Quem é John Horgan? É um jornalista de ciências, especialista em viagem na maionese, mas ele não sabe disso, porque não existe essa expressão em inglês. Significa especialista em detectar fuga da realidade. Você vai ver como ele comprovou saber mais que físicos que ganham o Nobel usando a compreensão avançada que possui, que lhe permite a detecção de partículas de maionese em super-teorias de físicos. Ele não superou um físico ou outro, mas sim toda uma geração de físicos de ponta.
John Horgan foi o primeiro a alertar para a presença de moléculas de maionese na Teoria das Cordas, a principal Teoria de Tudo, aquela que iria explicar tudo, unificaria todas as forças e exporia a origem de todas as partículas. Lá no fundo de tudo, na base da matéria, da energia e até mesmo do espaço e do tempo, cordas infinitesimais vibram em 10 ou mais dimensões. A ideia é que essas partículas seriam simplesmente diferentes modos de vibrar de uma corda minúscula, tão minúscula que talvez só houvesse alguma chance de comprovação com a tecnologia que pode estar adiante no tempo 1 milhão de anos.
Este mês, mostrei em um vídeo o astro brasileiro da física, Marcelo Gleiser reconhecendo que havia perdido o entusiasmo com a Teoria das Cordas, que foi o objeto de sua tese de doutorado de 1986. Por que isso ocorreu? Porque ele percebeu que não faz sentido aguardar 1 milhão de anos para testar a teoria.
John Horgan já desconfiava disso em 2002, quando desafiou Michio Kaku, o físico teórico astro do Canal Discovery, em uma aposta para ser conferida em 2020, 18 anos depois de formalizada. Horgan apostou que ninguém ganharia Prêmio Nobel por trabalhos sobre a teoria das supercordas ou alguma outra teoria unificada.
Cada um tirou do bolso US$ 1.000 em uma aposta no Long Bets , um site da Califórnia, bancado por Jeff Bezos da Amazon, que registra apostas de longo prazo. Segundo as regras, os US$ 2.000 apostados vão para uma instituição de caridade escolhida pelo vencedor. E quem foi ele?
Na semana de divulgação do vencedor, do nobel de 2020, o físico Peter Woit publicou uma coluna com a manchete “Prêmios Nobel anunciados, John Horgan é o vencedor ”. John Horgan ganhou a aposta contra um físico de ponta. Merecia o Nobel de Física? Como é que a Fundação do Nobel explicaria conceder o prêmio de Física a um cara formado em jornalismo?
Éééééé, ele não é físico, mas sim um jornalista científico, formado na Universidade de Columbia em 1983 e logo depois virou redator da importante revista Scientific American entre 1986 e 1997, portanto, ocupou o cargo por 11 anos.
Sua brilhante carreira lhe permitiu a rara oportunidade de entrevistar os principais cientistas do mundo, que ele aproveitou para escrever seu primeiro livro, “O Fim da Ciência”, cujos capítulos continham críticas a cientistas e a ramos da ciência que estavam embarcados em viagens na maionese. É um livro sensacional que recomendo muito. Sua coragem de publicar críticas incomodou muitos cientistas, o que acabou custando seu emprego.
Não ganhou o Nobel, mas ganhou o prêmio de jornalista científico mais sagaz do planeta, concedido no início deste canal há 4 anos atrás, em 2021.
Não foi a primeira aposta que ele ganhou contra cientistas de ponta. Ele ganhou outra sobre a inflação cósmica, sobre a qual fiz este vídeo. A inflação teria ocorrido nas frações de segundo iniciais da criação do universo, uma teoria sagrada para os físicos. Em 1994, ele apostou uma caixa de vinho californiano como o famoso físico de Stanford, Andrei Linde, não ganharia um Prêmio Nobel até o final do século por seu trabalho sobre esta Teoria da Inflação do Universo. É uma teoria que se encaixa bem nos dados das observações cosmológicas, mas até hoje sem uma prova direta e incontestável.
Quando jovem, John Horgan foi influenciado por Stephen Hawking que, em 1981, havia escrito o artigo “O Fim da Física Teórica Está à Vista?“. Segundo Hawking a física estava prestes a descobrir uma teoria tão poderosa que a encerraria – seria o Fim da Física, algo que impressionou John Horgan. Quando John Horgan abraçou a carreira de escritor científico, o fez dominado pela emoção contagiante da crença de que a física estava se aproximando de um grande final, de desvendar o enigma da realidade!
Essa “teoria de tudo” unificaria a física quântica e a relatividade geral, que são matematicamente incompatíveis, e explicaria “todas as observações possíveis”, segundo Hawking . Essa “teoria definitiva” também explicaria por que existe algo ao invés do nada, e por que, dentre todos os universos possíveis, vivemos neste universo em particular, que permite nossa existência.
Em seu best-seller de 1988, “Uma Breve História do Tempo”, Hawking afirmou que uma teoria unificada poderia nos ajudar a conhecer “a mente de Deus”. Era uma piada. Hawking era ateu e acreditava que uma teoria final teria o efeito colateral de eliminar a necessidade de um criador divino.
Depois de se tornar redator de Scientific American em 1986, Horgan conheceu o CERN, o Fermilab e outros laboratórios. Entrevistou vários líderes da busca por uma teoria definitiva, incluindo Steven Weinberg, Murray Gell-Mann e Edward Witten, o maior físico vivo, o maior talento matemático, desde Newton. Conto detalhe da entrevista com Witten neste vídeo e muito mais.
Quando John Horgan conversou com Witten em 1991, já havia percebido que a teoria das cordas e outras candidatas a uma teoria unificada enfrentavam um problema sério: não podiam ser testadas. As teorias postulam que o teatro onde as coisas acontecem é do tamanho da escala de Planck, que é de 10 elevado a menos 35 metros. Isso é muito pequeno para ser investigado por qualquer experimento concebível.
Quando Horgan questionou Witten sobre a testabilidade da teoria das cordas, ou a falta dela, ele disse: “Boas ideias erradas são extremamente raras, e boas ideias erradas que sequer remotamente rivalizem com a majestade da teoria das cordas nunca foram vistas”. Trocando em miúdos, o que ele quis dizer: a teoria das cordas é bela demais para estar errada.
Em um perfil de Witten para a Scientific American, Horgan o chamou de “Flautista de Hamelin” da teoria das cordas. Esse flautista tocava música que fazia os bichos o seguirem. Witten convenceu muitos físicos a embarcar na viagem na maionese de que a teoria das cordas é a melhor candidata a uma teoria unificada.
Por que embarcou nesta viagem na maionese toda uma geração de físicos de ponta, pessoas guiadas pela lógica fria e racional, como é o caso de Marcelo Gleiser, isso durante 20 anos, nos anos 80 e 90? Vou dar a minha versão.
Eles tinham uma fé fervorosa nos então impressionantes avanços tecnológicos, que viriam a elevar a potência dos aceleradores de partículas, como o Cern e o Fermilab, máquinas colossais que encheram de esperança a cabeça dos cientistas. O entusiasmo os fez acreditar, delirar, que iriam achar novas partículas enquadradas na hipótese da supersimetria, uma teoria não testada, cujo sucesso seria crucial para a teoria das cordas.
Física não é nessa ordem. Primeiro vem o experimento, depois o cientista arruma uma explicação para o que viu. Eles inverteram a ordem das coisas. Primeiro, inventaram a explicação teórica, depois vieram as tentativas de fazer a natureza colaborar com a teoria, encaixar nela. Religião é que é desse jeito. Deus é o ponto de partida, a explicação de tudo, só resta aos humanos demonstrar uma coerência para a obra de Deus.
A comunidade científica, sobretudo jovens físicos teóricos, acreditavam tanto na supersimetria, que passaram a considerar uma certeza a futura descoberta das partículas previstas pela teoria, só uma questão de tempo até aparecerem. O fato é que as novas partículas não apareceram nem mesmo em 2010, quando o LHC ficou mais potente, mesmo assim não encontrou nenhuma partícula supersimétrica. A certeza evaporou, o entusiasmo decaiu, porque foi eliminada a possibilidade de as partículas existirem com massas abaixo dos limites máximos previstos.
Bem antes disso, em seu livro de 1996 , “O Fim da Ciência”, John Horgan havia reforçado suas críticas. Ele argumentou que a busca por uma teoria unificada está fadada ao fracasso devido ao problema da testabilidade. É uma realidade que os físicos não aceitam. Na verdade, jamais saberemos por que existe algo em vez de nada, jamais saberemos por que, dentre todos os universos possíveis, vivemos neste universo em particular, que permite nossa existência.
Provavelmente nunca saberemos como a vida começou, ou como a matéria produz mentes conscientes. Horgan previu que a ciência, em suas tentativas de solucionar esses mistérios, se tornaria cada vez mais “irônica”, ou seja, especulativa e não testável, não devendo ser levada muito a sério.
Este canal defende a tese de que o homem é pretencioso por natureza, seja ele um cientista ou um ser humano comum. A diferença está na dimensão da pretensão, que é proporcional ao tamanho do conhecimento. Ou seja, para um físico de ponta que sabe demais, sua pretensão tende ao infinito, ele acha que pode saber tudo.
Entretanto, os anos passam, a física avança e o que assistimos? Ao triunfo da tese de John Horgan, inspirador deste canal: quanto mais descobrimos, mais dúvidas aparecem, mais certezas se desvanecem. O mesmo vai acontecer com você daqui a dez anos. Vai mudar a maneira como vê as coisas, muitas de suas certezas vão se desvanecer.