Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP analisaram sangue de 101 vacinados com as duas dose de Coronavac (incluindo 42 acima de 60 anos) e 72 infectados há pelo menos 5 meses. Segundo os pesquisadores:
“foi medida a produção de duas proteínas essenciais para o funcionamento das células T, que fazem a defesa do organismo, a interleucina-2 e o interferon-gama. Nos homens com mais de 55 anos, não houve diferença no interferon-gama, mas sim na interleucina-2, o que aponta para uma possível dificuldade na produção de células T de memória, que garantem a resposta imune contra o vírus muito tempo após a vacinação.” professor Edécio Cunha Neto da USP no jornal da USP
“…enquanto 60% das mulheres ≥55 apresentaram respostas de anticorpos e células T, apenas 28% dos homens na mesma faixa etária apresentaram ambos os tipos de resposta.” trecho do estudo
Até aí tudo bem. Não entendi foi a conclusão, que recomenda uma terceira dose de vacina, diferente da Coronavac, com base na queda observada em idosos de uma das duas proteínas analisadas (o corpo humano tem umas 20 mil):
“… nossos resultados podem sugerir que os vacinados com Coronavac acima de 55 anos de idade poderiam se beneficiar de uma vacina heteróloga [de outro fabricante] de terceira dose / reforço.” Frase final do estudo
O que tem a ver uma coisa com a outra? Uma possível dificuldade pode sugerir que pessoas poderiam se beneficiar de fazer algo que o estudo não estudou?
Mas não é só. Será que apenas 42 idosos são suficientes para concluir a existência de queda de proteção que ainda não apareceu nas estatísticas de internação hospitalar de milhões de vacinados? Talvez seja a minha ignorância no assunto que me levou a não entender patavina ou a cogitar na maionese que, de repente, o interferon-gama sozinho dê conta da variante gama, a predominante no Brasil. Afinal gama com gama daria jacaré?
Bem, brincadeiras à parte, senti cheiro de maionese no palavreado e na conclusão do estudo. Felizmente, percebi que meu nariz não foi o único a perceber cheiro de maionese.
Além da íntegra desta pesquisa da USP, eu também li uma matéria publicada sobre ela no jornal igualmente da USP. O que me chamou a atenção foi o Jornal da USP ter convidado para falar o Pesquisador da Fiocruz, André Siqueira, que aceitou comentar a pesquisa, embora não tenha participado dela. Ele manifestou opinião contrária àquela dos autores do trabalho, não propriamente contrária, mas mais cautelosa, ao dizer, trocando em miúdos, que o que foi descoberto pode não significar nada.
Ele apontou as limitações muito educadamente:
“… ainda não está bem definido… que níveis de anticorpos e que níveis de resposta imune celular são necessários para promover a proteção contra diferentes desfechos, desde a infecção até a hospitalização e morte. Então, não vejo como se possa generalizar isso como os autores sugerem”. André Siqueira.
Ele considera que os dados do estudo não são, sozinhos, suficientes para indicar a necessidade de uma terceira dose. Para isso, diz serem necessários estudos clínicos, como um que está em andamento, citado pelo Dr. Jorge Kalil, um dos autores da pesquisa. “Só assim podemos avaliar qual o ganho que se tem com uma terceira dose da mesma vacina ou de outra. Sem isso, ficamos com a suposição, que parece óbvia, de que quanto mais doses, mais proteção – mas isso não é tão matemático assim”, afirma André Siqueira.
O que ele quer dizer? Nosso sistema imunológico é altamente complexo e bem pouco compreendido. A queda de uma das duas proteínas pesquisadas pode ser que nem mesmo signifique queda de proteção. Ademais, o ser humano tem a tendência a acreditar na viagem na maionese de que mais vacina, mais anticorpo gera mais proteção. Isso não é tão matemático assim, como diz o pesquisador da Fiocruz.
Um outro estudo in vitro de cientistas australianos publicado na Nature Medicine intitulado “Qual nível de anticorpo neutralizante protege de COVID-19?” aponta que a proteção pode se manter para infecções graves, ainda que a queda nos anticorpos permita contrair a doença. Ou seja, a matemática da queda de anticorpos permite contrair a doença, mas pode impedir sua gravidade. Eles falam que dose de reforço pode ser necessária depois de um ano.
“O modelo também prevê que a proteção imunológica contra a infecção pode diminuir com o tempo conforme os níveis de neutralização diminuem e que a imunização de reforço pode ser necessária dentro de um ano. No entanto, a proteção contra infecções graves pode ser consideravelmente mais durável, visto que níveis mais baixos de resposta podem ser necessários ou respostas alternativas (como respostas imunes celulares) podem desempenhar um papel mais proeminente.”
Pesquisadores também são tentados a viajar na maionese diante de eventual frustração das expectativas que mantinham ao iniciar a pesquisa. Ninguém gosta de gastar tempo e recursos com uma pesquisa para, ao final, ter que dizer que o resultado é inconclusivo. Isso, além de não dar mídia, desestimula investimentos privados em pesquisas. Nesta pesquisa da USP, por exemplo, tinha dinheiro de Joesley Batista, da JBS. Isso está escrito na Declaração de Interesses.
A fronteira entre o que pode ser afirmado e o que se deve afirmar é bem tênue. Mesmo pesquisadores reconhecidos, como creio ser o caso de todos os que assinam o trabalho da USP, podem achar frustrante ter que concluir que o estudo é inconclusivo. E aí aparece a vontade de viajar na maionese e arrumar uma conclusão mais palatável para a mídia e para os patrocinadores.
Não tenho conhecimento para julgar se foi isso que ocorreu. Meu papel no canal nem é esse. O propósito do canal é combater as certezas. As pessoas já são capazes de chegar a certezas por si mesmas, com a velocidade da luz, apenas lendo títulos de matérias ou de pesquisas.
O propósito do canal é mostrar a essas pessoas que não é por aí. Ciência não é futebol, não é um jogo de chutes. Mais anticorpo, mais dose de reforço, mais vacina, tomar todas… o ser humano adora mais e mais de tudo que parece fazer bem. O problema é que o sistema imunológico pode funcionar de forma bem diferente das suposições humanas.