Marcus Raichle – A energia escura do cérebro e a rede de modo padrão

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Não bastasse o fato de a ciência estar engatinhando sobre como funciona o cérebro humano, as descobertas do século XXI surpreendem os cientistas, acrescentando mais mistérios. Quanto mais se sabe, mais há para saber. A estrada do conhecimento estica à medida em que é percorrida.

O problema dos neurocientistas não são os cem bilhões de neurônios do cérebro humano, o problema é um neurônio. Pouco se sabe sobre o funcionamento de um único neurônio. Por conta disso os neurocientistas passaram a imitar os físicos e começaram a falar em energia escura. Os físicos usam a palavra escura, matéria escura, energia escura, quando estão diante de algo que gera efeitos no universo, mas eles não sabem o que é.

Um dos cientistas que se destacou nas pesquisas sobre o cérebro foi o neurologista americano Marcus E. Raichle (Hoquiam, 15 de março de 1937), que se dedica há 40 anos a investigar o cérebro usando exames de tomografia por emissão de pósitrons, conhecida como PET, e imagens obtidas em exames de ressonância magnética. Vamos conhecê-lo um pouquinho.

Em 2014, recebeu o Prêmio Kavli de Neurociência com dois colegas (Brenda Milner e John O’Keefe). Ele é da Faculdade de Medicina da Universidade Washington em St. Louis, Missouri, Estados Unidos.

O que ele descobriu? O trabalho de Marcus Raichle contribuiu para dimensionar melhor o que não sabemos. Dimensionar os números que vou citar agora sobre os mistérios da mente que os cientistas estão tentando desvendar:

  • Consumo de Energia – Por que o cérebro precisa de tanta energia para se manter funcionando quando está parado? Por que o órgão consome 20% do oxigênio, tendo apenas 2% do peso do corpo humano;
  • Desperdício de Energia – Por que, quando o cérebro está parado, distraído, adormecido ou até anestesiado, seu consumo de energia é 20 vezes maior do que quando está concentrado fazendo algo ou respondendo a estímulos externos? (Scientific American 95, abril de 2010, artigo de Marcus Raichle);
  • Energia Escura – Por que o cérebro não descansa? Por que gasta de 60 a 80% de sua energia em circuitos não relacionados a nenhum tipo de estímulo externo? (Scientific American 95, abril de 2010, artigo de Marcus Raichle, pág. 25);
  • Meditação – Por que esvaziar o cérebro por meio da meditação reduz seu consumo de energia?

O trabalho de pesquisa de Marcus Raichle contribuiu para dimensionar essas coisas, além de ter popularizado o uso de expressões como a “rede do modo padrão” e “energia escura do cérebro” em dois importantes estudos publicados:

  1. Em 2001, ele publicou “Modo Padrão da Função Cerebral”, um importante artigo comparando o que acontece no cérebro quando ativo e quando em repouso, que popularizou a terminologia Default Mode Network (DMN), ou Rede do Modo Padrão, em português;
  2. Em 2006, ele publicou “Neurociência – A energia escura do cérebro”, que popularizou o uso da expressão energia escura do cérebro.

Marcus Raichle confirmou as suspeitas de cem anos atrás de seu colega neurologista, o alemão Hans Berger, o inventor do eletroencefalograma. Trabalhando sozinho, Hans Berger foi o primeiro a perceber essas coisas, que o cérebro gastava mais energia parado do que concentrado em algum estímulo externo. De certa forma, ele descobriu o que hoje é conhecido como a Rede de Modo Padrão.

Fiz um vídeo contando toda a interessante história das descobertas de Hans Berger feitas com tecnologia que ele teve que criar, o eletroencefalograma foi ele quem inventou. Por esta invenção, a Academia Sueca queria lhe dar um Nobel, o que acabou não ocorrendo, veja o vídeo para saber por quê.

Embora não seja viajante da maionese, Marcus Raichle, quando mais jovem, fazia o possível para parecer que era um. Ele gostava de alpinismo. Nos anos 80, enquanto escalava as geladas montanhas Karakoram no Paquistão, ele aproveitava para trabalhar, para investigar o que acontecia no cérebro a mais de 5 mil metros de altura. Fazia isso injetando xenônio radioativo em si mesmo e na equipe de pesquisadores que o acompanhava.

Em 2010, o conjunto da obra de Marcus Raichle foi parar na Scientific American, em matéria de meia dúzia de páginas, sob o título “A energia escura do cérebro – As regiões cerebrais ativas quando nossas mentes vagueiam podem ser a chave para entender os distúrbios neurológicos e até a própria consciência.”

Ao ler este artigo, minha curiosidade vagueou para o futuro, entrando na rede de modo padrão. A pergunta que fiz foi a seguinte: – Será que um dia, a ciência vai conseguir comprovar a minha teoria sobre o que faz o cérebro humano na maior parte do seu tempo livre? O que ele faz? Desperdiça sua energia viajando na maionese arrumando explicação para tudo, em busca de mais certezas para acreditar.

Será que um dia vai surgir a cura para a necessidade humana de aumentar a quantidade de certezas que o cérebro gosta de se impregnar viajando na maionese? Um hábito terrível que faz parte da natureza humana.

Desde então, venho acompanhando as pesquisas, as teorias que surgem para fazer frente aos mistérios da mente humana. Parte delas é baseada em mera especulação, talvez a maior parte. Outra parte descobre indícios de algo.  Algo que precisa de confirmação por mais pesquisas, como é o caso deste estudo de 2021, sugerindo para onde vai o excesso de energia do cérebro: ele vazaria, como se fosse um cano furado.

O estudo de 2021 publicado na ScienceAdvances encontrou indícios de para onde vai tanta energia consumida pelo cérebro durante o modo da rede padrão: ela vaza, se perde. No entanto, a pesquisa concluiu que mais pesquisas são necessárias para descobrir como diferentes tipos de neurônios podem ser afetados, porque nem todos os tipos de neurônios respondem da mesma maneira. Ou seja, nada de conclusivo.

Não devo deixar de mencionar que pesquisas de 2015 e 2022 constataram que a meditação consegue reduzir a atividade do cérebro no modo padrão. Sabe como? Pensando em nada. Interrompendo a natureza humana de viajar na maionese para aumentar suas certezas. Neste estado, a desativação da rede de modo padrão, pode gerar o sentimento de dissolução do ego e fusão com o universo, associados a um profundo bem estar, descrito por monges e meditadores experientes. Porém… ninguém suspeita o motivo pelo qual meditação produz esse efeito. Eu sei. A meditação interrompe as viagens na maionese.

O fato é que, depois de 12 anos do artigo de Marcus Raichle na Scientific American, a energia escura do cérebro continua escura do mesmo jeito.

Mas, talvez, sem querer, a revista brasileira Superinteressante de 2017, tenha publicado um artigo contendo a resposta. O artigo fala da rede de modo padrão. Tem como título “Como funciona o ‘piloto automático’ do cérebro”. Vou ler um pouquinho desta matéria assinada por Bruno Vaiano:

– Quem volta do trabalho há anos pelo mesmo caminho tem a sensação de simplesmente surgir em casa. Exemplos assim existem aos montes, e ilustram bem nosso “piloto automático” – a capacidade que o cérebro tem de realizar tarefas mecânicas repetitivas sem prestar atenção nelas.

Ao descrever outro tipo de automatismo, Bruno Vaiano escreveu algo que pode ter sido um insight com a resposta para o mistério de o que o cérebro faz parado, quando está desperdiçando energia.

– Acontece sempre: eu subo no ônibus, abro a bolsa, tiro a carteira, passo o cartão magnético no validador, giro a catraca, guardo o cartão e sento. Alguns minutos depois, sem explicação, eu me assusto. Onde está o cartão? Será que eu guardei ele? Será que caiu no chão? Abro tudo de novo e, para minha surpresa, o cartão está lá, são e salvo. Mesmo que eu não me lembre de nada. De alguma maneira, enquanto eu VIAJAVA NA MAIONESE pensando no final de semana, meu cérebro passou pela catraca sozinho, sem que eu precisasse me dedicar conscientemente à tarefa.

Olha que interessante, muito interessante, superinteressante. Acho que sem querer, a revista apresentou a resposta que os cientistas estão procurando: o que o cérebro faz quando está na rede do modo padrão? Ora, ora, é claro, o cérebro está viajando na maionese, inventando explicação para tudo, criando regras gerais, aumentando suas certezas. O mal do homem é esse monte de certezas que ele aprecia acumular e carregar pela vida, boa parte delas nem ele mesmo sabe de onde vieram.

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