uma tarefa humana. Um salto civilizatório.

Robôs poderão construir casas. Inteligência artificial poderá produzir conhecimento. Máquinas poderão cultivar alimentos. Sistemas automatizados poderão fabricar praticamente tudo. Mas nenhuma máquina decidirá, sozinha, como devemos dividir aquilo que ela produz. Essa decisão será nossa. E talvez seja esse o verdadeiro teste da nossa espécie, se merecemos ou não ser chamados de Sapiens.

Conseguir criar uma tecnologia capaz de produzir abundância pode ser relativamente fácil quando comparado com a tarefa de convencer bilhões de pessoas de que, em um mundo de abundância, solidariedade é mais racional do que egoísmo.

Talvez essa seja a maior mudança de todas. Não a máquina que substituirá o trabalhador. Mas o ser humano que finalmente descobrirá que não precisa mais viver como se ainda estivesse lutando pela sobrevivência em uma savana.

Para isso, será necessário educar uma geração inteira para compreender algo que hoje ainda parece quase impossível: – É não precisar lutar contra o outro para ter mais maionese em casa do que podemos consumir.

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