Viagem na Maionese pode provocar ataque nuclear

Por ser o esporte mais popular na Rússia, o xadrez tem frases conhecidas não só entre os jogadores russos, mas por todos os enxadristas do mundo. Vou falar de uma frase de Aaron Nimzowitsch, cuja carreira chegou ao auge nos anos 30, quando ele chegou a ser o desafiante de dois campeões mundiais. Não os venceu, não chegou ao título, mas é reconhecido como um dos maiores jogadores da história.

Nascido em Riga, na Letônia, que na época era parte do Império Russo, Nimzowitsch era judeu alemão de uma família rica. Ele aprendeu a jogar xadrez com seu pai.

Durante a Revolução Russa de 1917, Nimzowitsch estava na zona de guerra báltica. Ele escapou de ser convocado para um dos exércitos fingindo loucura, insistindo que tinha uma mosca na cabeça. Em seguida, ele escapou para Berlim, e informou seu primeiro nome como sendo Arnold e não Aaron para evitar a perseguição antissemita. Cinco anos depois foi embora para a Dinamarca, onde viveu em Copenhagen até sua morte aos 48 anos, causada por pneumonia. Uma pena que tenha ido tão cedo.

Eu aqui, nos campeonatos de xadrez que joguei, venci partidas importantes usando uma provocativa defesa criada por Nimzowitsch. Mas vamos à frase que ele disse, muito interessante e conhecida no mundo do xadrez, que é a seguinte:

A ameaça é mais forte do que sua concretização.

Vou explicar. Esta frase é aplicável em situações onde o jogador identificou as intenções de ataque de seu oponente, o plano de ataque. Ele teme este ataque. Durante a fase de ameaça, o atacado passa por um processo de estresse muito forte que só vai terminar quando ocorre a concretização do ataque.

Após várias escaramuças, se não houver uma definição da partida nesta fase, em geral emerge uma nova situação, uma nova fase do jogo mais calma, onde as chances de cada um podem ser avaliadas a longo prazo. Um alívio. Por conta disso, os enxadristas concordam que a ameaça é mais forte do que sua concretização.

O presidente russo Vladimir Putin está passando por esta situação neste momento. Mesmo armado até os dentes, dispondo das armas mais letais, ele já identificou que está correndo risco de ser morto. A diferença para o jogo de xadrez é que ele não tem apenas um oponente, mas uma grande quantidade deles, inclusive seus protegidos bilionários russos, os mais poderosos do país.

Prejudicados por sanções econômicas nunca antes aplicadas, suas fortunas estão sendo arrasadas e seus bens, como mansões e iates de luxo, estão sendo confiscados, com grande prejuízo para suas vidas pessoais. Vou mostrar a lista da Forbes contendo alguns deles.

Um deles, banqueiro, Alex Konanykhin, ofereceu dinheiro pela cabeça de Putin. Ele depois se retratou e disse que a recompensa não é pela morte, mas pela prisão de Putin.

Outros, mais prudentes, com medo de serem envenenados, não vão revelar suas intenções.

Onde quero chegar? É evidente que Vladimir Putin sabe que sua morte é capaz de ser a melhor solução para dois problemas: dar fim definitivo na guerra e nas sanções econômicas. Porém, soluciona um terceiro também, o risco de uma futura nova invasão ou de coisa pior.

Assim, Vladimir Putin está vivendo a fase de estresse máximo no seu xadrez. Ele sabe que pode ser atacado a qualquer momento, por qualquer um ou por um drone em seu bunker durante seu sono. Não pode confiar em ninguém.

Neste momento, ele reúne vários inimigos internos e externos, todos poderosos, todos dispondo dos meios de concretizar a ameaça que ele tanto teme. Se a mosca na cabeça livrou Nimzowitsch de lutar na guerra, Vladimir Putin tem uma mosca na cabeça que o está deixando louco, pois sabe que não vai se livrar dela nem mesmo se voltar atrás e parar a guerra. Vai ficar a desconfiança que tudo pode começar de novo.

Assim, ele suspeita que, se continuar no cargo de presidente, a ameaça contra a sua vida pode vir a se concretizar, ele só não sabe quando, nem quem será o autor.

Portanto, tudo isso somado leva a uma situação na sua cabeça em que vão se multiplicando as viagens na maionese, uma maionese repleta de moscas.

Nos próximos dias, pode ser que Putin seja alvo de uma tentativa de assassinato. O problema surgirá se a tentativa não for bem-sucedida. Aí vamos ter um problema grande no xadrez da geopolítica mundial. Um problema atômico nuclear.

Se sobreviver, Putin vai embarcar em uma viagem na maionese na ânsia de identificar um culpado pelo atentado. Vai escolher um. Um viajante da maionese não fica na dúvida. Ele não tem dúvidas, só certezas. Se não souber quem foi, vai eleger um culpado.

O mundo estará, portanto, correndo sério risco de uma detonação atômica causada pelo quê mesmo? Por uma viagem na maionese de quem pode apertar o botão vermelho.

Matérias recentes sobre o assunto:

04/03/2022: “Existe um Brutus na Rússia? Existe um Coronel Stauffenberg mais bem-sucedido nas forças armadas russas?” Graham twittou. “A única maneira disso terminar é alguém na Rússia eliminar esse cara. Você estaria prestando ao seu país – e ao mundo – um grande serviço.”  Senador americano Lindsey Graham 

05/03/2022: Eliminar Vladimir Putin é “uma das ações possíveis” para o conflito terminar. Um dado sobre o medo de Putin: “O presidente toma cuidado quando se filma, há sempre um fundo branco, então não podemos ver onde ele está” , explica. Ex-chefe de inteligência da França, General Christophe Gomart, co-autor de “Soldat de l’Ombre”

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