Teoria das Cordas, é uma teoria para explicar o que são todas as 5 dúzias de partículas fundamentais. Todas seriam sabe o quê? Diferentes modos de vibrar de uma corda finíssima. Tudo o que existe seria vibração. E mais: todas as forças conhecidas seriam decorrentes de uma única força, por isso a teoria é conhecida como Teoria Unificada, por ser teoria capaz de resolver o grande problema da física de unir mecânica quântica com a gravidade.
A aposta nas cordas é a principal aposta dentre as Teorias de Tudo. Ainda é ou já foi a queridinha dos físicos de ponta, como é o caso do brasileiro Marcelo Gleiser e dos americanos Michio Kaku e Brian Greene. Os três são astros da divulgação científica, escreveram vários livros e participam de programas de TV para explicar os mistérios da física, da cosmologia e claro que das teorias das cordas.
A seguir, vamos para trechos de um vídeo que assisti semana passada com Marcelo Gleiser confessando a Marcelo Tas sua perda do entusiasmo com a teoria. Eu garanto que você vai entender essas coisas complexas, porque vou comentar do meu jeito, inclusive vou falar coisas que Marcelo Gleiser não pode falar, porque poderia prejudicar sua carreira.
Vamos começar com o entrevistador, Marcelo Tas, começando a entrevista falando algo que é sagrado para este canal, a importância da humildade na ciência, de reconhecer que podemos estar errados, que a ciência cansou de ter certezas que acabaram derrubadas.
– No livro mais recente do meu convidado, eu aprendi uma postura preciosa diante do conhecimento chamada humildade epistêmica. Segundo ele, um dos pilares da boa ciência. O bom cientista não tem medo de rever o que sabe, admitir que está errado, recalcular a rota. Seja bem-vindo ao “Provoca”, cientista Marcelo Gleiser.
– Obrigado, Marcelo, meu xará.
– Gleiser, vamos começar pela humildade epistêmica, mas primeiro pela humildade. Você sempre foi humilde ou ficou assim depois?
– (Risos). Boa. Teria sido bom uma pessoa que não era humilde descobrir que é melhor ser humilde na vida, né? Acho que muita gente precisa disso. Mas não. Acho que no meu caso eu sempre fui assim.
Olha, eu já li vários livros e artigos de Marcelo Gleiser, onde ele mostra que mudou de entendimento quando chegou a hora de fazer isso. Ele está sendo sincero, posso garantir isso a você. Na sequência, ele admite que sua tese de doutorado foi sobre teoria das cordas, mas seu entusiasmo com a teoria declinou.
– Você pode saber muito, mas não tudo. Tem coisas que você nunca irá saber e tem uma casca de banana onde caímos com frequência. Há coisas que pensamos que sabemos, só que a fonte daquele saber era frágil. Você já pisou nesta casca de banana?
– Todos nós já pisamos nesta casca.
– Dá um exemplo.
– Eu fiz a minha tese de doutorado na Inglaterra há um tempo atrás em uma teoria que hoje a gente chama de supercordas, que é uma teoria que diz que as quatro forças da natureza têm que ser unificadas numa força só e que pra isso ser verdade, a gente tinha que ter não só três dimensões de espaço, mas em vez de três tinham que ser nove, então seis a mais. E essa teoria continua sendo pra muita gente muito sedutora porque ela basicamente diz o seguinte: que o universo é um enigma matemático. Pra gente entender esse enigma, poder ver além do véu, vamos dizer assim, né? Você tinha que adotar essas seis dimensões extras e aí se fizesse isso, as quatro forças que regem tudo o que está acontecendo se revelam como sendo uma só, por isso chama teoria unificada, uma teoria de tudo. Mas o aconteceu nas últimas três décadas, vamos dizer assim, é que aquela euforia foi se esvaziando um pouco porque a gente viu que a gente não tem nenhuma prova concreta ou demonstração de que de fato a natureza seja assim.
Comprovação da teoria? Houve alguma ilusão sobre isso? A resposta é não. Os cientistas sempre souberam que não havia, nem haverá qualquer forma de comprovar a existência de cordas, sabe por quê? Essas cordas são tão finas que só têm uma única dimensão, o comprimento. E esse comprimento é tão minúsculo que é do tamanho do limite mínimo do espaço-tempo, o comprimento de Planck. Não existe distância menor do que essa.
Eu comecei a ler sobre isso neste livro do físico Paul Davies, de 1984, há uns 40 anos, quando surgiu a variante da teoria que fala da superforça. Ele é outro expoente da divulgação científica para leigos. O que ele dizia? Para entrar no domínio da superforça na escala de Planck seria necessário um acelerador de partículas do tamanho da nossa galáxia, 100.000 anos luz. Portanto, não parece haver qualquer esperança de acesso à energia de Planck (pgs. 247-248).
Ou seja, desde o início da teoria a chance de obter algum tipo comprovação era zero.
Agora você vai conhecer a origem disso: a Força Emocional, de origem estética.
– Eu fui me afastando dela, eu tive muitas conversas com os líderes dessa área e tal e eu senti uma força que era muito mais emocional de que tem que ser assim porque é lindo demais para não ser verdade.
– Sei, sei, sei, sei.
– Então você está fazendo uma imposição estética, as minhas ideias são como a natureza tem que ser. Cara, isso daí…
– Aí você vai brigar com gente grande, né, que é a natureza!
Chegamos ao ponto crucial, ao foco do que eu quero mostrar, que está relacionado com viagem na maionese – o emocional influenciando o racional, justamente na mente de físicos.
Você tem ideia do que acontecia na cabeça de um físico, quando tentava incorporar a gravidade à mecânica quântica? Ele ficava martelando matemática pesada durante décadas, sempre se deparando com infinitos, inconsistências, barreiras de frustração uma atrás da outra. De repente, ele dá uma martelada em 10 dimensões e as inconsistências somem, a gravidade emerge naturalmente na teoria, sem precisar forçar. O que esse físico começa a cogitar?
– Eu vi a luz. Houve um milagre nessas equações em dez dimensões.
Uma estética magnífica que só matemáticos de ponta são capazes de apreciar. Einstein também acreditava que beleza e simplicidade eram indicativos de que se estava trilhando o caminho correto. Só que Marcelo Gleiser botou a humildade para funcionar, percebeu que a natureza não tem obrigação de atender a critérios estéticos humanos e abandonou a teoria.
– Você não pode, porque o papel da ciência não é dizer como a natureza funciona, mas é como funciona a natureza. Eu abandonei, vamos dizer, essa área, hoje em dia escrevi um livro chamado “A Criação Imperfeita” há quinze anos atrás já, que é uma crítica bem séria à essa ideia de que nós somos capazes de descrever tudo o que existe usando a nossa metodologia científica. E eu dou um, boto um último prego no caixão ali, eu acho pelo menos, no livro “A Ilha do Conhecimento” em que eu traço exatamente essa… como você abriu a nossa conversa falando dos limites do conhecimento humano.
Limites, há limites para o conhecimento humano. Físicos de ponta costumam não se conformar com isso. Talvez eles tenham o mesmo impulso, a mesma pretensão de um religioso que usa Deus para explicar tudo. Ambos são sensíveis ao belo. Enquanto um religioso se encanta com a natureza, com obras de arte, música, o físico enxerga beleza estética na matemática, uma beleza sobrenatural que emerge de equações.
O que isso de estética significa? Em física, não significa nada. As leis do universo não são obrigadas a se submeter ao senso estético de humanos, que gostam de usar a matemática para brincar de Deus.
Na época em que Marcelo Gleiser cursava o doutorado na Inglaterra, reinava um clima de perseguição religiosa. Físicos em início de carreira eram compelidos a entrar para o clube da teoria das cordas. Quem não entrava, não era digno de ser físico ou então era incapaz de aprender a pesada matemática de uma realidade com múltiplas dimensões que pode existir apenas sabe aonde? Na mente dos físicos deste clube.
Eles inventaram cordas que ninguém nunca verá, usaram uma fé cega para colocar a teoria em um pedestal de verdade mística e a obrigação que a natureza tinha de se encaixar nela. Você deve estar percebendo que eles trilharam o caminho da física ao contrário. Arrumaram uma bela explicação para o que não pode ser observado. Física não é desse jeito. A missão da Física é explicar o que é observado.
Para concluir, vamos ao trecho em que ele comenta as certezas:
– Tipo, ah, eu tenho certeza disso então não preciso mais aprender nada porque eu já sei. E aí é muito mais uma crença de que você está certo, porque se você parar para pensar ninguém nunca está certo sempre, né? Do que… é uma metodologia de vida, né? Você erra, todo mundo erra e é tão importante errar. Então, a ciência começa a descrever o mundo numa escala de abstração cada vez maior e, se você não tomar cuidado, e isso acontece muito, você esquece da onde isso tudo veio e você começa a atribuir um valor de realidade a uma construção mental nossa.
– Humana.
– Humana.
– Que coragem, hein xará, que você teve de cutucar esse conceito.
Marcelo Gleiser é um físico carioca, brilhante como profissional e formidável como pessoa, um expoente como divulgador de física, autor de 8 livros, professor de uma universidade americana, participou de vários programas de TV nos EUA e no Brasil, onde foi o autor de uma série no Programa Fantástico chamada Poeira nas Estrelas, exibida entre agosto e novembro de 2006.
Espero que ele me perdoe pela ousadia de editar um pedaço de sua magnífica entrevista, muito especial para a missão deste canal, que é combater certezas. Não é todo dia que somos brindados com essa maturidade dele, onde o entusiasmo com uma teoria acaba substituído pelo senso prático, com o reconhecimento de que era necessário abandonar um caminho em que investiu ele muito esforço e tempo. Hoje ele admite, que foi por razões mais emocionais que racionais.
Se você gostou do vídeo, vale à pena assistir aqui no canal um outro vídeo que produzi sobre Edward Witten, que é considerado o físico vivo mais inteligente do mundo. Basta clicar no quadradinho que vai aparecer aqui. Além de inteligente, Witten é cordial e humilde, leva uma vida normal com sua família. Ele diverge de Gleiser. Ainda defende a Teoria das Cordas. Ele unificou várias versões da teoria em uma só, uma teoria que ele batizou de Teoria M. Ninguém sabe o que significa esse M. As especulações falam de M de Mistério ou Mágica, de Mãe – uma teoria mãe das anteriores… Ninguém sabe, mas eu sei. Espero que ele me perdoe, mas M é de maionese.