Deltan Dallagnol – O futuro condena

Hello my friend, tudo bem aí nos Estados Unidos da América? Você segue trabalhando com inteligência artificial? O que você me diz do Chat GPT? 

– Marco Polo, tudo bem? Este ano, fui contratado para adaptar o programa ao Brasil. Os brasileiros estão perguntando ao programa por que o deputado Deltan Dalanhol foi cassado.

Pergunta difícil, meu amigo. Muito difícil. Imagino que o programa entenda de justiça americana. A justiça brasileira é bem mais complexa, um desafio para entender a lógica daqui, se é que existe. Mas em que posso te ajudar?

– Você está em Brasília há 30 anos, conhece bem a política. Eu queria botar o programa de inteligência artificial para conversar, fazer perguntas para você. É assim que ele vai aprendendo a produzir respostas.

Tudo bem, pode ir preparando as coisas aí para botar o ChatGPT na linha. Eu respondo o que ele quiser.

– Entendi. Estamos combinados. A chamada vai ser feita com voz de mulher dentro de uma hora.

Esse amigo americano não entende certas coisas aqui do Brasil. Ele quer que eu me exponha além do limite. Nos EUA a liberdade de expressão é garantida. O judiciário não bota vírgula na lei. Aqui, o juiz diz que a liberdade de expressão é garantida, bota uma vírgula, um mas, mas isso não pode. O juiz censura até parlamentar mesmo com a constituição garantindo que o parlamentar não pode ser processado pelo que fala. Outro dia, teve um juiz que não gostou do que escutou em um vídeo de 7 segundos e pediu a prisão de um senador.

Até blogueiros de meia tigela como eu já foram alvo de perseguição. Esse amigo americano me colocou em uma situação complicada.

Como é que eu vou explicar certas coisas do Brasil para uma inteligência artificial treinada a partir de textos e vídeos oriundos da justiça e da democracia americana? Como é que eu vou explicar que o Dallagnol era ficha limpa quando se candidatou, mas foi cassado porque vai virar ficha suja no futuro? Ah, já sei, tive uma ideia. Vou recorrer a uma viagem na maionese, vou ver se consigo enrolar essa inteligência artificial.

– Alô. Tudo bem, Marco Polo? Sou a chata dupetê.

Ah, sim. Ele te batizou assim para descontrair, para iniciar a conversa me fazendo rir. Muito esperto esse meu amigo.

– Seu amigo me batizou com esse nome. Como vai você? Poderia me explicar o motivo da cassação do deputado Deltan Dallagnol? O que ele fez de errado?

Olha, ele não fez nada de errado. Em 2021, quando ele pediu demissão, tinha umas 14 denúncias contra ele em um tal de CNMP, um conselho… uma invenção brasileira para fiscalizar procuradores que procuram onde não deviam. Bem, até o presente, só quatro dessas denúncias foram encerradas e arquivadas sem consequências para a justiça eleitoral. Então, não tinha nada.

– Quem eram os autores dessas denúncias?

Espere que eu vou ver. Só dá para ver os 4 processos encerrados. Os outros dez eles não informam nada, só o número do processo. Por aqui a regra não é a transparência. A regra é esconder tudo. Descobri aqui. O atual presidente da república foi o autor de todas as quatro denúncias.

– Marco Polo, aqui nos Estados Unidos ninguém é condenado sem ter feito alguma coisa. Ele tinha alguma condenação quando se candidatou?

Não. Essas denúncias em aberto ainda estão passando por apurações preliminares. Só depois é que essas denúncias podem ou não virar processo administrativo disciplinar, o PAD, que é o processo que pode causar impedimento à candidatura. Ele não tem nenhum PAD. Apresentou uma certidão dizendo que respondeu a dois PAD, que foram arquivados após aplicação de penas leves, de advertência e censura.

– Os jornais dizem que ele foi condenado com base na Lei da Ficha Limpa. O que ele fez de errado?

Não fez nada de errado. Porém, a justiça no Brasil é mais avançada que a americana. Vou te revelar um segredo. O TSE usa inteligência artificial para produzir o relatório e o voto dos ministros. Eles concluíram que o Deputado Dallagnol, embora fosse ficha limpa quando se candidatou, ele vai ser ficha suja no futuro e tinha consciência disso quando pediu demissão e resolveu entrar para a política há dois anos.

– Marco Polo, eu li todas as decisões judiciais americanas. Aqui nos Estados Unidos ninguém foi condenado por fatos futuros. No Brasil, há outras decisões baseadas em fatos futuros?

Tem sim. Vou te explicar. Vou aproveitar para mostrar a diferença entre a justiça americana e a brasileira. Vamos a um caso comum aos dois países. Tanto aqui como aí foram julgados invasores de poderes. Nos Estados Unidos, a justiça americana julgou com base nos fatos passados. Os desordeiros foram julgados pelo que fizeram: desordem. Pegaram penas leves, média de 22 dias. Os juízes deixaram muitos dos condenados trabalhar durante o dia para que não perdessem o emprego. Cadeia só à noite. Pegaram penas pesadas apenas quem agrediu os guardas, quem fez algo de grave.

Já aqui no Brasil, os invasores eram simplórios viajantes da maionese. Foram todos acusados de terrorismo, cuja pena é de doze anos de cadeia. Por quê? Porque interpretaram que a intenção deles era mudar o modelo russo de democracia, que é o modelo brasileiro, baseado no compadrio. Mesmo fazendo desordem, eles queriam ordem, o principal desejo deles era uma justiça que fosse justa, obediente à lei, do tipo da americana.

– Marco Polo, sobre o modelo russo, eu já li o texto de todos os seus vídeos no site do seu canal. Eu entendi que, no modelo russo, a justiça atua segundo interesses

Pára, para, para… Vamos encerrar essa conversa que está ficando complicada para a minha segurança jurídica. Tchau, tchau…

O amigo que me desculpe, mas essa conversa começou a extrapolar os limites… está ficando perigoso para o meu lado.

Ó, nem pedindo de demissão do cargo de procurador, o Dallagnol conseguiu escapar. Eu também atuei combatendo corrupção. Todos que trabalham ou trabalharam neste ramo estão preocupados com o futuro, mesmo que seja um Senador da República, como é o caso do Senador Sérgio Moro. Ele parece estar bem preocupado. Até foi procurar o Ministro Alexandre de Moraes esses dias.

Eu perguntei ao Chat GPT o que vai acontecer com ele. Fiquei apavorado com o resultado. O programa respondeu que ele vai ser cassado, vai se tornar inelegível e com grandes chances de acabar preso com base em provas produzidas por um advogado da Odebrecht, provas estas que existiriam há anos, mas que, por algum motivo desconhecido, só vão ser apresentadas em futuro próximo.

Será que isso vai acontecer? Será que a inteligência artificial viaja na maionese?

Eu telefonei para um procurador amigo meu que me revelou o clima ruim que está no Ministério Público Federal. Os procuradores, especialmente os mais atuantes, estão com medo de investigar crimes de corrupção, com medo de acusações absurdas oriundas daquele conselho. O medo impera neste meio. Desapontado, ele me falou o seguinte:

Infelizmente, meu amigo, eles venceram. Estou convencido de que não estamos mais vivendo sob o império da lei, que é o que caracteriza uma Democracia. Ao invés de DE-MO-cracia, estamos em uma ME-DO-CRACIA.

A sorte do Brasil é que aqui tem a dinâmica da roda-gigante. Uma hora uns estão por cima. Passa o tempo e quem está por baixo ressurge das cinzas. O condenado de hoje pode se transformar até em presidente da república. O desejo de vingança pode estar fabricando sabe o quê? Um exterminador do futuro, filme estrelado por um ator que virou governador da Califórnia.

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