O atual presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, me parece ser um bom homem, com boas intenções. Em 2019, ele enfrentou o cartel dos bancos, tentando limitar o juro em 8% ao mês. É uma taxa superior à cobrada pela máfia na Itália. Não estou sendo irônico não.
É triste dizer isso, mas para os brasileiros seria positivo limitar a 8% ao mês, que dá 150% ao ano. Aqui ainda estamos no tempo do faroeste, onde os poderosos fazem o que bem entendem. Bancos grandes praticam taxas de 300% ao ano, já cobraram 500%. Imperdoáveis, esses banqueiros brasileiros, nenhum deles vai para o reino dos céus.
Roberto Campos Neto conseguiu limitar os bancos? Não. Este mês, nenhum dos grandes bancos respeitou o limite, segundo estatísticas divulgadas rotineiramente pelo Banco Central em seu site. Acho que os bancos só aceitaram este limite para cheque especial.
O Banco Central Independente manda no Congresso, manda no Presidente da República, mas não consegue mandar nos bancos.
Voltando ao painel, Roberto Campos Neto fez uma exposição protocolar no TCU, repleta de gráficos para explicar a origem da inflação. Ele fez o que economista gosta tanto: explicar o passado. Em seguida, cada ex-dirigente do BC teve 10 minutos para falar, seguindo a ordem em que ocuparam o cargo no banco. O primeiro a falar foi Affonso Pastore.
Em seguida, veio o nosso herói, André Lara Resende. Ele começou elogiando iniciativas do BC, como o PIX. Em seguida, sacou o verbo e começou a distribuir disparos sob a forma de perguntas dirigidas aos presentes.
– Faz sentido elevar o juro nesta magnitude?
– Quais seriam os benefícios e os custos?
Não vou botar eles aqui falando, porque eles não falam português, só economês. Não conseguem falar nada compreensível.
O Lara Resende, por exemplo, diz que os benefícios da subida dos juros estariam baseados no que ele chama de arcabouço conceitual insuficiente (1h18). Não é mais fácil dizer que estão baseados em viagem na maionese?
Sozinho, contra 6, Lara Resende recorreu ao auxílio de um pistoleiro americano. Nada menos que um experiente consultor do banco central mais poderoso do mundo, o Federal Reserve, o Sr. Jeremy Rudd. Em setembro, ele escreveu um artigo de 20 páginas que causou um rebuliço no mundo paralelo em que habitam economistas.
O Estadão publicou uma excelente matéria do The New York Times sobre o artigo de Jeremy Rudd.
Jeremy Rudd sacou seu rifle e dirigiu a seus colegas economistas um tirambaço já na primeira frase do artigo.
– “A macroeconomia dominante está repleta de ideias que ‘todo mundo sabe’ ser verdade, mas que, na realidade, são um completo absurdo”.
Jeremy Rudd fez uma ampla reconsideração de ideias fundamentais sobre como a economia funciona e, também, como os bancos centrais tentam administrar as coisas. Diz ele que apesar de haver milhares de pessoas altamente inteligentes que tentaram compreender, a macroeconomia continua sendo uma caixa preta – um sistema tão complexo que nenhum ser humano o compreende completamente.
Ele diz que as principais ideias da política econômica que vigorou nos Estados Unidos e países ricos dos anos 80 até 2007 estão, na melhor das hipóteses, incompletas e, no pior dos casos, erradas.
Sabe por que Jeremy Rudd fala até 2007? É que a realidade bateu de frente com a teoria econômica nas crises terminais por que passou o capitalismo americano em 2008 e europeu em 2011. As soluções adotadas seguiram caminhos em que inflação e juros reagiram de forma oposta ao esperado pela teoria.
Adam Posen, um ex-formulador de políticas do Banco da Inglaterra e presidente do Instituto Peterson para Economia Internacional, acrescentou “Estamos, na verdade, no nível de Galileu e Copérnico”, apenas descobrindo o básico de como o universo funciona. “Isso exige mais humildade e aceitação de que nem tudo se encaixa em um modelo”, disse ele. Humildade é algo que viajante da maionese não aprecia.
Muito interessante, também, a analogia com Galileu e Copérnico. Vou acrescentar algo que já li sobre astronomia, tema que gosto bem mais do que essa chatice de economia. Quando Galileu emprestou sua luneta a seus colegas e mostrou que não existiam epiciclos, foi preciso morrer toda uma geração de astrônomos incapazes de acreditar que seriam forçados a jogar no lixo toda a pesada matemática dos epiciclos, que funcionava bem até então para prever a posição dos corpos celestes. Eles tinham gasto um esforço monumental para aprender essa matemática.
O resultado foi que os astrônomos não queriam acreditar nem mesmo no que viam na luneta de Galileu. Sabe o que isso pode significar? Que, até 2007, os gerentes de bancos centrais vinham brincando com juros e câmbio, pautando sua atuação, acreditando em esferas perfeitas e epiciclos.
Você acha que essa gente tem essa humildade referida por Adam Posen? Você acha que eles são capazes de admitir que tudo o que eles fizeram, todas as suas crenças, tudo não passava de viagem na maionese?
Gustavo Franco não compareceu. Pastore deu uma desculpa e vazou antes do evento terminar. Armínio vazou também depois de insinuar que o TCU estaria brincando com fogo ao se meter com brincadeira de política monetária. Ao retomarem a palavra para considerações finais Henrique Meirelles e Ilan Goldfajn nada acrescentaram e Roberto Campos Neto resolveu falar de kiwi.
Se quiser saber o que é kiwi, você vai encontrar explicação no site deste canal, o maioneses.com, onde também há links para todos os artigos citados.
Bem, eu brinco muito, mas a situação é grave. Se André Lara Resende estiver certo, esses pilotos de banco central independente estão sendo movidos por viagens na maionese, por crença em teorias desprovidas de fundamento. A consequência será dramática. Eles vão jogar a dívida interna lá no espaço sideral. Vai ser preciso recorrer à luneta de Galileu para enxergar.
QE em inglês é pronunciado como Kiwi. É a transformação de Bancos Centrais em cornucópia de dinheiro de longo prazo a custo zero entregue a grandes corporações para aquecer a economia. Embora seja novidade nos países ricos, o Brasil já faz isso há décadas via BNDES.