Subir juro segura inflação? O BC embarcou você na viagem na maionese mais cara do planeta

Na segunda-feira desta semana, o jornal inglês Financial Times publicou editorial falando do Brasil. Disse que, desde março, o Banco Central aumentou as taxas de juros em quase 6% para tentar segurar “o espectro da inflação de dois dígitos.” Jogou a culpa em Bolsonaro, que “venceu as eleições em grande parte porque os brasileiros acreditavam que ele seria um melhor administrador da economia do que a esquerda, cujos 13 anos no poder terminaram em uma grave crise econômica”. Concluiu afirmando que ele se mostrou “incapaz de administrar a economia ou a pandemia, e a maior nação da América Latina está pagando um preço alto.”

Subir juro abaixa inflação? As pessoas imaginam que os diretores do Banco Central têm alguma segurança do que estão fazendo. Será?

A lógica que eles aprenderam em faculdades de economia é a seguinte: o aumento dos juros encarece as compras a prazo, fazendo com que as pessoas reduzam essas compras, o que seguraria a inflação. Essa lógica não é aplicável no Brasil, por uma razão muito simples: o juro que o Banco Central está subindo não é aquele que afeta o cartão de crédito dos consumidores.

As taxas de juros que sobem são as que o governo paga pela dívida pública que está em R$ 5 trilhões. Veja bem, cada 1% a mais significa R$ 50 bilhões de aumento no gasto público. Segundo o Financial Times, já houve 6% de aumento. A consequência desta viagem na maionese poderá ser uma conta de R$ 300 bilhões por ano, que você vai ter que pagar. São 300 bilhões a menos no orçamento de um país em crise fiscal.

O que dizem economistas sobre isso? Achei artigos onde são expostas dúvidas e mais dúvidas, alguns dizem até que o resultado pode ser o contrário do esperado pelo Banco Central.

Em 1999, quando o Brasil começou a copiar do mundo civilizado essa brincadeira de metas de inflação, um economista que anos mais tarde presidiu o BNDES disse o seguinte:

“A funcionalidade da política de “inflation targeting” depende de condições muito especiais, em geral presentes nos países desenvolvidos (não em todos) … É óbvio que nenhuma das condições especiais, antes assinaladas, está presente no caso brasileiro. Ao contrário.”

Para encurtar, o que ele quis dizer é que essa política de juros é coisa de país desenvolvido, não serve para ser aplicada em país cucaracho.

Mesmo que servisse, trata-se de remédio usado para tratar uma gripezinha, não para um paciente entubado com coronavírus, como é o caso do Brasil. Aliás, todos os países desenvolvidos mantiveram suas taxas em zero.

Se a lógica de juro alto funcionasse, o Brasil não teria inflação. Os consumidores brasileiros pagam aos bancos taxas de juros incomparáveis com o restante do mundo de tão altas. São taxas bem maiores do que a máfia italiana consegue cobrar. Estes mafiosos italianos cobram em média entre 80% e 120% ao ano, enquanto os principais bancos daqui praticam taxas médias que atualmente estão entre 300 e 400% ao ano – uma atrocidade contra o povo que o Banco Central nunca fez nada para impedir.

Nesta matéria de sete meses atrás, quando começaram a subir os juros, o Globo consultou a opinião de especialistas de bancos privados, entre os quais um ex-Diretor do Banco Central, José Júlio Senna, e Solange Srour, economista-chefe do banco Credit Suisse. O que eles disseram é de estarrecer e vou resumir para você:

… a desordem das contas públicas faz com que a alta dos juros não tenha o efeito esperado – ou seja, a crise fiscal passa a dominar a política econômica do país. Nesse ciclo perverso, o aumento da Selic não tem o efeito esperado sobre o controle da inflação. Em vez disso, eleva o endividamento do país e afugenta os investidores, diante do medo de insolvência – o que provoca a desvalorização do real e, consequentemente, contribui para o aumento dos preços, num efeito oposto ao desejado.

O economista André Lara Resende, um dos arquitetos do Plano Real que deu fim na inflação em 1994, entende do assunto. Ele acha um absurdo subir os juros e acredita que não resolve o problema da inflação. Em matéria publicada no jornal Valor Econômico em 01/04/2021, sob o título “A quem interessa a alta dos juros?”, ele dá a entender que houve erro de diagnóstico em associar a causa da inflação à pressão de demanda:

“Toda a sustentação teórica do efeito deflacionário dos juros está baseada no impacto dos juros sobre a demanda e desta sobre os preços. Se não há qualquer sinal de pressão de demanda, se a alta da inflação decorre da alta dos preços internacionais de commodities e da valorização do dólar, como explicar a pressão sobre o Banco Central para subir os juros?”

André Lara Resende mostra-se estupefato com a decisão de subir juros, considerando a gravidade da situação do país e da pandemia que estava no auge quando escreveu o artigo. Ele faz as seguintes indagações:

“…como justificar juros mais altos quando o PIB caiu mais de 4% no ano passado, corre sério risco de ter uma nova queda neste ano e o país tem quase 15% de desemprego aberto? Qual a razão para elevar os juros quando a pandemia atinge o seu auge e provoca uma verdadeira catástrofe social? Como explicar a defesa do teto dos gastos para não aprovar uma generosa ajuda emergencial assim como os recursos necessários para controlar a crise sanitária?”

O fato incontestável é que a adoção dessa política de subir os juros da dívida pública implica em direcionar grande parte do orçamento público para o bolso dos mais ricos que são os donos de boa parte dos títulos da dívida pública. É inegável que a política é ótima para quem tem dinheiro aplicado.

É gente como Paulo Guedes que se dá bem quando os juros sobem. Você quer saber quantos são? Considerando rico quem ganha mais de 10 mil euros mensais, o Brasil tem cerca de 300 mil ricos, ou seja, 0,1% da população.

Uma decisão de alto risco como essa trará um sacrifício enorme para 99,9% da população e foi tomada por meia dúzia de pessoas, talvez menos.

O que eu tento mostrar aqui é que podemos estar diante da viagem na maionese mais cara do planeta, que você nem sabe que embarcou, nem desconfia para onde estão te levando neste cruzeiro comandado pelo capitão, em um navio chamado Selic. Aliás, já teve um navio com nome que terminava com ic…. Como é que era mesmo o nome dele?

Agradeço seu comentário, especialmente se acrescentar informações novas!