“O trabalho é um vício recente.” Esta é a frase que mais aprecio deste sociólogo italiano genial, que faleceu no mês passado aos 85 anos (em 9 de setembro de 2023). Domenico De Masi foi sem dúvida o mais eloquente dos especialistas na história do trabalho humano.

Você sabe como era o trabalho na pré-história? Na Europa medieval? Antes de 1900? E depois de 1900, quando foi inventada a maionese industrializada? Estamos caminhando para uma nova Era? Você faz ideia de como será o trabalho no século XXI, daqui a uma ou duas décadas?
Este é o primeiro vídeo da série “A Era da Maionese”, uma série de vídeos sobre o trabalho, inspirada na obra de Domenico de Masi. Sua obra alertava o mundo para a catástrofe que está em curso: a redução dos empregos, que é consequência do avanço tecnológico. Alguns dizem que a tecnologia é a causa do desemprego, mas a ciência não é culpada de nada. O destino natural da ciência é avançar. Os problemas têm que ser resolvidos pelos políticos e economistas. Aí é que o bicho pega.
Há muitos mitos sobre o trabalho humano, muitas certezas que as pessoas carregam sobre o passado, o presente e o futuro do trabalho humano. Este canal, sua missão é combater as certezas. Certezas que você deve carregar, algumas pelo menos.
A humanidade passou por 3 Eras. A primeira e mais longa foi a Era dos Homens Livres, quando o homem era dono do seu tempo de vida, trabalhava pouco, trabalhava quando achava conveniente. A segunda, a era atual, a Era Urbana, é o tempo em que o homem deixou de ser dono do seu tempo; ele passou a aceitar ter um chefe em troca de poder viver nas cidades. A terceira era, que está se iniciando, é a Era da Escravidão: o homem passando a implorar por uma vaga como escravo em troca da sobrevivência nas cidades.
Vou começar pelo começo.
A humanidade existe há 300.000 anos. Durante 99% deste tempo o homo sapiens era nômade e vivia livre, perambulando pelo mundo atrás de caça e vegetais para comer – a fase que os especialistas chamam de Caçadores-Coletores. Há 10 mil anos, mudou um pouquinho. Surgiram os primeiros grupos a utilizar a agricultura. Começou a fase agrícola, que ainda levaria milhares de anos para fixar a humanidade no campo. Todo esse tempo, que durou 299.900 anos, foi a Era dos Homens Livres, quando o desemprego não existia.
Há uns 100 anos começou a Era da Maionese Industrializada, quando o imigrante alemão Richard Hellmann passou a produzir maionese em potes de vidro, em Nova York. Daí em diante, o ser humano, aos poucos, foi migrando para as cidades. Passou a obedecer a um patrão. Passou a não se incomodar em deixar de ser dono de seu tempo, em troca de um salário, que permitia viver nas cidades.
A população urbana só veio a se tornar maioria no mundo sabe quando? Em 2010. O gráfico mostra a população rural e urbana por continente em 1950 e 2020.

Em 1950, metade da população da Europa e das Américas viviam no campo. Agora, as Américas lideram com mais de 80% de população urbana, seguidas pela Europa com 75%. Os continentes mais populosos, Ásia e África, ainda têm predominância de população rural.
Você já teve curiosidade de saber como era o trabalho quando quase todo mundo morava no campo? Vamos ver o que diz Domenico de Masi, um dos maiores especialistas no trabalho humano. Li seus principais livros, inclusive o mais conhecido deles: “O Ócio Criativo”.

Neste outro livro, “O Futuro do Trabalho”, Domenico explica como eram as coisas. A nobreza não trabalhava, ao contrário dos ricos de hoje em dia que trabalham pra caramba. A plebe trabalhava, mas não tanto como hoje em dia. O trabalho no campo ocupava não mais que quatro ou cinco horas por dia, bem divididas. Eram umas horinhas no início da manhã e outras no fim da tarde, horas em que o Sol incomodava menos. As férias eram longas. No inverno, os camponeses ficavam inativos. O tempo livre era preenchido em um número enorme de festas, antes pagãs, depois cristãs.
Se você é teimoso, acha que não era assim, que o trabalho no campo era exaustivo, vamos ver o que dizem dois dos mais renomados arqueólogos de universidades de Londres, dois Davids, o Graeber da London School e o Wengrow do College London. Se você tem interesse em antropologia, este livro desmente todas as viagens na maionese criadas por interpretações tendenciosas que sempre foram feitas para justificar crenças sobre o que havia de natural na humanidade pré-histórica. Qualquer hora faço um vídeo sobre essas crenças sem fundamento que você deve ter visto na escola.
Eles dizem que o servo medieval oprimido, coitado, trabalhava em média menos que um expediente de nove à cinco. Os caçadores-coletores trabalhavam menos ainda, entre duas e quatro horas por dia fazendo algo que se poderia considerar como trabalho. Eles concluem que o trabalho só passou a ser isso que você conhece em tempos muito recentes. E o desemprego? Não existia.
Você quer ver as fontes? Vou deixar um print das páginas dos livros contendo as informações que citei. Vai estar tudo no site deste canal – http://www.maioneses.com.
– Ah, Marco Polo, você está dando a entender que a vida era boa no campo, mas eu já li em algum lugar que a expectativa de vida era de trinta e poucos anos.
É verdade que se vivia menos, trinta e poucos anos EM MÉDIA. Porém, não é bem assim. Médias são números que enganam. A mortalidade infantil era tão alta que puxava a média para baixo. Até um terço das crianças morria antes de completar um ano de idade; e metade delas não passava dos dez anos. Para os sobreviventes, as chances melhoravam bastante. Não era incomum chegar aos 70.
Ainda não estou comparando vida urbana e rural. O que estou tentando transmitir neste vídeo é que a vida como conhecemos, a vida urbana e o trabalho nove às cinco, é uma experiência recente, coisa que muitos não percebem, porque quando nasceram já era assim.
Mas… o que pode acontecer se não houver trabalho para todo mundo nas cidades? E as mudanças que estão acontecendo? As compras pela internet detonando empregos no comércio, máquinas substituindo homens na indústria, o mesmo no campo, a inteligência artificial, a China ocupando espaço no mundo econômico, produzindo tudo melhor e mais barato que o Ocidente? O que vem por aí?
Se eu fosse você, se inscrevia no canal, clicava no sininho em todas para não perder nenhum dos vídeos desta série sobre o trabalho humano.