O microscópio de brinquedo

  • Categoria do post:Vida
  • Comentários do post:0 comentário

Um cientista já nasce cientista? O que você acha? No vídeo anterior, sobre o bioquímico Randy Schekman, Prêmio Nobel de Medicina de 2013, havia tanta coisa interessante para falar sobre as descobertas que não foi possível entrar no que mais interessa a este canal, que é encontrar a viagem na maionese que pode ter influenciado a sua decisão de se tornar cientista. Atrás de toda motivação obstinada, há sempre uma viagem na maionese. Eu estudo esse tipo de coisa, que foi o que me levou a criar este canal.

Fiz dois vídeos mostrando que a genialidade pode aparecer bem cedo, até mesmo em ambientes dos mais improváveis, como ocorreu na carreira de dois dos maiores matemáticos da história, o indiano Ramanujan e o alemão Bernhard Riemann, este último foi o responsável por nada menos que a criação da base matemática das teorias da relatividade de Einstein. As trajetórias desses matemáticos foram surpreendentes, considerando a pobreza extrema na juventude, que produziu sequelas na saúde de ambos, inclusive morte precoce, antes dos 40 anos.

Já no caso de Randy Schekman, a genialidade precisou de um gatilho para se manifestar. Em sua autobiografia, ele fala de dois fatos curiosos. Primeiro, até mais ou menos 12 anos de idade, ele não tinha interesse em ciência. Gostava de beisebol, como todos os garotos americanos da sua idade. Qual foi a gota d’água que mudou tudo? Foi uma gota de água suja, isso mesmo. Vamos ver o que ele disse:

– “… até por volta da 7ª série, não me lembro de nenhum interesse ou habilidade particular até o final do ensino fundamental e início do ensino médio. Isso começou a mudar quando ganhei um microscópio de brinquedo e coletei um pote de espuma de lagoa de um riacho local. Lembro com espanto da rica vida microbiana vista em uma gota daquela espuma de lagoa, mesmo apenas olhando para as lentes de plástico daquele brinquedo.”

– “…Este pode ter sido o único evento na minha juventude que fixou meu caminho na ciência. No ano seguinte, passei inúmeras horas olhando ou projetando uma imagem em uma tela de vidro com paramécios e rotíferos deslizando ou rastejando pelo meu campo de visão. Construí uma exibição de projeto científico com base em minhas observações simples para minha primeira inscrição no 8º ano e, embora não me lembre de nenhum reconhecimento específico por esse trabalho, fiquei fisgado, e a feira anual de ciências se tornou minha única paixão acadêmica permanente durante o ensino médio.”

Sabe o que me chamou a atenção? A curiosidade despertada pelo que ele viu no microscópio e, o mais interessante, a ausência de reconhecimento pelo seu esforço, pelo trabalho que ele produzia nessas feiras de ciências. Pessoas comuns, são movidas por reconhecimento, mas um cientista de verdade é movido de uma forma que pessoas comuns não entendem – a curiosidade é o motor principal.

Até o pai dele negou reconhecimento. Duvidou que ele pudesse ter visto algo de valor no seu microscópio de brinquedo. O garoto, então, decidiu economizar e comprar um microscópio melhor, usando o dinheiro de biscates que fazia, como cuidar de crianças, cortar grama e entregar jornais. Só que ele nunca conseguiu atingir a meta de US$ 100 porque sua mãe pegava o dinheiro dele emprestado para despesas da família. Um dia, ele se aborreceu com isso. A raiva foi tanta que o garoto… Bem, vamos ouvir o que ele disse:

– Um sábado, fiquei tão chateado que, depois de cortar a grama de um vizinho, fui de bicicleta até a delegacia e anunciei ao policial que queria fugir de casa porque minha mãe pegou meu dinheiro e eu não poderia usá-lo para comprar um microscópio. Meu pai foi chamado e palavras foram trocadas a portas fechadas. O efeito líquido disso foi que meu microscópio foi comprado em uma loja de penhores em Long Beach naquela tarde! Aquele microscópio se tornou meu bem mais precioso pelo resto dos meus anos na escola, mas foi inevitavelmente deixado de lado quando fui para a faculdade e a pós-graduação. Felizmente, meus pais o salvaram e o enviaram para minha casa atual na área da baía de São Francisco, onde ele ficou na poeira por décadas até o telefonema de Estocolmo, momento em que percebi que poderia ser mais interessante para os visitantes do Museu Nobel. Meu antigo microscópio agora está em exposição, junto com a história de como ele foi adquirido em um acesso de raiva na minha infância.

Impedido de dar vazão à sua imensa curiosidade, por causa de um microscópio, Randy Schekman foi capaz de denunciar os próprios pais à polícia, olha só…

Já como cientista de renome, sua rebeldia voltou-se contra o cartório das principais revistas científicas e seus lucros exorbitantes. Essas revistas cobram o autor da pesquisa para publicar, não pagam nada aos revisores e ainda cobram caro pelo acesso aos artigos. Suspeito que o que mais incomodava Randy Schekman é o critério de escolha do que publicar. Esse critério é baseado no impacto que a publicação pode provocar e não na relevância científica das descobertas.

Antes de ganhar o Nobel, Randy Scheckman aceitou comprar briga com as principais revistas científicas. Aceitou ser editor de uma revista lançada em fins de 2012 para combater o cartório, a eLife. Na eLife o acesso às publicações é inteiramente gratuito. Tem uma taxa de publicação, mas a revista só cobra de quem pode pagar. O trabalho dos revisores também é publicado – transparência total em prol da ciência.

Um cara como Randy Schekman não trabalha por dinheiro. É por amor ao que faz. Sua trajetória de vida, suas escolhas comprovam isso. Sua motivação é diferente daquela que move pessoas comuns, que acreditam que o dinheiro é o motor de tudo. Não é, especialmente na ciência.

Neste vídeo, Randy Schekman  foi desafiado a explicar os fundamentos de seu trabalho em apenas 101 segundos. O que ele disse?

– “Eu adorava olhar atentamente para a vida e pensar sobre como ela funciona. E ainda adoro”.

Após saber que tinha chegado ao ponto máximo sonhado por qualquer cientista, o Prêmio Nobel, o que passou pela cabeça de Randy Schekman? Ele se lembrou do ponto de partida de sua viagem na maionese: de como tudo começou na sua carreira, do microscópio de brinquedo com lentes de plástico, que ele fez questão de doar ao Museu do Nobel.

Abaixo: informações que não mencionei no vídeo.

  • O reconhecimento do principal trabalho de Randy Schekman foi tardio até mesmo na pesquisa que deu origem ao Nobel. Na década de 70, ele passou a trabalhar com fungos, porque, na época era mais simples, a ciência ainda não tinha avançado o suficiente para trabalhar de outra forma. Ele identificou genes que controlam o transporte de moléculas entre as células, moléculas embaladas em vesículas. Ninguém deu importância para sua descoberta. Achavam que as vesículas estavam presentes apenas nos fungos.
  • Passou o tempo. Nos anos 80, James Rothman, trabalhando com mamíferos, descobriu algo importante sobre as vesículas. Descobriu a proteína que permitia que as vesículas acoplassem na membrana das células para descarregar as moléculas transportadas. E descobriu mais, que o fez ir atrás de Randy Schekman. Os genes que Schekman identificou nos fungos também estavam presentes não só nos mamíferos, mas também nas aves, peixes, enfim, nos vertebrados. James Rothman descobriu que a descoberta de Randy Schekman era uma descoberta de imensa importância. O reconhecimento, o Nobel, veio para os dois em 2013, quase 30 anos depois das suas descobertas.
  • No organismo, circulam milhares de moléculas complexas, a grande maioria a ciência não tem a menor ideia de para que servem, para onde vão, como entram ou saem das células. No microscópio, muitas vezes o cientista não faz a menor ideia do que está vendo, isso quando o tamanho permite observações visuais. Decifrar a vida é para cientistas como Randy Schekman, dispostos a tentar entender as coisas, com os meios disponíveis, inclusive a colaboração com colegas, fator que foi decisivo para a amplitude das conclusões que deram origem ao Prêmio Nobel.
  • Entrevistas com Randy Schekman :
    iBiology Techniques: https://www.youtube.com/watch?v=hkUOahfZRhA
    Parte1: https://www.youtube.com/watch?v=bl1uG4PbTOE&list=PLila1Jm-QEwKu4xXtNpYFAsSDmPR9mlZB&index=65
    Parte2: https://www.youtube.com/watch?v=MNjfkoutAhQ&list=PLila1Jm-QEwKu4xXtNpYFAsSDmPR9mlZB&index=62

Agradeço seu comentário, especialmente se acrescentar informações novas!