Sérgio Tavares, youtuber português interrogado por polícia política

Estava conferindo na TV o ato de Bolsonaro no dia 25, quando apareceu no palanque da Av. Paulista um cidadão português, chamado Sérgio Tavares, que eu nunca tinha ouvido falar. Vindo de Portugal, ele disse que desceu do avião e foi detido por três horas no aeroporto de São Paulo. Pra quê? Para responder a perguntas típicas de uma polícia política.

Claro que eu não acreditei no que o português dizia, um desconhecido no Brasil. A autoridade com poder de cometer uma barbaridade dessas seria a Polícia Federal, que tem coisas bem mais importantes para fiscalizar nos aeroportos, como tráfico de drogas, de armas e a circulação de bandidos procurados.

Mesmo assim, fui conferir o que tinha na mídia. Embora, fosse um evento de importância histórica, tive dificuldade de achar notícias nos principais jornais, explicando quem era o português e o que tinha se passado de fato. Ôpa, estranhei isso. Se não tem, aí tem. A melhor explicação geralmente não está no que você vê, mas naquilo que você não vê. É o que sempre digo aqui no canal.

No Portal R7, achei uma matéria cujo título era: “Polícia Federal desmente blogueiro português que diz ter sido detido ao desembarcar em São Paulo”. Aaahh, o título confirmava o que eu imaginei à primeira vista – o português delirou, viajou na maionese. No entanto, ao ler a matéria vi que não era bem assim como estava no título. Havia uma explicação oficial repleta de maionese, olha só!

Uma nota oficial da PF explicando as coisas. Quando eu li esta nota, mudei de ideia na hora. A nota mostrava outra realidade, oposta ao título da matéria. Ôpa, o Sérgio Tavares pode estar coberto de razão!

A nota da PF tem evidências de tudo o que ele disse. Confirma que ele foi mesmo detido por gente da Polícia Federal que sabia quem ele era. Sabiam de antemão que ele vinha pra cá e o que ele publicava em Portugal. Éééééééé´… Alguém estava de olho nesse português antes dele pisar no Brasil. De acordo com Sérgio Tavares, a PF o indagou sobre Flávio Dino, Alexandre de Moraes, vacinas e o 8 de janeiro, antes de liberar ele para a Paulista.

A nota da PF diz que ele foi questionado sabe sobre o quê? Abre aspas: “comentários que fez sobre a democracia no Brasil, afirmando que o país vive uma ‘ditadura do Judiciário’, além de outras afirmações na mesma linha, postadas em suas redes sociais,” acrescentou a corporação.

Se eu ainda tinha alguma dúvida, a dúvida acabou quando li a desculpa utilizada pela PF para ter feito o que fez. Tentando disfarçar, como se não conhecesse o gajo, a nota se refere a ele como indivíduo. Abre aspas: “Tal indivíduo teria publicado em suas redes sociais que viria ao país para fazer a cobertura fotográfica de um evento. Todavia, para isso, é necessário um visto de trabalho, o que ele não apresentou,” informou a PF.

Necessidade de visto de trabalho para cobrir evento? Viagem na maionese total. A PF viajou na maionese.

Saudade da PF dos tempos da Lava-Jato, voltada para pegar corruptos, ao invés de ir pra cima de blogueiros… Eu também sou um.

A Polícia Federal que eu conheci é composta por servidores que seguem a lei. Não faz esse tipo de coisa de jeito nenhum. Ainda mais algo que pode ter uma repercussão imensa no exterior, um vexame internacional, mostrando que o Brasil é uma república de bananas, coisa típica de país pequeno, de regime autoritário.

Houve repercussão no Brasil? Quase nada. Os principais jornais OGLOBO, Estadão, Folha e Correio Braziliense… quase nada. Ôpa… Mau sinal.

Nas TVs, só na Rede Bandeirantes eu vi matéria dando ideia da dimensão do problema. O comentarista político Fernando Schüler ressaltou a importância de saber quem deu a ordem. Ouça.

– Meu último destaque, que eu acho que o país deveria fazer uma reflexão muito séria, gente que eu digo: o país, a imprensa… todo mundo – aconteceu com o Sérgio Tavares. Sérgio Tavares é um jornalista, sei lá se é um jornalista, um twitteiro, um blogueiro, um youtuber… hoje em dia essas coisas vêm misturadas, né? Ele veio pro Brasil para cobrir o ato e transmitir para sua rede. Ele passou por três horas de interrogatório na Polícia Federal, no aeroporto de Cumbica. Saber o que ele acha do Alexandre de Moraes, o que ele acha do Flávio Dino, o que é que ele acha do 8 de setembro, o que é que ele acha da democracia brasileira, o que ele disse ou deixou de dizer no Youtube… Isto é um absurdo! O Brasil agora tem um órgão de Estado que monitora twitteiros do mundo inteiro, imagina? Não deve ser só o Sérgio Tavares, pra saber o que eles têm sobre isso, sobre aquilo. Para o sujeito no aeroporto em uma sala da Polícia Federal, fazer perguntas de natureza política sobre o que é que ele acha da política brasileira. Olha, tá com cara de Rússia isso, não é? Então eu acho que eles tem que ser muito bem investigados. Dá onde é que vem esse monitoramento, quem dá a ordem para fazer? Eu acho muito grave, algo para se refletir no Brasil de hoje.

A apresentadora da Bandeirantes, Adriana Araújo, suas palavras são reveladoras da gravidade do caso:

– Olha, para liberar ou barrar a entrada de alguém no país, o que importa é a documentação. Se o visitante é suspeito de algum crime, se traz na bagagem algo proibido. No caso, era um jornalista, com as ideias dele, que veio ao Brasil acompanhar os atos na Avenida Paulista que reunia apoiadores do ex-presidente. A Polícia Federal poderia questioná-lo sobre o visto de trabalho, mas jamais interrogá-lo sobre o que ele pensa do Brasil ou sobre qualquer outro tema. Democracia é uma palavra bonita no discurso, mas na prática exige respeito e a garantia de direitos a todos. O que a Polícia Federal fez não condiz com o que somos, um estado democrático.

Ela diz que o que a PF fez não condiz com o estado democrático.

Em um país cheio de defensores da democracia… cadê eles? Àqueles mesmos. Sumiram. Nenhum deles veio a público defender o português. Mau sinal. Péssimo sinal.

Ó, se eu fosse assessor de parlamentar, recomendaria providências. Pra começar, só pra começar, encaminharia uma requisição de informações à PF para esclarecer o seguinte:

– Quem foram os servidores que tiveram contato com Sérgio Tavares no aeroporto, que o seguraram e que participaram do seu interrogatório? A PF tem meios de convencer que se tratava de trabalho de rotina, tem estatísticas?

– Quem participou da redação da Nota da PF? Que providências foram adotadas pela Direção-Geral da PF em caso de discordância do seu conteúdo? Por que a nota da PF dá a entender que Sérgio Tavares foi monitorado antes de voar para o Brasil? Há quanto tempo existe setor na PF encarregado de monitorar opiniões de jornalistas e blogueiros?

– Quem preparou as perguntas? Quem foi o autor da ordem para incomodar o blogueiro? O autor real? É a pergunta que Fernando Schuler deixou no ar.

Imagina o que teria acontecido com Bolsonaro se a PF tivesse feito o mesmo com algum comunista no aeroporto de São Paulo? Tinha tido até CPI.

– Há duas cabeças que vão ter que rolar. A cabeça de quem deu a ordem em Brasília para me interrogar, quem deu realmente, e o segundo nome é quem é que da Polícia Federal decidiu fazer então um comunicado falso, a justificar com uma mentira a ilegalidade que fizeram. Sérgio Tavares.

O Senador Eduardo Girão apresentou requerimento de convite ao Diretor-Geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues, para esclarecer a retenção do português Sérgio Tavares no aeroporto de Guarulhos. A data será definida pela comissão.

Fonte: Senado Federal, Senado | 05/03/2024, 17h38

Detalhe: nenhum grande jornal noticiou o fato no dia seguinte, 06/03/2024.

 

Agradeço seu comentário, especialmente se acrescentar informações novas!