“Eu diria para você que não sei o que vai acontecer com todas as instituições brasileiras daqui a 30 dias.” Entrevista ao jornal Correio Braziliense de 31/05/2020.
A frase de Roberto Romano evidencia que ele não era um viajante da maionese, por ser detentor da rara virtude de dizer “não sei o que vai acontecer”.
Entretanto, ele sabia. Nesta entrevista ao Correio Braziliense, ele antecipou o quadro que está acontecendo agora. Destaco algumas frases:
Olha, eu tenho 74 anos, passei pela ditadura, passei pelos regimes supostamente civis, enfim, vi muita coisa e conheço muita coisa da história do Brasil. Eu digo a você que nunca vi maior fragilidade geral do Estado brasileiro como estou vendo neste momento.
Volto àquela questão de que as instituições estariam funcionando normalmente. Elas não estão. Neste momento, estão com a sua fragilidade agravada, inclusive o Executivo.
Se ele termina o mandato ou não; se o STF consegue impor a sua autoridade ou não; se a Câmara dos Deputados e o Senado conseguem encontrar um modus operandi que tenha, pelo menos, a aparência de democracia ou não; se o Exército vai atender ao apelo da legalidade e da Constituição ou não; tudo isso para mim é uma incógnita.
O problema não é o Bolsonaro; o problema não é o ministro Alexandre (de Moraes, do STF). Isso é um ponto em que eu divirjo muito dos meus colegas e dos seus colegas jornalistas. Quando eles terminam uma exposição de doutorado, eles dizem “as instituições estão funcionando normalmente”. As instituições brasileiras nunca funcionaram normalmente. O imperador, para começar, já deu um golpe, já fechou a Câmara. Essa tradição é muito antiga no Brasil, você não ter instituições que se tornem sólidas, maduras. Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos da América, com todo o pandemônio criado pelo efeito Trump, você ainda tem as instituições funcionando permanentemente e de modo correto. Assim também ocorre na França, na Alemanha, que passou pelo nazismo. No Brasil, isso nunca houve. Cada vez que um governante tenta a aventura de se transformar na grande fonte da lei, da força e de toda a ordem econômica, etc., ele fragiliza ainda mais as instituições. Então eu acho que, infelizmente, nós caminhamos para uma fragilidade enorme, e não é questão de usar um cabo e um jipe, não; é um desgaste interno. Você vê uma espécie de implosão do Estado brasileiro. E nessa implosão não se vê muitas saídas.
Lamento a perda desse filósofo da ética, princípios e retidão. São virtudes ausentes há décadas nas altas esferas do poder no Brasil, infelizmente.
Morreu de coronavírus em 22/07/2021.