Por que o crédito no Brasil tem taxas de juros exorbitantes? Por que a ciência brasileira está longe de seguir o caminho dos tigres asiáticos? Por que o governo funciona tão mal? Por que o Congresso tem um grupo, o centrão, que manda e desmanda no país?
A resposta pode estar em semelhanças comuns a todos os presidentes brasileiros. Você foi habituado a enxergar as diferenças entre eles. Neste vídeo você vai ver mais quatro semelhanças. Vai ver que essas semelhanças foram cruciais para este país permanecer estacionado onde está há mais de 30 anos.
CRÉDITO
Vamos começar pela questão do crédito. Nenhum país vai adiante sem que as pessoas tenham acesso a crédito em condições razoáveis. Esse problema é um dos mais importantes a travar o desenvolvimento do país.
O juro do cartão de crédito está em 400% ao ano. Isso significa que uma dívida não paga de 100 reais crescerá para 500 reais em um ano. Um absurdo. Acompanhe comigo que eu vou te mostrar onde conferir a taxa mensal e anual de cada banco no site do Banco Central, muito embora não adiante nada fazer isso.
As pessoas não têm noção do tamanho da exploração a que são submetidas, nem também que exploração deste tamanho só existe aqui no Brasil. Antigamente, cobrar juro exorbitante era considerado crime, crime de usura. Hoje em dia, só é crime se for praticado por quem não está autorizado, ou seja, só os bancos estão autorizados por lei a te explorar. A lei não permite a concorrência de quem não pertence ao clube dos companheiros banqueiros. Quem não for instituição financeira não pode fazer essas coisas que eles fazem, senão pode acabar preso.
Os banqueiros são os mais poderosos de todos os oligarcas. É impressionante o tamanho de seus lucros crescentes, sempre crescentes, algo que não encontra paralelo em lugar nenhum do mundo. Segundo artigo do especialista Walter Maierovitch que li em algum lugar, acho que na revista Carta Capital, aqui eles cobram taxas bem superiores às que a máfia italiana consegue cobrar.
O atual presidente do Banco Central, Campos Neto, tentou fazer alguma coisa. Ele quis impor limites nessas taxas abusivas. Sabe o que aconteceu? Os bancos chegaram para ele e disseram o seguinte:
– Ô garoto, você está insistindo em mexer com uma coisa que não é para mexer. Fica na sua, senão sua batata vai assar. Para não dizer que somos intransigentes, vamos ser bonzinhos contigo. Vamos dar uma saída honrosa para você sair bem dessas suas declarações públicas de que pretendia limitar os juros que nós cobramos do povo. Vamos fazer uma concessão. Aceitamos limitar a taxa de juros, mas não para o cartão, apenas para o cheque especial, mesmo assim vamos cobrar 8% AO MÊS. É pegar ou largar.
– Mas ninguém usa mais cheque especial. E 8% ao mês dá 150% ao ano. É coisa pra caramba. Nenhum país cobra isso.
– Ô garoto, nós já falamos: é pegar ou largar. O assunto está encerrado. Nós já fomos bonzinhos demais com você.
E o garoto aceitou e não tocou mais no assunto.
Nas campanhas políticas você vê político defendendo as mulheres, os gays, os negros, mas não vê nenhum deles defendendo os endividados, defendendo cessar a exploração do povo pelos oligarcas dos bancos. Reparou isso?
Vamos ver agora quais foram os reis brasileiros que fizeram algo para conter a exploração do povo pelos bancos.
CIÊNCIA
O progresso de potências orientais, como China, Japão e Coréia, foi baseado na ciência, caminho que antes foi trilhado pela Europa e América do Norte. Ninguém tem dúvida de que a ciência é o caminho.
Já países que são exportadores de minérios, petróleo/gás e agronegócio estão todos estacionados há décadas. Brasil, Austrália e Rússia são assim. Os três países estão com PIB estacionado no mesmo patamar de US$ 1,6 trilhão. Não saem do lugar. Veja o gráfico do Banco Mundial comparando o PIB destes 3 países com o da China.
Repare outra diferença. Potências industriais como a China e a Alemanha tinham engenheiros químicos no poder. Xi-Jinping é engenheiro químico, assim como Ângela Merkel que ficou 16 anos no poder e era especialista em química quântica. No seu lugar ficou um advogado, Olaf Sholz, mas o sujeito é tão prático que seu apelido é “Scholzomat”, uma brincadeira com seu nome Sholz e a palavra “automat” para dizer que ele está mais próximo de ser uma máquina do que de um ser humano. País industrial bota homem-máquina no poder, não bota mandrião.
O Brasil nunca teve cientista no poder. Os reis brasileiros, todos eles, são políticos profissionais. No atual Congresso, com quase 600 parlamentares, não há nenhum cientista.
Nossas universidades, não há nenhuma entre as 200 melhores no mundo. Aqui tem eleição para reitor. Um absurdo. Na universidade de Brasília, capital federal, até funcionário vota. Levaram a politicagem de baixo nível para as universidades federais. Por conta dessas coisas o Brasil não tem prêmio Nobel, enquanto a Argentina tem cinco. Nossos melhores cérebros vão para fora e não voltam. Não encontram oportunidades no Brasil, mesmo para ganhar menos.
Vamos ver quais foram os reis brasileiros que fizeram algo de bom pela ciência:
MÁQUINA PÚBLICA
Em 2011, publiquei um artigo em OGLOBO cujo título era “É preciso estatizar o governo”. A máquina pública parecia dominada por interesses privados após décadas de corrupção. Por conta disso o tamanho dos escândalos assumiu proporções monumentais, viraram rotina e ninguém fazia nada. Eu estava horrorizado com tanta nomeação de malas sem alça para cargos que deveriam ser ocupados por técnicos competentes. No serviço público, esses técnicos foram escanteados. Deram fim na meritocracia. Ó, escrevi esse artigo 3 anos antes da Lava-Jato.
Todos os presidentes encontraram esta realidade de esfacelamento da máquina pública. Nos ministérios não há ninguém pensando em como resolver os problemas do país. Não há planos esperando vontade política para serem implementados. Não há nem mesmo dados, nem informações confiáveis para elaborar algum plano. Não há quem esteja preparado em posição para fazer. A máquina ficou completamente emperrada, como ainda está até hoje.
Não conseguiram impedir nem mesmo a invasão dos prédios principais dos três poderes ontem. Uma invasão que estava anunciada, que todos aqui sabiam que podia acontecer.
Vamos ver quais foram os reis brasileiros que, depois de assumir o poder, se espantaram com essa realidade de máquina pública inoperante.
CONGRESSO
Todo país tem um bloco maior ou menor que reúne políticos que gostam de ser bem tratados, de obter favores, cargos, agrados. No Brasil, o grupo é conhecido como centrão.
Vamos ver quais foram os reis brasileiros que peitaram o centrão.
CONCLUSÃO
Esse avião chamado Brasil não vai decolar, não vai sair do chão, enquanto seu piloto for um rei adepto do modelo russo, do compadrio, de agradar a todos, especialmente aos poderosos. O crédito não vai ficar barato, enquanto o rei for amiguinho dos companheiros oligarcas banqueiros. A máquina pública vai seguir emperrada, enquanto ele continuar nomeando companheiros ao invés de técnicos competentes. A ciência é a mesma coisa, universidade não é lugar de fazer politicagem, é lugar de fazer ciência.
Quanto ao Congresso, trabalhei ali um bom tempo. Percebi que ali dentro há um respeito muito grande por quem está tentando fazer o que é certo. Até os inimigos respeitam. É uma lenda essa crença na necessidade de fazer o toma-lá-dá-cá, como entregar ministérios com a porteira fechada.
O Brasil está quebrado não só em suas finanças, mas também no aspecto moral. Precisa de mudanças profundas com urgência. Não pode esperar mais. Precisa de um rei que reúna os requisitos para conduzir essas mudanças.
Eu fico aqui pensando, preocupado, me perguntando o que pode acontecer se o eleito não for capaz de dar conta? Será que quando a coisa apertar, o abismo estiver mais próximo, os oligarcas e o Congresso vão se entender para empossar um novo rei para evitar o desastre? Ou será que o povo é que vai fazer isso?
Já imitamos os americanos. Agora que o povo viu que é fácil invadir e quebrar tudo… De repente, vamos imitar os franceses. Eles fizeram a queda da Bastilha. De repente, aqui vai ter a queda de Brasília.