Mundo Quântico – A visão de John Wheeler sobre o problema mente x matéria

Os anos 30 foram os anos de ouro da física quântica, quando as principais descobertas estavam descortinando uma nova realidade, mesmo sem dispor de nenhuma tecnologia que chegasse aos pés da atual. Houve um grande físico deste tempo que viveu quase 100 anos, conseguiu chegar ao século XXI e acompanhar toda a revolução tecnológica dos aceleradores de partículas. Eu fico aqui imaginando como será que ele viu tudo isso?

O físico americano John Wheeler, nascido na Flórida em 1911, é considerado um gigante da física quântica, equiparado a seu mestre Niels Bohr e a Albert Einstein.

John Wheeler viveu muito tempo. Morreu em 2008 aos 96 anos. Na ocasião de sua morte, o The New York Times procurou Max Tegmark, cosmólogo do Emaiti (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). O que ele disse sobre Wheeler? “Para mim, ele era o último Titã, o único super-herói da física ainda de pé”.

Segundo um livro do físico Michio Kaku, aquele que tem 3 programas no Canal Discovery, nenhum homem lutou mais com os absurdos e sucessos da teoria quântica do que John Wheeler.

Como professor, John Wheeler teve como aluno mais brilhante o físico Richard Feynman, prêmio Nobel de 1965. O que ele disse sobre seu mestre: John Wheeler foi o último dos gigantes ou mentes colossais (“Mundos Paralelos, Michio Kaku, pág. 149).

Foi John Wheeler quem cunhou o termo “buraco negro” em 1967, numa conferência na Nasa, depois da descoberta das primeiras estrelas de nêutrons, na época chamadas de pulsares. Ele atuou com Enrico Fermi na construção do primeiro reator nuclear. Atuou também no Projeto Manhattan da bomba atômica.

Quais são os mistérios com que ele se deparou?

– As partículas podem passar por duas fendas ao mesmo tempo;

– Podem voltar no tempo e refazer o caminho percorrido;

– Podem adivinhar a direção do spin de sua partícula gêmea localizada a 1000 km de distância;

– Podem saber previamente quais portas estarão abertas em um labirinto que percorrerão, mesmo que ninguém saiba.

Físicos montaram experiências cada vez mais sofisticadas, que parecem testar a “inteligência” das partículas em lidar com o tempo, com trajetórias, obstáculos, velocidades e posições no espaço. Chegaram a escrever livros com títulos como esse: “O Átomo Assombrado”.

As partículas triunfaram em todas essas tentativas, reagindo de formas que enlouqueceram os maiores nomes da ciência, debochando deles.

Esses fenômenos misteriosos eu mostrei em dois vídeos. O primeiro sobre a experiência da dupla fenda em que o comportamento das partículas muda, dependendo se estão ou não sendo observadas por seres conscientes. O segundo sobre o emaranhamento quântico, mostrando que todas as partículas no universo estão interligadas por uma realidade onipresente, quem sabe por algum tipo de consciência cósmica.

Em abril, prometi fazer um vídeo mostrando a visão dos físicos sobre esses mistérios. É este aqui. Aproveitei o mesmo vídeo para uma homenagem a John Wheeler, que tratou de todos esses mistérios de uma forma que impressionou a todos os que o conheceram.

A realidade quântica comprovada em inúmeras experiências evidencia a existência de uma misteriosa ligação da mente com a matéria. Isso vem intrigando os físicos, que tem dificuldade de aceitar a subordinação da realidade concreta à presença da mente consciente, ou algo assim, já que é muito complicado colocar o problema em termos científicos, no esquema objetivo com que a ciência trabalha, o que muitas vezes não é possível. Vou dar exemplos:

– Como definir a ligação do mundo micro, de partículas, com o mundo macro dos instrumentos de medição

– Como definir o colapso da função de onda de probabilidade, que produz o milagre instantâneo de transformar onda de informação em partícula?

– Como definir uma partícula saindo do mundo virtual e se cristalizando no mundo real, somente quando é observada? E mais.

– Como definir o que seja consciência apta a tomar conhecimento do resultado das medições?

Sobre isso, John Wheeler costumava dizer: “A questão é: Qual é a questão?” (Leonard Susskind, The Black Hole War (2008), capítulo 13).

O fato é que a física fracassa ao usar o método tradicional de aplicar o reducionismo, de analisar os menores componentes da matéria separados de tudo o mais. Não há como separar mente e matéria, nem tampouco definir a interligação entre ambas com o rigor requerido pela ciência tradicional. Perdidos, sem uma saída satisfatória para explicar a ligação mente – matéria, os físicos adotaram dois tipos de postura:

Os ortodoxos optaram por fugir da discussão; se a função de onda colapsa após uma medição ou se a partícula segue todas as trajetórias possíveis, ou se está interligada a outra a anos-luz de distância, isso é um problema da partícula, não dos físicos, cujo papel se limita a fazer previsões.

Os físicos heterodoxos decidiram bagunçar a discussão, viajando na maionese especulando com a existência de soluções fantásticas que o cinema adora. Criaram teorias fantásticas, abrangendo universos paralelos, bolhas cósmicas, cordas com dimensões indetectáveis, dimensões extras – que chegam a 11 em algumas teorias ou 26 em outras, enfim, teorias que o brilhante jornalista científico John Horgan chama de ciência irônica. Eu chamo de viagem na maionese.

Parte dessas teorias, não pode ser testada, muito menos comprovada, conforme admitem seus autores. A outra parte depende de uma evolução da ciência que pode demorar de séculos a milênios ou nunca acontecer.

Eu não estou desmerecendo essas teorias por causa disso. A natureza humana do físico é, e tem que ser, a natureza típica de um viajante da maionese, destes que sentem uma necessidade extraordinária de explicar tudo.

De John para John, John Wheeler confessou para John Horgan (“O Fim da Ciência”, pág. 109) que muitos cientistas como ele partilhavam a sua fé de que os humanos iriam encontrar o Santo Graal, a Teoria do Tudo. Einstein devotou sua vida a esse objetivo.

John Wheeler, depois de 70 anos trabalhando com os paradoxos da teoria quântica, quais as certezas que ele tinha? Nenhuma. Ele não era viajante da maionese. Ele se sentia tranquilo no meio das muitas dúvidas que foi acumulando. Por isso o considero um cara genial.

Ele não tinha dificuldade nenhuma em admitir que não tinha as respostas. Quando indagado sobre o problema da medida da mecânica quântica, ele disse:

– “Isto está me deixando maluco. Confesso que às vezes levo 100% a sério a ideia de que o mundo é uma fantasia da imaginação e, outras vezes, que o mundo existe lá fora, independente de nós.

  Entretanto, concordo sinceramente com as palavras de Leibniz: “Este mundo talvez seja um fantasma e a existência não passe de um sonho.” (“Mundos Paralelos”, Michio Kaku, pág. 168).

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