O pacto secreto dos seres supremos

Tenho um amigo cientista de dados que trabalha com inteligência artificial nos Estados Unidos. Atende a interesses empresariais e, às vezes, presta consultoria para agências de inteligência do governo americano. Como trabalham as agências de inteligência? Essas agências tentam antever o futuro, traçar cenários de países, até mesmo de países complexos demais como é o caso do Brasil. As agências criam hipóteses para conectar os fatos dentro de uma lógica racional.

Criar hipóteses é o quê? No fundo é viajar na maionese, só que com direção. Se você não sabe, viajar na maionese é uma ciência baseada no treinamento da imaginação, coisa que computador tem dificuldade de fazer, mas o meu faz. Vou explicar.

Esse especialista aqui, do Clube do Hardware, testou maionese como pasta térmica para abaixar a temperatura do computador. A temperatura baixou mesmo, mas houve oxidação do processador. Testei isso também. Só que no meu aconteceu outra coisa. O processador passou a ser capaz sabe de quê? De produzir viagens na maionese. Ééééé´…

Os microchips do meu computador passaram a ter capacidade de inventar explicação para qualquer coisa, até mesmo para decisões esquisitas de seres supremos. Por isso, esse amigo americano costuma me procurar de vez em quando, recorrer à inteligência artificial do meu computador quando a dele falha.

[Barulho de telefone, alô.  Ligação de Terry Mathew.]

– Marco Polo, volto a te procurar novamente para entender a política do Brasil, que parece sofrer interferência do Supremo Tribunal Federal.

– Em todos os países, o supremo cuida de causas constitucionais. O do Brasil parece envolvido em tudo.

– Consegue inventar uma viagem na maionese capaz de ligar os pontos?

– Uma hipótese que permita entender todos os atos e comportamentos do passado recente?

– Precisamos de uma narrativa com uma lógica que um americano seja capaz de entender.

– Meu caro, entendo seu problema. Seu cliente quer hipóteses. Não foi capaz de inventar nenhuma para explicar o que acontece no Brasil. Isso é natural. Não é fácil explicar o STF, principalmente porque o comportamento deles é errático:

Os ministros odiavam uns aos outros, mas em 2020, estranhamente, se tornaram amiguinhos, unidos. Neste livro, o especialista em STF, Felipe Recondo, falou sobre esta mudança radical. Agora um toma uma decisão monocrática absurda e não tem risco de reação contrária dos demais. O STF passou a se comportar como se fosse um partido político.

Nas suas decisões, muita incoerência. Contrariam até a jurisprudência deles mesmos, que é instável. A prisão em segunda instância, uma hora são a favor, outra hora são contra; agora querem inverter de novo o entendimento do foro privilegiado.

As sentenças, ninguém entende. Penas discrepantes em relação à justiça americana. Veja o caso dos invasores de poderes, todos viajantes da maionese, tanto aqui quanto aí, um caso bem parecido nos dois países. Aqui, penas de 12 a 17 anos de prisão, enquanto nos EUA a média do tempo de cadeia é de 2 meses.

– Isso mesmo Marco Polo! Algo que faça sentido. O plano do Supremo para atingir objetivos futuros. Sua máquina é treinada para encontrar lógica onde ninguém consegue visualizar.

– Pode deixar comigo. Você me envia os pontos que deseja conectar, os fatos que considera inexplicáveis, que eu vou bater no liquidificador e despejar pra você um cenário que faça sentido.

– Marco Polo, desde já agradeço o seu empenho. Sei que se trata de uma façanha de alta magnitude. Obrigado.

É… Ele falou em magnitude, que tem a ver com terremoto. De fato, os terremotos recentes do mundo político brasileiro, todos eles, tiveram o STF em seu epicentro. Na escala Richter do STF, de 11 níveis, o mais avassalador é o nível Xandão, capaz de derrubar milhares de patriotas com uma canetada só. Já o nível mais baixo é o nível evangélico, que, apesar de classificado como terrível, treme, treme e não faz nada.

O amigo americano enviou esse quadro com os fatos a conectar.

Vamos então à história, à narrativa que o computador inventou, eu disse inventou, para conectar tudo.

Tudo começou no dia 16 de outubro de 2019. Bolsonaro convocou três ministros do STF para irem até o Palácio do Planalto em um encontro fora da agenda. Eles foram. Presentes: Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Toffoli.  O assunto jamais foi divulgado, mas meu computador sabe.

– Bolsonaro disse a eles que teve 50 milhões de votos, enquanto eles não tinham nenhum. Se não o deixassem governar, o povo ia acabar invadindo a esplanada, promover quebra-quebra.

Isso foi em 2019, outubro. Os ministros voltaram cabisbaixos, preocupados.  O meu computador usou inteligência artificial para produzir um vídeo com a reação deles. Eu vou fazendo perguntas e a máquina vai gerando as respostas que o meu amigo deseja.  É assim que a coisa funciona.

O que vocês pretendem fazer?

– Já que não temos votos, vamos dar um jeito de botar uma coleira em quem tem. Vamos passar a mandar nisso aqui. Quem tem votos pra tirar Bolsonaro é Lula. Vamos tirar ele da cadeia no mês que vem. Fazer um trato. Ele fica livre, mas vai ter que concorrer, tirar o Bolsonaro e depois inventar uma desculpa qualquer para vazar, se aposentar. O vice assume. Nós vamos indicar o vice.

– Mas tem um problema. Se Lula sair nos primeiros dois anos, a constituição manda fazer nova eleição. Como é que fica?

– Então vamos deixar ele lá até o final de 2024. Ele não faz nada mesmo, só viaja. Depois que ele sair, vamos ter dois anos para preparar o terreno para eleger um de nós, incluir um de nós na chapa para presidente.

– E como vão financiar a campanha?

– Não se preocupe com isso. Com uma ou duas Toffolices a gente arruma algum recurso com aqueles megaempresários amigos do Lula que estão nas nossas mãos.

– Mas e o Bolsonaro? Ele tem uma força política expressiva.

– Nós também vamos ficar mais fortes, vamos incluir no trato a indicação de dois ministros que pensem como nós para os cargos que vão vagar aqui no STF. E os que estão saindo, aposentando, vamos botar um deles lá no Ministério da Justiça para controlar a Polícia Federal. Com a polícia na mão, ninguém vai ter coragem de se meter com a gente.

– Mesmo assim, o que vão fazer com dezenas de milhões que estão contra?

– Vamos regulamentar as mídias sociais, censurar quem falar o que não deve.

– Vamos usar o Inquérito das Fake News para detonar quem falar mal de nós, mesmo que seja o Elon Musk, afinal quem interpreta a lei somos nós.

– Qual de vocês será o escolhido para compor a chapa para a presidência?

– Vamos deixar isso para mais tarde. Mas o escolhido vai ter que sair por aí treinando, fazendo discurso político, vai a tudo que for evento, vai a Davos, vai na UNE, vai dizer que derrotamos o Bolsonarismo pro povo entender que nós é que ficamos com as bandeiras do Lula.

– E quanto ao Bolsonaro?

Vamos tornar ele inelegível. Se ele não se comportar, a gente manda prender.

– E se o povo não gostar, vier aqui para a Esplanada e sair quebrando tudo?

– Aí vai ser até bom. A gente diz que eram terroristas, golpistas, bota tudo na cadeia e depois vamos aplicar penas pesadas neles para ninguém tentar isso de novo quando nós chegarmos ao poder em 2026. Nos EUA não fizeram nada e o Trump está aí, ó, voltando. Mas na nossa democracia isso não vai ter chance de acontecer.

Essa estória inventada pelo meu computador até que faz sentido. Mas tem um detalhe complicado de se arranjar uma explicação. Sempre falo em meus vídeos que para entender as coisas é preciso ligar a mente naquilo que não se vê, especialmente quando se está diante de tantos e tão variados absurdos.

Não se vê reação dos demais dez ministros quando um deles extrapola. A cumplicidade entre eles passou dos limites do que é possível entender. Eles hipotecarem suas almas, mesmo diante de sentenças cruéis contra centenas de patriotas viajantes da maionese, um deles morreu na cadeia. Parece até que fizeram um pacto daqueles que só se vê em filme de terror. Um pacto que só se justifica quando é o caso de esconder algo muito terrível.

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