Folha de São Paulo – 4 principais candidatos falaram sobre economia

Nos primeiros dias de 2022, o jornal Folha de São Paulo ofereceu oportunidade aos 4 candidatos mais bem colocados nas pesquisas para falar de Economia. Cada um indicou um economista para assinar artigo em seu nome. Vou resumir o que disseram de importante.

Ciro Gomes indicou o professor da FGV Nelson Marconi, que elaborou seu programa de governo na campanha de 2018. Ele comparou Brasil e China. Mostrou que o nosso PIB per capta era 15 vezes maior que o da China em 1980. Hoje é menor. Mostrou que a China investiu na indústria, enquanto o Brasil permanece em um modelo econômico fracassado há décadas, que detonou a indústria. Para resolver o problema, ele defende um plano de desenvolvimento pactuado entre os setores público e privado. Um pacto. Aliás, Ciro Gomes é o homem dos pactos. Ele fala em pacto desde 1997. Já fez pacto com uma penca de partidos, foi filiado a pelo menos oito.

Vamos agora ao Governador do Estado de São Paulo João Doria, que indicou Henrique Meirelles, seu atual secretário de fazenda. Ele foi presidente do Banco Central de Lula durante oito anos, de 2003 a 2011, e ministro da Fazenda de Temer de 2016 a 2018. O que ele falou? Nada. Nada além de obviedades.

Ao final, ele falou da necessidade de uma equipe experiente, com resultados comprovados, que será capaz de garantir as transformações necessárias ao Brasil. Só faltou o bordão “Chama o Meirelles” que ele usou na campanha de 2018, quando foi candidato a presidente e terminou em sétimo lugar com 1% dos votos.

Ele diz que não há nada contra ele, mas tinha sim quando ele entrou para a política. Uns anos antes de ele assumir o cargo de presidente do Banco Central em 2003, a polícia do Banco Central estava atrás dele. Éééeéé… A polícia da fiscalização cambial estava ali dizendo: “Chama o Meirelles” para explicar esta lambança aqui.  

Em 1998, na crise da Rússia, quando ele morava nos EUA e era presidente mundial do Banco de Boston, este banco evadiu 1 bilhão de dólares do nosso país em 15 dias, durante um momento crítico em que o Brasil passava por uma tremenda crise cambial. A polícia do BC queria chamar o Meirelles para explicar de quem era o dinheiro, o bilhão que saiu de forma camuflada, em nome de um CNPJ criado pelo banco (inquérito 2.206-3).

Mas vamos deixar isso pra lá. Tem mais de 20 anos. Meirelles hoje não precisa mais viver como um predador do mercado financeiro. Está aposentado, muito rico. Não tem mais nada para fazer na vida. Até acredito que ele esteja arrependido de seus pecados, muitos pecados, e queira fazer algo de bom pelo nosso sofrido país.

E o Brasil é o lugar ideal para pecadores arrependidos ou não. Aqui o sujeito pode aprontar o que for, até ser preso, que consegue ser candidato a qualquer coisa, até presidente da república.

Bem, vamos à Sérgio Moro, que indicou Affonso Celso Pastore, que foi presidente do Banco Central no início dos anos 80 (1979-1985).

Ele começou ressaltando a necessidade de o país ter instituições que funcionem:

– “Não haverá retomada do crescimento sem um aperfeiçoamento das instituições. A capacidade de crescer é uma função da qualidade das instituições. Este foi um dos principais erros do atual governo, no qual a política de confronto e de enfraquecimento das instituições impactou a segurança jurídica e a previsibilidade necessárias ao crescimento econômico.”

Disse que isso também foi um dos erros do governo do PT, que apostou no capitalismo de compadrio, um erro que jamais levará o país a ter crescimento econômico sustentável.

Disse, ainda, que o mundo já abandonou o mito do “Estado mínimo”, como foi idealizado por Thatcher e Reagan nos anos 80.

Pelo que falou, Pastore é a favor de dar fim na bagunça que é o Brasil. Ele defende regras estáveis, instituições fortes para defender essas regras, fim dos privilégios, fim da reeleição e reforma do judiciário, para que o país possa ter segurança jurídica e concorrência. Pastore mandou bem.

Agora vamos ver o que Lula tem a dizer. A pedido do ex-presidente Lula, seu ministro Guido Mantega foi escalado para escrever o artigo da série sobre “pensamentos econômicos de pré-candidatos” à Presidência. Mantega foi ministro do Planejamento (2003-2004), presidente do BNDES (2004-2006) e ministro da Fazenda (2006 a 2014), um longevo Ministro da Fazenda.

Mantega só fez criticar o governo atual e sua feroz política monetária contracionista, que vai paralisar a economia brasileira. O ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman, não aguentou e replicou no twitter. Ele falou em ‘amnésia petista’:

– “O que o ex-ministro omite é que entre 2014 e 2015 a inflação subiu de 6,4% para 10,7% e só caiu para 6,3% de novo às custas de uma política monetária ainda mais contracionista que a atual, que levou a Selic para 14,25% ao ano”.

É… Enquanto Paulo Guedes e Bolsonaro gostam de viver no passado, com a cabeça ancorada nos anos 70, os petistas gostam de esquecer e apagar o passado.

Enfim, o encontro foi improdutivo. O único a falar algo de interesse foi o Sr. Affonso Celso Pastore, em nome de Sérgio Moro. Eles defendem regras estáveis e Estado forte para fazer cumprir essas regras. Foi esta a base da fórmula de sucesso de países asiáticos, como China e Japão, tema de dois vídeos aqui neste canal explicando como foi que deixaram de ser países miseráveis e alcançaram o sucesso. Obediência a regras contribuiu muito para o êxito deles.

O Canal da Maionese está cobrando dos candidatos posicionamento sobre três pontos importantes:

1) Banco Central independente – Em fevereiro deste ano, o BC ficou independente por meio de uma lei complementar. No Brasil isso significa que presidente da república terá de dividir o poder com os banqueiros. Roberto Campos Neto permanecerá 2 anos à frente do Banco Central durante o mandato do próximo presidente da República, que será obrigado a conviver com sua política de manter elevados os juros da dívida pública. Esta política produz uma despesa enorme com juros, transformando o presidente em refém do Banco Central. Como é que não fala disso um candidato a Ministro da Economia? Nenhum deles falou.

2) Máquina Pública destruída – Presidente não faz nada sozinho, depende da máquina pública. Ao longo de décadas, a corrupção acabou com a meritocracia no serviço público e nas empresas estatais. O Brasil é um gigantesco desastre de gestão. O presidente que entrar não vai encontrar estudos, alternativas, propostas e planos aguardando vontade política para executar, de maneira a pôr o Brasil nos trilhos. Mesmo que o eleito tenha vontade de fazer, não vai encontrar quem faça. Escrevi exatamente isso em um artigo que publiquei em O Globo há dez anos atrás, antes ainda de existir a Operação Lava-Jato. Mesmo que queira fazer algo de bom, o eleito não vai ter máquina pública para fazer.

3) Corrupção – Talvez o principal fator de entrave para a economia seja a corrupção, que pode ter estado presente no único programa de governo que marcou a gestão de todos os presidentes eleitos, Collor, FHC, Lula/Dilma e Bolsonaro. Todos só queriam fazer grandes negócios com patrimônio federal: petroquímica, siderurgia, mineração, telefonia, estradas, portos e aeroportos, gasodutos, companhias de água, esgoto e energia, que passaram para as mãos de empresários, muitos deles inescrupulosos, muitos dos quais confessaram negociatas em delações premiadas. Pedágio, banda larga, luz, gás, juros… Tudo isso são serviços concedidos pelo estado brasileiro, que tem em comum preços entre os mais caros do mundo, além de empresas campeãs de queixas dos consumidores. Candidato tem que falar dessas coisas, se o seu interesse é fazer grandes negócios ao invés de governar.

O debate político no Brasil segue em nível baixo. Por isso, há espaço para surgir do nada um viajante da maionese, um desconhecido capaz de empolgar o povo. Ganhar a confiança das pessoas, sair de zero nas pesquisas para faturar esta eleição no primeiro turno.

Hoje, sabe quem é o líder na pesquisa espontânea? É o nenhum, que já teve 57% e se mantém na liderança com 43%.

Isso significa que o povo não está satisfeito com os atuais candidatos e está bem propenso a analisar as alternativas depois de definidas as candidaturas, o que só vai ocorrer em 15 de agosto deste ano.

Agradeço seu comentário, especialmente se acrescentar informações novas!