A Era da Maionese 3 – Empregos de verdade estão acabando

No último vídeo mostrei que a experiência urbana é algo recente na trajetória da raça humana. A vida nas cidades só é viável se houver dinheiro para pagar as contas: casa, comida, água, energia… Para ter dinheiro, precisa ter emprego. Portanto, a continuidade da Era Urbana que estamos vivendo depende de haver empregos em número suficiente para atender à demanda.

Não falta nada nas cidades. A capacidade de produção de tudo está aumentando graças à associação da tecnologia com a lógica do sistema capitalista. O mundo está produzindo de tudo cada vez mais com exceção de uma única coisa: empregos. Empregos estão desaparecendo.

Domenico De Masi tinha plena consciência disso. Ele defendia ideias para ampliar a OFERTA de empregos. A principal delas era a redução da carga horária diária para obrigar as empresas a contratar mais. Cortar um dia de trabalho semanal, fazer semana de 4 dias úteis ao invés de 5. Houve experiências bem-sucedidas na Inglaterra que agora estão tentando fazer no Brasil. Vou falar sobre isso em breve aqui no canal.

Esta solução talvez seja aplicável na Europa, cuja população está estabilizada. Nos países em que a população teve crescimento expressivo nos últimos 20, 50 anos, parece não haver solução sem ter que  mexer na lógica do sistema econômico em que vivemos. Quais são esses países com expressivo crescimento populacional? Todos, todos que estão fora da Europa.

O problema na ponta da DEMANDA de empregos é de tamanho tão colossal, que não tem como resolver pelo lado da oferta. O problema da superpopulação é gravíssimo, está explodindo e, mesmo assim, é ignorado pela mídia, pelos políticos e até por quem tem noção do tamanho do problema, mas mesmo assim resolve povoar o mundo com criança que não vai ter vida fácil. Todo mundo viajando na maionese.

Qual é o volume de jovens entrando no mercado de trabalho em cada ano? Esse número corresponde mais ou menos ao número de nascimentos há uns 20 anos atrás.

Vamos ver os números do Brasil. Vou pegar no IBGE a população que havia completado um ano de idade em 2002 (para evitar influência da mortalidade infantil): foram 3,3 milhões em 2002 (esse número caiu para 2,9 milhões em 2022). Para simplificar, vamos considerar 3 milhões o número de jovens entrando no mercado de trabalho a cada ano.

Vamos ver agora as vagas que abrem. Em 2022, morreram quase um milhão e meio. A informação é do Registro Civil. Três menos um e meio dá um e meio. O Brasil precisa gerar um milhão e meio de vagas de emprego todo ano. Não há nenhum país capaz de gerar tanto emprego, tirando China e EUA. No Brasil do  século XXI, em 20 anos, isso só ocorreu em 3 ou 4 anos, conforme mostra esse gráfico produzido pela turma do InfoMoney. Em compensação o mesmo gráfico também mostra 3 ou 4 anos negativos, com desaparecimento de vagas.

O que o gráfico não mostra? Que todas as vagas geradas no século XXI foram vagas de salário mínimo, segundo esta matéria de OGLOBO de 2020. Esta matéria é de um jornalista de dados, um especialista em informática. Ele é bom em extrair e analisar grandes massas de dados. Já o pesquisador economista brasileiro só enxerga números relativos. Fica comparando percentuais de raças, gênero, pobre e rico. Só enxerga as poças d’água, enquanto o mar está secando – o que dá pra ver simplesmente olhando os números absolutos, fazendo o mais simples. No futuro voltarei a esse assunto do sumiço das vagas acima de 2 salários-mínimos.

Vamos sair do Brasil e voltar ao mundo. Quero oferecer a você a dimensão do problema no mundo. O problema da superpopulação é mundial, com exceção da Europa. Porém, nenhum país desenvolvido vai conseguir escapar de invasões em massa nas próximas décadas.

Últimos 50 anos. Você sabe quanto cresceu a população URBANA no mundo nos últimos 50 anos? De 1970 para cá, a população urbana triplicou na América Latina e também no Brasil. Na América do Norte, duplicou. Na Europa cresceu pouco, coisa de 37%, em grande parte por conta de imigração. Na Ásia, a população vivendo nas cidades multiplicou por quase 5. Já na África, a coisa complicou. População urbana multiplicou por 8. Um horror.

Últimos 20 anos. A população urbana mundial subiu de 3 bilhões em 2002 para 4,5 bilhões – um crescimento espantoso de 50%, um bilhão e meio de habitantes a mais. Já o PIB mundial dobrou neste mesmo período em termos reais.

Vou fazer uma pergunta agora. Se a produção mundial dobrou e a população cresceu 50%, então deveria estar sobrando emprego aí pelo mundo. Mas… Será que a quantidade de empregos cresce com o aumento da produção? Parece natural acreditar que uma coisa tem a ver com a outra. Aumenta a produção, aumenta os empregos. Só que o mundo está mudando em alta velocidade.

A ciência vem tendo um enorme sucesso em mecanizar a produção. Para quê? Para economizar, evitando trabalho humano, que é menos eficiente e custa mais caro do que máquinas. A lógica do sistema capitalista é na mesma direção: evitar trabalho humano para aumentar a produtividade, que é produzir mais, com menos trabalhadores, pagar menos salários. Então, é natural o triunfo da união da ciência com a lógica capitalista, o triunfo de uma lógica feita para o progresso sabe de quem? Da pessoa jurídica, a pessoa jurídica progride com essa lógica, enquanto a pessoa física é transformada em peça de engrenagem, coisa que você viu no vídeo anterior.

A tendência é diminuir a oferta de trabalho, o valor dos salários e a qualidade dos empregos, conforme vem acontecendo mundo afora há tempos. A produção passa a crescer com menos empregados, conforme constatou Domenico De Masi lá no final do século passado, em suas pesquisas com grandes empresas.

– Ah, Marco Polo, por que ninguém avisa que a realidade é essa?

É porque a mídia joga o foco no mais fácil, os números do desemprego – os mais divulgados. Os índices oficiais de desemprego têm pouca utilidade, porque refletem a situação de uma parcela pequena da população que procurou e não achou emprego. No Brasil, se o sujeito vendeu balinha no sinal ou se trabalhou 1 hora apenas na última semana, ele não é um desempregado. O foco da mídia neste índice fajuto impede o cidadão de ficar sabendo que os empregos precários estão ocupando o espaço dos empregos de verdade.

A realidade do mercado de trabalho é bem mais complexa. Requer melhorar a qualidade dos dados. No Brasil, todos os dados são de má qualidade, mas a divulgação deles no site do IBGE é um horror.

Se você chegou até aqui é porque optou pela pílula vermelha de Matrix e está interessado mesmo em conhecer a realidade. Vamos lá.

O censo de 2022 mostrou que o IBGE errou a projeção de população em 12 milhões. O site do órgão ainda está produzindo estatísticas baseadas em uma população de 215 milhões, ao invés do número correto de 203 milhões. Assim, para chegar a estimativas menos erradas, tive que fazer uma regra de três para ajustar os números oficiais da pesquisa sobre emprego, a PNAD do IBGE.

Vamos aos números.

Dos 203 milhões de habitantes, vamos tirar quase quarenta milhões abaixo dos 14 anos de idade. O Brasil tem 165 milhões em condições de trabalhar. Destes 165 milhões, 51 milhões estão trabalhando na economia formal e 114 milhões estão fora do mercado de trabalho ou são empregados com vínculos precários. Ou seja, há mais de cem milhões sem a segurança de um emprego de verdade.

Vejam o que diz esta matéria de meados do ano passado, que interpreta os dados da PNAD. Mostra a situação de 106 milhões de brasileiros, que vivem em situação difícil, sem renda suficiente para uma vida digna. Reparem que este número é parecido com o que aumentou a população brasileira nos últimos 50 anos. Aumentou em 110 milhões. Ou seja, mais gente, mais pobreza. Esta tem sido a regra em todos os países com população crescente, exceto a China.

Agora vamos entender a composição dos 114 milhões que estão na pior.

Dos 114 milhões sem vínculos ou com vínculos precários:

  • 63 milhões desistiram de procurar emprego;
  • 25 milhões trabalham por conta própria, a maior parte vivendo de bicos;
  • 12 milhões tem empregos sem carteira assinada;
  • 6 milhões são empregadas e empregados domésticos;
  • e os desempregados são 8 milhões.

Ao invés de acompanhar e estudar esses 114 milhões, conhecer melhor essa gente, a ênfase está focada apenas nos 8 milhões de desempregados.

Agora vamos explorar os 51 milhões com emprego formal.

  • 35 milhões com carteira assinada no setor privado;
  • 12 milhões de empregados dos governos federal, estadual e municipal;
  • e 4 milhões são empregadores.

Quantos destes 51 milhões estão no mercado formal e ganham um salário que proporcione um padrão de vida razoável? Vamos supor um valor acima de um salário-mínimo europeu – coisa de mil euros ou 5.300 reais por mês. A resposta vou dar em breve, baseado em arquivos da Receita Federal. Eles botam e tiram do site esses arquivos, que ficam escondidos. No tempo de Paulo Guedes, vinham formatados. Agora piorou – o descaso com dados sempre foi grande no Brasil. Mas eu tenho tudo guardado aqui e vou mostrar para você em breve. Inscreva-se no canal, clique no sininho e em todos para ser avisado de novos vídeos.

Suspeito que o jornal Estadão leu o que escrevi. Três dias depois publicou um editorial falando a mesma coisa. Abaixo apresento os dois parágrafos iniciais e o final. 

http://www.estadao.com.br/opiniao/ha-vagas-para-trabalho-precario/ 

Agradeço seu comentário, especialmente se acrescentar informações novas!