Randy Schekman – O cientista de 1 bilhão de dólares

O conhecimento científico proporcionou a este homem recursos suficientes para ter qualquer coisa que ele pudesse desejar. Será mesmo? A viagem na maionese de um cientista top das galáxias pode ser muito diferente daquela de pessoas comuns, que acreditam que o dinheiro pode proporcionar tudo. Há problemas na vida que nem 1 bilhão de dólares resolve.

A UNB recebeu um prêmio Nobel. Sim, recebeu sim, sou testemunha, fui lá na universidade conferir no final do mês passado. No auditório da universidade aqui em Brasília, assisti sabe o quê? Uma apresentação de Randy Schekman um dos três vencedores do Nobel de Medicina de 2013. Olha ele aí contando o momento em que recebeu a ligação da Suécia e ficou sabendo do prêmio:

Os demais vencedores foram Thomas Südhof e James Rothman, todos ligados a universidades americanas. Os três desvendaram mistérios do transporte de cargas entre as células. Sim, as células arranjaram um jeito de transportar cargas de produtos químicos. Os agraciados com o Nobel descobriram o mecanismo preciso pelo qual moléculas produzidas por uma célula viajam e encontram a célula de destino, e como a carga consegue acoplar com a membrana da célula de destino para ser descarregada.

Há tempos a ciência tinha conhecimento de que sinais químicos viajam no sangue envolvidos em uma embalagem chamada vesícula para resistir ao transporte. Mas havia mistérios que foram decifrados pelos ganhadores do Nobel: a) quais os genes envolvidos com esse processo? b) como a vesícula sabe o destino da carga? e c) quando a carga chega na célula destino, como se liga à célula para descarregar?

Trabalhando com fungos mutantes com defeitos genéticos, Randy Schekman identificou genes relacionados com o tráfego das vesículas. James Rothman identificou as proteínas que se acoplam, a da vesícula e a da célula de destino. Thomas Südhof mexeu com células nervosas, desvendou mecanismos de liberação de substâncias neurotransmissoras também embaladas por vesículas. Juntos, Schekman, Rothman e Südhof decifraram enigmas da bioquímica celular.

Distúrbios nessa bioquímica produzem doenças neurológicas, doenças do sistema imunológico e o diabetes. Por isso a descoberta é muito importante e vem contribuindo para as pesquisas da cura de doenças que afetam muita gente.

Para se ter noção da importância da descoberta a insulina é um bom exemplo. É um tipo de hormônio, uma molécula produzida por células do pâncreas.

Aliás, é uma molécula muito complexa, composta por 51 aminoácidos. Um total de 731 átomos. Átomos de carbono, nitrogênio, oxigênio e hidrogênio divididos em duas cadeias, ligadas por pontes dissulfeto, pontes de enxofre. Sem insulina, as suas células são incapazes de receber alimento.

Envolvida na vesícula, a molécula de insulina é descarregada pelo pâncreas na corrente sanguínea. Serve para quê? A insulina é a chave que abre a porta na membrana da célula, de todas as células do corpo humano. Abre a porta para que recebam alimento, a glicose que também circula no sangue.

Essa glicose não pode se acumular por ser tóxica para os vasos sanguíneos. Quando acumula, é diabetes tipo 2, que é o tipo de 95% dos casos.

O mecanismo da insulina está presente nos vertebrados, sendo algo que evoluiu há muitos milhões de anos.

Os pesquisadores achavam que a gordura abdominal era só reserva de energia. Porém, estudos mostraram que essa gordura induz a produção de hormônios e outras substâncias que produzem inflamação crônica ou duradoura no corpo. Supõe-se que isso tem relação com o mau funcionamento da insulina, que os médicos chamam de resistência à insulina, que ainda é um mistério. A ciência não descobriu o mecanismo que produz o mau funcionamento da insulina que dá origem ao diabetes.

Um motivo a mais para comparecer à palestra foi a admiração por Randy Scheckman, pelo fato dele ter declarado guerra ao cartório das principais revistas de divulgação científica, Science, Nature, Cell e outras. Elas cobram caro dos autores, não remuneram os revisores e vendem assinaturas por preços exorbitantes. Isso já foi alvo de protestos até da Universidade de Harvard. Ainda por cima, de vez em quando, aceitam publicações de pesquisas fraudulentas.

Randy Scheckman aceitou ser editor de uma revista lançada em fins de 2012 para combater o cartório, a eLife. Na eLife o acesso às publicações é inteiramente gratuito. Tem uma taxa de publicação, que não é barata, mas a revista só cobra de quem pode pagar. O trabalho dos revisores também é publicado, transparência total para a ciência.

A revista ganhou notoriedade mundial em 2015 com a publicação de artigo sobre a descoberta do Homo Naledi. Aqui neste canal você vai encontrar três vídeos com tudo sobre essa fantástica descoberta!

Randy Scheckman é um gênio humilde, muito culto. Ele doou sua parte no Nobel, US$ 400 mil, para criar uma Cátedra em pesquisa básica sobre câncer na Universidade de Berkeley, em homenagem à sua mãe Esther e à sua irmã e Wendy Schekman que morreram de câncer. Dinheiro para ele não é problema.

É um gênio requisitado por bilionários, como o cofundador do Google, Sergey Brin, um dos homens mais ricos do mundo, com fortuna de US$ 78 bilhões. Ele doou mais de US$ 1 bilhão para pesquisas sobre o Mal de Parkinson, doença contraída por sua mãe Eugenia e, também, pela esposa de Randy Schekman, que foi diagnosticada com Parkinson quando tinha 48 anos e foi declinando lentamente ao longo de duas décadas; ela morreu em 2017.

Neste mesmo ano, a equipe filantrópica de Sergey Brin criou uma entidade de pesquisa, a Aligning Science Across Parkinson (ASAP para abreviar), e contrataram Randy Schekman como diretor científico, não só pelo seu conhecimento, mas por sua forte conexão, por seu drama pessoal com sua esposa. “É uma doença terrível”, diz Schekman. “Quando minha esposa morreu, pensei: ‘O que posso fazer de melhor com minha vida?’”

Eu fico aqui pensando na história de vida desse cientista. Mesmo sendo uma mente brilhante, nada pode fazer para salvar a irmã e a mãe do câncer, e a esposa, que ele cuidou durante 20 anos, assistindo ao agravamento de seu quadro de saúde esse tempo todo pelo Mal de Parkinson.

Dr. Michael S. Okun, neurologista da Universidade da Flórida, disse que o Parkinson era considerado uma das “doenças mais complexas da medicina”. Alguns pacientes nunca irão progredir além dos estágios iniciais da doença, enquanto outros progredirão rapidamente e não conseguirão andar ou mesmo ficar de pé sem usar um andador.

Randy Scheckman vai fazer 76 anos no dia 30 de dezembro. Do fundo do coração desejo a ele muita saúde e que tenha sucesso na sua pesquisa pela cura dessas doenças que podem atingir qualquer um, e que atualmente afligem milhões de pessoas.

Fundo utilizado: Los Angeles, Califórnia

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