Svante Pääbo ganha o Nobel por descoberta de sexo inter-racial com neandertal

  • Categoria do post:Vida
  • Comentários do post:1 comentário

Sexo entre um negão e uma ruiva pode ter dado à luz sabe à quê? Ao Nobel de Medicina de 2022, que saiu ontem. O prêmio de 10 milhões de coroas suecas equivale à coisa de 5 milhões de reais, que foi para Svante Pääbo, Diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária com sede em Leipzig, Alemanha. Trata-se de um cientista sueco especialista em DNA antigo, um pioneiro desta área, uma área muito complexa. Venho lendo sobre o trabalho dele, acompanhando há 20 anos. Achei este artigo de 2013.

Foto tirada por sua esposa Linda Vigilant
Foto tirada por sua esposa Linda Vigilant no momento em que soube do Nobel

Ele ganhou o Nobel de Medicina por sua descoberta de que rolou sexo inter-racial entre humano e neandertal. Só que o humano era o negão e a ruiva era a neandertal. Naquela época, todos os humanos eram negros recém-saídos da África, enquanto os neandertais viviam na Eurásia há bastante tempo, mais de 200.000 anos e acabaram extintos há 30.000 anos, ninguém sabe ao certo o motivo. Os suecos ainda eram negros há 6 mil anos atrás, segundo estudo publicado na Nature.

Pääbo é o pai da tecnologia de extração de DNA antigo, cujo avanço permitiu o sequenciamento completo do genoma Neandertal, em 2010. Sem isso, não haveria meios de esclarecer se os sapiens eram uma raça pura, que saiu pronta da África e se manteve pura, ou se somos raças impuras, resultantes de cruzamentos com essas espécies de hominídeos que viviam na Eurásia bem antes de nós. Pääbo descobriu que os humanos que deixaram a África têm até 4% de DNA neandertal.

Como tudo começou? Segundo o especialista Carl Zimmer, em seu livro “Evolução”, a história das descobertas de Pääbo começa em 1995, quando o governo alemão pediu a ele que ajudasse uma equipe da Universidade de Munique a verificar se o famoso fóssil de neandertal encontrado no Vale do Neander, na Alemanha em 1856, ainda continha DNA intacto. Na época, Pääbo estava cético, porque os genes degradam com muita facilidade. Ele e seu aluno de graduação Matthias Krings pegaram uma pequena amostra de osso de antebraço e buscaram aminoácidos nele. Acharam! Se tinha aminoácido, poderia ter DNA, já que o DNA é feito de aminoácidos.

Mas não é simples assim. Mexer com DNA é mais complicado. Tiveram que eliminar risco de contaminação, instalando equipamentos em salas totalmente esterilizadas, coisa que alemão tem a necessária disciplina para conseguir fazer. Só depois de certificar que o ambiente estava limpeza total é que eles moeram ossos do neandertal e aplicaram a técnica de para copiar em grande quantidade qualquer fragmento de DNA que houvesse no osso moído.

A equipe vibrou quando achou uma sequência de 379 bases de DNA semelhante, mas não idêntica ao DNA humano. Porém, esta área de pesquisa é repleta de críticos, razão pela qual Pääbo teve o bom senso de manter o champagne fechado até que a experiência fosse repetida em outro laboratório, por outros pesquisadores. Isso ocorreu no laboratório de Mark Stoneking, na Universidade Estadual da Pensilvânia, que analisou um segundo conjunto de amostras. Apareceu a mesma sequência! Assim, outro cientista obteve o mesmo resultado em outro laboratório.

Aí então, em 1997, dois anos depois da descoberta é que houve a comemoração e o trabalho de Pääbo foi publicado. Nascia uma nova área de pesquisa, a paleogenética, que evoluiu de forma excepcional até culminar com o sequenciamento total do genoma neandertal em 2010.

Outro feito de Pääbo deu origem à descoberta de uma nova raça de hominídeos. Ele extraiu DNA de um fragmento de dedo mindinho de uma fêmea com 40.000 anos de idade, encontrado em uma caverna no centro da Ásia, no sul da Rússia, perto da fronteira com Mongólia e Cazaquistão. Pääbo descobriu que o DNA era de um novo grupo de hominídeos, os denisovanos.

As pesquisas na caverna Denisova estão sendo feitas desde os anos 80. O local é promissor, pois a temperatura média por lá é de zero graus, o que facilitou a preservação de várias camadas de sedimentos e do material genético.

Pääbo descobriu outra história de sexo inter-racial, desta vez entre um neandertal e uma denisovana. O que ele descobriu? Uma mulher que morreu há cerca de 90.000 anos era metade neandertal e metade denisovana, de acordo com a análise do genoma de um osso. A descoberta foi publicada em 22 de agosto de 2018 na Nature.

As pesquisas descobriram que os humanos modernos com a maior proporção de ascendência denisovana viviam em Papua Nova Guiné e na Austrália com até 6% de DNA denisovano. Porém, um novo estudo publicado em 12 de agosto de 2021 na Current Biology, descobriu que um grupo indígena nas Filipinas chamado Ayta Magbukon tem 30 a 40% mais DNA denisovano.

Se esses povos se extinguiram, o motivo não foi por desinteresse em sexo. Se Pääbo estiver certo, rolava de tudo entre todos. Mas… as controvérsias não acabaram.

Em agosto de 2012, Andrea Manica e Anders Eriksson, cientistas da Universidade de Cambridge, construíram um modelo desafiando a hipótese de que existiram esses cruzamentos.

Hominídeos da África e da Europa tinham um ancestral comum. Eles ficaram geneticamente isolados durante centenas de milhares de anos. Isso permitiu que os europeus evoluíssem para neandertais e os africanos evoluíssem para humanos modernos, sem contato. Os sapiens não precisaram cruzar com os neandertais para ter genes em comum, sabe por quê. Eles já os tinham. Os genes compartilhados pelas duas espécies podem simplesmente ser herança remanescente deste ancestral comum.

No início, Pääbo admitia esta explicação como uma outra explicação alternativa. Hoje ele discorda, por conta de novas descobertas. A discussão prossegue e vem se dando por meio de vários artigos publicados em revistas científicas, um tema que eu adoro ler a respeito.

– Mas Marco Polo, e se o Pääbo perder essa discussão? Se a descoberta dele for refutada? Se humanos não cruzaram com neandertais? Será que ele merecia mesmo o Nobel? Será que foi favorecido por ser sueco?

Olha, o Pääbo não é um viajante da maionese e essa temática do sexo inter-racial entre hominídeos é só a parte do trabalho dele que chamou mais atenção dos integrantes da academia sueca que decidem para quem vai o Nobel. O trabalho de Pääbo proporcionou descobertas fantásticas em biologia evolutiva de animais extintos mais recentes, dentre muitas outras aplicações. Ele, com certeza, mereceu o prêmio.

Ademais, ele tinha o Prêmio Nobel em seu DNA, você sabia? Pääbo é fruto de uma relação extraconjugal, coisa que ele e sua mãe procuravam esconder desde que ele nasceu. Sua mãe é uma química estoniana, Karin Pääbo. O seu pai é o bioquímico sueco Sune Bergström, que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina de 1982 por pesquisas sobre hormônios. Seu pai também participou de importantes descobertas sobre a heparina, uma droga que interfere na coagulação do sangue.

Foi a heparina que salvou a vida de Pääbo em 2000, quando ele teve uma embolia pulmonar. Olha só como tudo nesse mundo parece interligado. O pai ausente, acabou contribuindo para salvar o filho de alguma forma.

Este post tem um comentário

Agradeço seu comentário, especialmente se acrescentar informações novas!