Viver nas cidades e trabalhar de nove às cinco é algo que as pessoas acham natural, mas nunca foi. Na verdade, é uma experiência que a humanidade fez nos últimos cem anos. O resultado da experiência estamos vendo agora. As pessoas estão começando a tomar consciência de que algo saiu errado, muito errado.
No vídeo anterior, você viu como era a vida e o trabalho antes da Era Urbana. Segundo Domenico de Masi, antes da Era da Maionese Industrializada a nobreza não trabalhava, ao contrário dos ricos de hoje em dia. A plebe trabalhava, mas não tanto quanto hoje, nem de forma compulsiva.
Há outras importantes diferenças entre a experiência da vida urbana e a vida no campo.
Primeira. Nas cidades tudo precisa ser comprado – a comida, a moradia e até a água.
O sujeito fica dependente de uma fonte de dinheiro, deixando de ser um homem livre. A história recente é a história da escravidão moderna, onde o escravo aceita ser escravizado, porque precisa de dinheiro para viver nas cidades. Para a coisa funcionar, não pode haver desemprego urbano, especialmente em países frios, onde dormir ao relento significa risco de morte. O desempregado morre se não tiver dinheiro para pagar não só o aluguel, mas também a conta de energia, a conta de aquecimento.
Segunda diferença: a procriação.
Nos tempos rurais filhos eram um bom negócio. Filhos eram o plano de previdência dos pais. Eram também braços que ampliavam a renda do núcleo familiar. Os pais não se preocupavam com o futuro dos filhos, que não precisavam arrumar emprego para sair de casa. Quando se casavam, os filhos construíam suas casas ali por perto. O desemprego não era problema no campo. Já na vida urbana, procriar é péssimo negócio. Filho é um fardo pesado, que toma tempo, custa caro e prejudica a carreira profissional dos pais. Sem contar que pelo menos metade dos casais acabam separados – mais dificuldades.
Tem mais uma diferença importante. Na vida rural, a pessoa conta com parentes vivendo nas proximidades, caso tenha algum problema que o impeça de produzir seu sustento, como uma doença. Na vida urbana, há muita mobilidade. O homem costuma migrar de cidades, vai para longe de seus parentes em busca de trabalho. Não tem a quem recorrer. Ninguém quer saber se você tem problemas de saúde, depressão ou inaptidão por qualquer motivo. A vida nas cidades é uma guerra cruel, diária e solitária, baseada em uma lógica capitalista, uma lógica egoísta de competição, onde o mais fraco se dá mal.
Qual a lógica da oferta de empregos, de quem fornece empregos? São empresas que seguem a lógica do capitalismo selvagem. Seu propósito é empregar menos funcionários e pagar salários, os menores possíveis. Os interesses são antagônicos. O lado mais forte é o das empresas.
Já em 1999, Domenico de Masi alertava os governantes para a realidade que estava detectando em suas pesquisas. Empresas com mais de 500 empregados estavam expandindo sua produção em 18%, enquanto reduziam o número de trabalhadores em 22%. Uma realidade em que o mundo das máquinas muda mais rápido do que os hábitos, mentalidades e normas. Ele fala de um sistema econômico incapaz de fazer frente não só à destruição dos empregos, como também à destruição do meio-ambiente – a vida no planeta está ameaçada.
Mesmo os bem empregados estão insatisfeitos. Os salários da classe média estão em queda nos países desenvolvidos. Nos países subdesenvolvidos, como o Brasil, a situação é pior: estão sumindo os empregos que pagam salários melhores, a cada ano essas vagas estão desaparecendo no mercado formal de emprego e ninguém te avisou.
A culpa não é da tecnologia, que é apenas um instrumento. Vou te mostrar agora quem são as pessoas mais favorecidas pelo sistema.
Os maiores beneficiados são as pessoas jurídicas. O sistema é feito para estas pessoas enriquecerem – as Sociedades Anônimas. As grandes corporações.
Portanto, os beneficiados pela lógica do sistema são pessoas sem alma, sem coração, sem sentimentos, pessoas completamente indiferentes aos dramas da humanidade, ao aquecimento global, à destruição do meio ambiente. Assim são as pessoas jurídicas.
Com o passar das décadas, seus sócios vão morrendo, mas as corporações prosseguem com as participações acionárias diluindo entre os herdeiros. Hoje em dia, nos países desenvolvidos, são raras as grandes corporações cujo tem dono possui mais de 50% de participação. São raros os casos de sócios com mais de 5%. As sociedades anônimas são comandadas por administradores profissionais, que também são seus empregados – todos trabalhando pela mesma lógica de crescer e produzir lucros, cada vez maiores.
O ser humano construiu uma armadilha para si próprio. Hoje, somos escravos de pessoas jurídicas, que não têm existência física, que seguem uma lógica econômica absurda, individualista, perversa, que não se importa com o destino das pessoas físicas.
No próximo vídeo você vai ter uma visão do panorama atual do mundo do trabalho. Um choque de realidade. Recomendo que antes você decida qual pílula prefere, a vermelha ou a azul, do filme Matrix. Você lembra desse filme de 1999? Um filme de ficção científica estrelado por Keanu Reeves? Quem gosta de viajar na maionese não pode deixar de assistir a este filme.
Matrix 1999 – No vídeo acima, Morpheus explica para Neo o que é a Matrix