Não pretendia falar mal da Fiocruz porque é uma instituição que consegue arrancar dados do governo para divulgar no seu boletim quinzenal sobre coronavírus. Mas não vai dar para perdoar, porque desta vez passaram dos limites. O boletim é tão ruim que induziu o principal jornal da capital federal a divulgar informação errada. O Correio Braziliense disse no domingo passado que as mortes e internações de idosos estão em alta, quando na verdade estão desabando.
A matéria do correio foi escrita por estagiários de jornalismo sob supervisão. Eles se basearam no tal Boletim Covid da Fiocruz, que também deve ter sido escrito por estagiários, só que sem supervisão.
O jornal usou os números da Fiocruz para montar seu próprio gráfico dos idosos acima de 60 anos, mostrando alta gradativa de maio a julho no percentual relativo de internações de 27% para 44%, enquanto, as mortes de idosos subiram de 44% para 69% (o normal apurado em 2019 foi de 76%).
Aqui no Canal, há um mês atrás, eu divulguei dados deste mesmo boletim da Fiocruz, que me foram úteis para mostrar que vacina funciona. Mas havia indícios de reversão nas 3 últimas semanas. O boletim atual mostra que a reversão prosseguiu nas quatro semanas seguintes, aumentando gradativamente o percentual de idosos internados e mortos.
Eu fui cauteloso ao evitar conclusões sobre essa reversão, que não era o assunto principal do meu vídeo. Escrevi o seguinte: “Não vou viajar na maionese arriscando uma explicação, algo que deveria vir de pesquisa.” Como macaco velho em análise de dados, não comento números relativos sem ver os valores absolutos. Os números sugeriam perda de eficácia da vacina, mas agora se sabe que não é nada disso.
O que aconteceu foi simplesmente efeito da vacinação nos mais jovens. Inicialmente, os percentuais relativos caíram primeiro nos idosos porque foram vacinados primeiro. À medida em que jovens também foram sendo vacinados foi ocorrendo uma natural reversão dos percentuais.
Vou mostrar agora a confusão mental que está escrita no boletim da Fiocruz.
A análise dos números começa com uma afirmação correta sobre a queda no número absoluto: “O declínio no número de internações e óbitos é notável e ocorre em todas as faixas etárias (figura 1)”.
O gráfico desta figura 1 mostra que as hospitalizações caíram de 60 mil em março para 5 mil, abrangendo quedas expressivas em todas as faixas etárias.
Logo a seguir, eu disse logo a seguir, o boletim afirma o contrário e lança dúvidas sobre seus próprios números: “Embora haja estimativas que sugiram o aumento recente em números absolutos das internações de população idosa, ainda há incerteza sobre esta hipótese.”
Que coisa! O Boletim joga no ar a existência de supostas estimativas sem dizer quem foi o autor destas estimativas, nem sua origem. Prossegue com uma redação confusa falando que “os idosos voltam a se destacar de forma proporcional”. Isso induziu os estagiários do Correio a acreditar que internações de idosos estavam aumentando, quando a figura 1 mostra o contrário.
O boletim tem gráficos muito estranhos. Tem um com cores fortes, que não consigo entender para que serve ou o que mostra. Deve ter sido escolhido por alguém que gosta de arte, um apreciador de arte.
Porém, a causa maior dessas falhas está na falta de transparência do governo federal, que restringe o acesso aos números dos sistemas que administra e que recebem dados de todo o país sobre vacinação, mortalidade e hospitalização. Eles impedem que analistas de dados descubram e divulguem a situação do coronavírus. A Fiocruz consegue acesso a esses dados. Eu não.
O site do Ministério da Saúde é uma vergonha. Para ser chamado de ruim, teria que evoluir muito. É um verdadeiro depósito de lixo.
O que me espanta é o descaso dos infectologistas com o descaso do Ministério da Saúde. Há grande número de infectologistas desfilando na televisão e nenhum deles reclama desse descaso com os dados. Por essas e outras é que digo que esse povo da área de saúde é ruim de número.
Para ser totalmente honesto, é preciso registrar que o descaso não ocorre só no site do Ministério da Saúde, mas em todos os demais ministérios. O atual governo militar conseguiu piorar o que já era muito ruim. Sinceramente, quando esse governo militar começou, eu não esperava que os militares fossem tão incompetentes.

