Há um lugar em que a inflação resolve problemas, ao invés de criar. Esse lugar fica sabe aonde? Na cabeça dos astrofísicos fãs do Big-Bang. Eu vou contar para vocês no que eles acreditam. Como eles acham que aconteceu a criação do universo.
A maioria deles crê em um surto inflacionário ocorrido sabe quando? Logo após o Big-Bang. Mais precisamente entre 10-33 e 10−32 segundos. Em uma fração de segundo minúscula teria havido uma expansão colossal do volume do universo, que foi multiplicado por um fator exponencial de 1078.
Não estou falando da expansão do universo não. É outra coisa. É a hiperinflação do espaço sideral, ocorrida no primeiro segundo do Big-Bang.
O surto teria criado espaço, muito espaço, uma quantidade enorme de espaço, em um espaço muito curto de tempo. E pra que isso serve? Serve para amplificar as flutuações quânticas ultramicroscópicas derivadas do princípio da incerteza de Heisenberg.
Essas flutuações deram origem às sementes gravitacionais que milhões de anos mais tarde dariam origem às estruturas em grande escala do universo: estrelas e galáxias.
Não fosse por isso, o Big-Bang teria produzido um universo em pó, com partículas dispersas pela imensidão, pois não haveria sementes da maionese aglutinante para provocar a aglomeração de hidrogênio suficiente para formar as primeiras estrelas e galáxias nas primeiras centenas de milhões de anos.
Além disso, a hiperinflação resolvia problemas parecidos com aqueles da piada da esposa perfeita, que vou contar para você:
– Esta esposa perfeita é aquela maravilha que resolve todos os problemas do homem (problemas que ele não teria se não fosse casado).
A ideia do Big-Bang original tinha três problemas que existiam na cabeça dos físicos, chamados de problemas do horizonte, da planura e dos monopolos magnéticos. A hiperinflação era a esposa perfeita que resolvia esses três problemas (que só existem se você for astrofísico).
- O problema do horizonte aguardava uma explicação de por que as temperaturas do universo são tão homogêneas em todas as direções cósmicas, sugerindo que tudo teria que ter estado em contato na largada;
- O problema da planura aguardava uma explicação de por que o universo não é uma sela de cavalo, coisa que você não merece que eu tente explicar aqui e agora;
- O problema dos monopolos aguardava uma explicação de por que raios o universo não está cheio dessas partículas, muito embora elas nunca tenham sido detectadas. Entendeu? Vou explicar de novo: o universo não contém uma partícula que ninguém nunca viu, o monopolo magnético.
Se você acha que estou brincando, vou falar da matéria escura, que é algo parecido com os monopolos magnéticos. Nenhum físico nunca viu, nem sabe de que é feita a matéria escura. Mas eles têm certeza não só que existe, mas que representa 85% da matéria do universo.
O monopolo magnético é algo parecido com a esposa perfeita. Embora muito procurado e jamais detectado, a maioria dos físicos acredita que existe. Por isso, eles ainda se casam.
Assim, uma solução como a hiperinflação capaz de explicar porque não se encontra monopolos dando sopa por aí, é algo que os físicos consideram motivo relevante para acreditar nessa história fantástica de hiperinflação.
E quem inventou essa história fantástica?
Alan Guth era um jovem físico americano vagando pelo mundo universitário, produzindo papers que ninguém lia. Um fracassado, sem perspectivas na vida de trabalhar com o que físicos gostam: viajar na maionese.
Eram anos 70. Ele sabia que se não publicasse algo que chamasse a atenção, seu destino seria acabar tendo que ir trabalhar no mercado financeiro, que pagava bem para quem dominava matemática pesada, que era usada na precificação de derivativos e colaterais – coisas aborrecidas que não lhe trariam felicidade, mas só dinheiro e, talvez, uma esposa perfeita.
Alan e seu parceiro chinês Henry Tye estavam prestes a publicar um artigo sobre monopolos, quando um cientista mais experiente sugeriu a Henry que ele estava investindo em viagem na maionese. E Henry abandonou Alan, que publicou o artigo, que estava errado.
Logo depois, Alan teve a ideia luminosa da teoria da hiperinflação e fez o quê? Fez o que todo mundo faz. Cheio de entusiasmo, saiu da caverna de Platão e foi contar para um ilustre colega cientista bem experiente. E Alan ouviu dele o seguinte*:
– Sabe Alan, o extraordinário é que nos pagam para produzir viagens na maionese iguais a essa que você me mostrou.
Abandonado por todos, acusado de ser viajante na maionese, o que fez Alan? Ele insistiu. Ele não desistiu. Foi adiante sozinho porque acreditava na sua ideia. Hoje, Alan Guth é um herói reconhecido pela comunidade de astrofísicos como o idealizador da hiperinflação.
Ganhou muitos prêmios e medalhas, foi reconhecido até na Inglaterra, que lhe deu a medalha Eddington em 1996 e a medalha Isaac Newton de 2009, concedida pelo Instituto Britânico de Física. Não ganhou Nobel, mas merecia.
Em 2005, Alan Guth ganhou o prêmio de escritório mais bagunçado de Boston, organizado pelo Boston Globe. Ele foi inscrito por colegas que esperavam que isso o envergonhasse e obrigasse a fazer a limpeza do escritório.
Aos 74 anos, ele ainda está trabalhando no MIT, Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Alan Guth é um cientista exemplar, ele soube usar sua imaginação para criar e não desistiu quando foi acusado de ser um viajante da maionese.
*Fonte: “Mais Rápido que a Velocidade da Luz”, João Magueijo, físico português
Para saber mais:
https://www.symmetrymagazine.org/article/the-problem-solver-cosmic-inflation