Selic subiu, despesa com juros caiu? Só no Brasil que ainda não faliu.
Metade da dívida pública está atrelada à taxa Selic. Por conta disso, a despesa com juros da dívida pública é muito influenciada pela Selic, taxa que o Banco Central resolveu elevar. Em 2024, estava em 11% em média, neste primeiro semestre de 2025 subiu para 15%. Assim sendo, Selic sobe, despesa com juros deveria subir. Porém…
Fui conferir os dados que estão disponíveis no site do Tesouro Nacional. Todo mês eles atualizam, sai uma tabela nova. Decidi apresentar dados semestrais porque fica mais fácil de visualizar o que pretendo mostrar. O gráfico mostra a despesa com juros a cada semestre. Como é que caiu neste primeiro semestre de 2025?
Vou incluir no gráfico a Selic média. Repare que a Selic média subiu de 11% em 2024, para uma média de 13,8% no primeiro semestre de 2025. A dívida também vem subindo. Observe a trajetória. Saiu de 6 trilhões há dois anos e está rondando os 8 trilhões, aliás já passou disso em agosto. Como é que a despesa com juros caiu?
Eu sei que o que você está fazendo neste momento. Está criando viagens na maionese para explicar este fenômeno.
– Ah, o número está errado, o que mais tem no Brasil é número errado.
– Ah, o governo está escondendo do povo o tamanho do Bolsa Rico, já que esses juros vão parar no bolso dos ricos. Eu assisti os últimos vídeos deste canal mostrando que esses juros atingiram 40% da Receita de Impostos em 2024. Vai ser mais que isso em 2025. E em 2026, ano eleitoral? Imagina se o povo descobre que o Bolsa Rico caminha para consumir quase a metade dos impostos no ano que vem, ano eleitoral?
Veja bem, é o Tesouro Nacional que divulga esses dados, porém na nota de rodapé da despesa com juros, a nota 7, dá para ver que o Tesouro informa que a fonte destes números é o Banco Central. Ou seja, o Tesouro é quem emite os títulos e paga os juros, mas quem sabe o total da despesa é o Banco Central.
Não há um detalhamento do número nesta nota 7, nem uma explicação para entender por que a despesa caiu. Informação é poder. Esconder costuma ser a regra no serviço público.
Teve um ministro da fazenda que caiu porque confessou isso diante das câmeras. Foi o “escândalo da parabólica”. Ele acreditava que as câmeras estavam desligadas, quando ele conversava com o repórter Carlos Monforte da Rede Globo, que era seu cunhado. O que ele disse: “Eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”.
Olha, aqui neste canal eu só divulgo fatos. Não tenho a menor ideia do motivo pelo qual esse número caiu ao invés de subir. Não sei a explicação, mas o inexplicável, o assustador é que nenhum jornal divulgou isso.
Já vi notícia de um colunista cogitando que os juros da dívida podem passar de 1 trilhão de reais este ano, que isso vai produzir recorde mundial de déficit fiscal em relação ao PIB, mas não vi nenhuma notícia dizendo que a despesa com juros representa mais de 40% da receita de impostos.
Outra coisa que notei é que os números mudam a cada mês. Ééééééé. Vou mostrar agora um comparativo entre os números do arquivo de julho de 2025 com os mesmos números divulgados em agosto de 2025.
O passado muda, mas as diferenças nos números não são suficientes para alterar o quadro. O mistério da queda da despesa permanece. Já o mistério dos números mutantes, não é algo que surpreenda os especialistas.
Quando eu aportei em Brasília em 1992, o Banco Central era presidido por Gustavo Loyola. Sabe o que ele costumava dizer: “No Brasil, até o passado é incerto.” De lá para cá, essa frase vem sendo repetida pelos demais presidentes do Banco Central, nenhum deles fez alguma coisa para consertar isso, para melhorar a transparência.
Apesar dos pesares eu já me dou por satisfeito de o Tesouro Nacional divulgar informações relevantes sobre as contas públicas. Isso contribui para reduzir as incertezas, alinhar as expectativas, coisas importantes quando se pretende combater inflação.