O trabalho do Butantan na produção de vacinas salvou muitos idosos brasileiros. No início, até abril de 2021, a Coronavac reinava absoluta. Representava 85% das vacinas, com 36 milhões de doses aplicadas de um total de 48 milhões, doses suficientes para atender com 2 doses ao total de idosos no Brasil, que é de 20 milhões. Então, após os prazos e duas doses aplicadas, o resultado positivo da vacinação começou a aparecer e foi se tornando nítido. Começaram a despencar os casos e mortes com idosos.
Infelizmente tenho uma notícia ruim que vou deixar para o final.
O método mais simples de avaliar eficácia de vacina contra o coronavírus é ver o que acontece com o percentual de mortes por faixa etária. Vou mostrar quatro estudos que escolheram este caminho simples e óbvio.
O primeiro estudo foi publicado há poucos dias na The Lancet com dados até 15 de maio, o segundo é uma pesquisa minha, que eu fiz com dados até 4 de agosto, o terceiro está no Boletim da Fiocruz e o quarto, o melhor deles, é um estudo enorme, com 10,2 milhões de pessoas, feito no Chile.
Em The Lancet a pesquisa publicada em 15/07/2021, com dados até 15 de maio de 2021, foi assinada por dois pesquisadores da UFPel, Universidade Federal de Pelotas, Cesar Victora e e Aluisio JD Barros, mais duas pesquisadoras da Escola de Saúde Pública Harvard em Boston EUA, Marcia C Castro e Susie Gurzenda, e dois funcionários do Ministério da Saúde. Um deles é doutor em Bioquímica pela Universidade de São Paulo, o paraibano Arnaldo Correia de Medeiros, foi nomeado em junho do ano passado para exercer o importante cargo de secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, no lugar do Wanderson Oliveira, aquele da equipe de Mandetta, que deixou o cargo por divergências com a cúpula do governo sobre as ações de combate ao coronavírus.
Para a pesquisa, foi conveniente ter alguém importante do Ministério da Saúde participando, porque é o melhor jeito de conseguir as informações que o governo oculta da sociedade, seja por incompetência ou má fé.

O resultado principal desta pesquisa é um gráfico mostrando expressiva queda no % de mortos acima de 70 anos até 15 de maio, concluindo que a vacinação evitou 43.802 mortes.
A minha pesquisa tem dados mais atualizados, até 4 de agosto. Mostra a mesma coisa, com a diferença que usei dados de óbitos por faixa etária procedentes dos cartórios, porque não consigo ter acesso aos dados de mortalidade do Ministério da Saúde, do Sistema de informações de Mortalidade – Sim, mostrando apenas tabelas até 2019 – uma vergonha.
Cheguei a 57.418 mortes evitadas. Meu número é maior em função de contemplar quase 3 meses a mais do que a pesquisa da The Lancet, que parou em 15 de maio, quando as mortes por coronavírus estavam em 238 mil no ano de 2021, enquanto na minha atingiram 351 mil em 4 de agosto de 2021.
O melhor dos trabalhos feitos no Brasil é o que foi publicado no Boletim da Fiocruz de julho.
Em sua página 8, há um gráfico semanal em 2021 que mostra queda significativa de internações em UTI e de mortes de idosos no Brasil depois da segunda dose.

Os dados mostram significativa queda de internações e óbitos a partir dos momentos em que se esgotaram os prazos de imunização após 2 doses de vacina para as faixas de idosos de 70 a 80 e acima de 80 anos.
Vamos agora à pesquisa nota 10 milhões. Aquela feita pelo Chile.
A robusta pesquisa no Chile foi feita em 3 meses, fevereiro, março e abril, com 10,2 milhões de pessoas, sendo 5,5 milhões de não vacinados, 4,2 milhões de vacinados com 2 doses e um punhado restante de 500 mil com uma dose. No período houve 218.784 casos de coronavírus, 22.866 hospitalizações, 7.873 admissões em UTI e 4.042 mortes.
Ressalto que as taxas de eficácia não foram boas para quem tomou apenas uma dose. Abaixo de 50%. Só depois de aplicadas as duas doses você obtém taxas altas de sucesso.
No grupo de imunizados, a eficácia foi de 66% para contrair coronavírus. Porém, o que interessa não é esta taxa, mas as outras três. Com duas doses de Coronavac, 88% escapam de hospital. Dos que vão parar no hospital, 90% escapam da UTI. E dos que acabam na UTI, 86% escapam do desfecho cemitério.
No Uruguai, os resultados são semelhantes. Quase 30% da população de 3,5 milhões foi imunizada com duas doses até 31 de maio. Estudos mostram eficácia de 61% para contrair coronavírus, de 92% para dar entrada em UTI e 95% para morte.
No entanto, o gráfico embute uma notícia ruim. Os resultados positivos estão revertendo no Brasil, especialmente para a faixa acima de 80 anos, que foi vacinada há 5 meses.
Esta faixa respondia por 30% das mortes no início do ano, baixou para 12% em abril e voltou a subir para 22,5% em julho, segundo a Fiocruz. Essa reversão também está visível para a faixa logo abaixo, de 60 a 80 anos.
Não vou viajar na maionese arriscando uma explicação, algo que deveria vir de pesquisa. Vamos ter que esperar o Chile ou o Uruguai descubram o motivo da vacinação começar a ratear nos mais idosos depois de 5 meses, porque aqui, no Brasil, faz décadas que não há vida inteligente no comando do país, coisa que faz um mal enorme especialmente para a ciência e as pesquisas científicas.
Se fosse você, não confiaria cegamente em vacinas. Especialmente no dia dos pais que está chegando.