Nassim Taleb – O bebê italiano na guerra do Líbano

No fim da década de 70, um bebê caiu em um fosso na Itália. A equipe de resgate não conseguia tirá-lo do buraco e a criança permaneceu no fundo do poço, chorando sem parar. Compreensivelmente, a Itália inteira acompanhava os frequentes boletins de notícias. Os gritos da criança provocavam pontadas agudas de culpa nos membros da equipe de resgate, impotentes, e nos repórteres. Seu retrato foi exibido com destaque em revistas e jornais, e mal era possível caminhar pelo centro de Milão sem ser lembrado de sua provação.

Enquanto isso, a guerra civil prosseguia ferozmente no Líbano, com intervalos ocasionais no conflito. Em meio à própria confusão, os libaneses ficaram focados no destino da criança. Da criança italiana. A nove quilômetros de distância, Nassim Taleb sabia que seus compatriotas estavam morrendo vítimas da guerra em que cidadãos eram ameaçados por carros-bomba, mas o destino da criança italiana estava entre os principais interesses da população do bairro cristão de Beirute.

– “Veja como aquela pobre coisinha é fofa”;

Taleb conta que escutava isso direto e toda a Beirute demonstrou alívio com o resgate final bem-sucedido.

Stalin tinha algum conhecimento sobre o negócio da mortalidade. Ele supostamente disse: “Uma morte é uma tragédia; 1 milhão é estatística.” Estatísticas permanecem silenciosas dentro de nós, disse Nassim Taleb na página 119 de seu livro, “A Lógica do Cisne Negro”.

Nesta mesma página, ele conta a história do Central Park, que também ocorreu com ele.

Você está em um avião a caminho de um longo final de semana de lazer na cidade de Nova Iorque, sentado ao lado de um vendedor de seguros que, sendo um vendedor, não consegue parar de falar. Para ele, não falar é a atividade que requer mais esforço.

Ele diz a você que o primo trabalhou em um escritório de advocacia com alguém que tem um cunhado cujo patrão tem um irmão gêmeo que foi assaltado e assassinado no central Park. É verdade, o Central Park, na gloriosa cidade de Nova Iorque. Isso teria ocorrido há 8 anos. A pobre vítima tinha apenas 38 anos, era casado e tinha 3 filhos, dos quais um nascera com um problema e precisava de tratamento especial no Centro Médico de Cornell. Três crianças, das quais uma precisava de tratamento especial, perderam o pai por causa de uma visita tola ao central Park.

Qual é a conclusão? Bem, é provável que você evite o Central Park durante sua estada. Você sabe que é melhor se guiar pelas baixas estatísticas de criminalidade (que pode obter na Web) ao invés de pautar sua conduta pelo que ouviu de um vendedor com incontinência verbal. Mas você não consegue evitar. Durante algum tempo, o nome Central Park evocará imagem daquele pobre homem assassinado, que não merecia tal destino, que ficou caído na grama poluída. Será preciso muita informação estatística para anular a sua hesitação.

Sabe o que tem em comum o resgate do bebê italiano com a história do vendedor falante?

A incapacidade, para alguns, ou a dificuldade para outros, do ser humano evitar viajar na maionese. Você sabe que seus compatriotas estão morrendo perto de você, mas foca sua atenção em uma criança a quase 3 mil quilômetros de distância. Você sabe que o risco de assassinato não é alto o suficiente para justificar a decisão de não visitar o Central Park, mas, se o fizer, não vai conseguir evitar de andar sobressaltado.

Não existe nenhum remédio que cure resfriado. Os que existem, apenas amenizam os sintomas. Mas as pessoas são sensíveis ao que escutam de outras. – Tome isso e ficará bom rápido!  A pessoa toma e fica boa. Na verdade, a cura foi proporcionada pelo remédio mais eficaz de todos, o tempo. Todavia, o tempo é algo que ninguém consegue ver, não pode tocar, nem mesmo a pessoa consegue definir o que é o tempo. Dane-se o tempo. O ser humano prefere acreditar em algo tangível, que ele vê, toca e ingere.

No Brasil, todo mês morrem 120 mil pessoas. Cerca de 10% morrem jovens entre 15 e 40 anos, coisa de 12 mil casos. Destes, um pouco menos de 10% morrem por causas desconhecidas, coisa de 1 mil casos por mês. Todo mundo que tem juízo foi vacinado contra o covid. Assim, os disseminadores de notícias falsas dispõem de até mil casos de jovens mortos todos os meses de causas desconhecidas. Que tal pinçar a foto de um desses casos, colocar em um vídeo e atribuir a culpa da morte misteriosa à vacina?

Tem um monte de gente que faz isso, inclusive médicos, como o médico italiano arrependido, o pentito, cuja história eu contei aqui em 3 vídeos.

Onde quero chegar? O ser humano existe há 200 ou 300 mil anos. Em 99,9% deste tempo, o ser humano obtinha informação de outro ser humano. Não havia outra forma. Assim sendo, ele se tornou sensível a vídeos que recebe pelo WhatsApp, onde tem um ser humano comunicando algo. O viajante da maionese não tem o hábito de lidar com números grandes, como milhares, milhões e bilhões. Muito menos com estatísticas e pesquisas científicas.

Qual a conclusão? O ser humano é guiado por casos concretos que chegam a ele no dia-a-dia da sua vida. Casos como o bebê italiano, o pai de família morto no Central Park, o remédio receitado pelo amigo ou pela vovó, ou o vídeo com um sujeito com cara de confiável, falando que a causa da morte foi a vacina.

Políticos espertos já perceberam que é fácil explorar essas características humanas para angariar simpatias de parcelas da população. Para se eleger senador ou deputado, pode ser suficiente criar sintonia com apenas uma parcela da população usando algo marcante, algo cativante para algum tipo de minoria que renda muitos votos. Defender direitos dos obesos, por exemplo. Se o candidato for obeso, mais fácil fica.

Nassim Taleb escreveu um livro excelente, “A Lógica do Cisne Negro”, que é sobre como as pessoas lidam com a incerteza, com eventos raros, mas que estão sempre ocorrendo. Na verdade, é um livro sobre viagem na maionese, mas ele não sabe disso ainda.

Agradeço seu comentário, especialmente se acrescentar informações novas!