O que a China fez de diferente para decolar? O milagre fica mais evidente sabendo como o país estava quando tudo começou.
O ano é mil novecentos e noventa. O lugar é a China. A população era de um virgula um bilhão. A miséria atingia oitocentos milhões de acordo com dados e critérios do banco mundial. Siga com o viajante da maionese para saber como foi a substituição dos antigos dirigentes da China por engenheiros altamente qualificados. A mídia ocidental nunca deu destaque a esta profunda mudança.
Em 1990, o que era a China? Nada. Este gráfico foi construído a partir de dados e critérios do Banco Mundial. Mostra a população total. As bolinhas são os percentuais de pobreza extrema de China e Brasil. Em 1990, China tinha 72% da população na pobreza extrema, o que dava 800 milhões de chineses.
O Brasil tinha 24% ou 35 milhões de habitantes nessa situação e hoje ainda tem 3,5% ou 7 milhões enquadrados no critério do Banco Mundial. Em reais no Brasil, esta pobreza significa o equivalente a até um salário-mínimo de renda total para uma família de 5 pessoas. Já na China esta pobreza agora é residual.
Na década de 90, o PIB da China emparelhava com o do Brasil. Hoje, a China está quase alcançando os EUA, com 18 trilhões, enquanto o PIB do Brasil está estacionado no mesmo lugar há mais de dez anos. As exportações também empatavam, mas o Brasil ficou para trás, porque exporta produtos de baixo valor, produtos do agronegócio, setor que gera poucos empregos com baixos salários.
O que a China fez de diferente para decolar?
Começo pelo chinês Cheng Li, que começou a ficar famoso em 1990, quando cursava o doutorado em Princeton, em Ciência Política. Publicou uma pesquisa que alertou o mundo para uma novidade. Uma profunda alteração na origem acadêmica e profissional dos principais integrantes do poder na China.
De lá pra cá, Cheng Li passou a ser chamado com frequência para entrevistas na CNN e na BBC, além de artigos nos principais jornais e revistas do mundo. Ele escreveu livros que falam sobre o processo de dominação do poder na China por uma tecnocracia composta por engenheiros que exerciam a profissão em carreiras de sucesso antes de serem convocados para ingressar nos principais cargos de poder. Essa é a definição de tecnocrata no conceito chinês, que, ressalto, não inclui carreiras de áreas sociais. Nada de advogados, muito menos economistas.
De 1993 pra cá, a China teve 3 comandantes, todos engenheiros. Os dois primeiros engenheiros elétricos e o atual, Xi Jinping, que assumiu em 2013, é engenheiro químico formado em Pequim, na mesma universidade de seu antecessor. O que faziam antes esses 3 comandantes?
Jiang Zemin trabalhou em várias fábricas como engenheiro e chefiou institutos de pesquisas tecnológicas em várias partes da China. Hu Jintao trabalhou na construção de Três Gargantas, a maior hidrelétrica do mundo. O atual, Xi Jinping, comandou duas províncias com sucesso, destacando-se pelo combate à corrupção.
Como é o Poder na China? O governo, aliás o Poder Executivo nas 34 subdivisões do país – Estados, Municípios e Cidades-Estado – os principais cargos são de prefeito, governador, além de um secretário do partido comunista que acompanha a gestão. No plano federal, o equivalente aos ministérios é chamado de Conselho de Estado, composto por 1 primeiro-ministro, 4 vices e 5 conselheiros, mais 26 órgãos tipo ministérios, incluindo um Banco Central e uma Auditoria-Geral. No total já somei um pouco mais de cem dirigentes.
Acima do Poder Executivo, está o Partido Comunista, com 3.000 representantes eleitos pelo povo em eleições diretas. Estes representantes elegem o poder central, composto pelo Comitê Central (205 membros), que elege o Politburo (24 membros) e o núcleo duro do poder, o Comitê Permanente (7 membros).
Como era antes a qualificação dessa gente? Em 1982, nenhuma das autoridades do Poder Executivo era tecnocrata, com uma única exceção. A situação era semelhante no Comitê Central do partido comunista.
Deng Xiaoping, a mente por trás das mudanças, começou estabelecendo quotas para quem tinha frequentado universidades. Ele também colocou o Ellon Musk chinês para chefiar o programa de foguetes durante os anos 80. Quem era ele? Qian Xuesen, o cientista de foguetes formado no MIT (Massachusetts Institute of Technology), uma das universidades americanas de maior prestígio.
Defensor da tecnocracia, Qian acreditava que os governos deveriam ser administrados como um departamento de engenharia. Os problemas econômicos, sociais e políticos poderiam ser atacados com a mentalidade de um engenheiro. Uma ideia bem diferente da que prevalece no Ocidente.
Nos anos 90, os engenheiros foram ocupando o poder. Na virada do século, mais de 70% dos cargos do Poder Executivo estava dominado por tecnocratas. Eles compunham 70% do Conselho de Estado, 77% dos governadores e 74% dos secretários provinciais. Em 1997 e 2002, nos 15º e 16º Congressos do Partido, foram selecionados apenas tecnocratas para integrar os 7 membros do tal Comitê Permanente, que é quem manda no país.
Nos dias de hoje, é fato que a ciência é a base dos países que estão indo adiante. No entanto, a China foi o único país a decolar tanto e tão rápido. Foi também o único país que delegou a técnicos o poder político. E o mais importante, o único país com excesso de população a dar fim na miséria.
Talvez, o segredo da China tenha sido nem tanto a introdução da inteligência, mas sim a supressão da burrice, de colocar mentes atrasadas para os cargos de poder, conforme fez Mao Tsé Tung, o que causou a maior das desgraças sofridas pelo país: a morte pela fome de 15 a 45 milhões de chineses, ninguém sabe quantos foram.
Talvez por conta desse trauma, em nenhum lugar do mundo você vê tanta admiração e respeito do povo por pessoas com formação científica ou de engenharia, que passaram a ser os preferidos para ocupar os cargos públicos em eleições diretas e também nas indiretas. Pesquisas apontam que o povo está satisfeito com o governo federal, especialmente as camadas mais pobres.
Neste vídeo mostrei como foi a decolagem da China em 25 anos de 1990 a 2015. Nos próximos vídeos, você vai ver como evoluiu o conceito de tecnocrata na China nos últimos dez anos, na Era Xi Jinping. Esse conceito passou a incluir não só engenheiros, mas especialistas nas áreas de tecnologia da informação, nuclear, aeroespacial, construção naval, 5G, robótica… ciências dos materiais, ciências biológicas e ambientais, além de inteligência artificial.
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