Nos tempos medievais, Marco Polo constatou que a China era mais adiantada do que a Europa, estagnada na idade média, considerada a idade das trevas. Então por que a China não deu o salto expansionista em direção ao domínio do mundo? Por que países se desenvolvem, enquanto outros ficam para trás?
Este tema é um dos maiores geradores de viagens na maionese. A mais corriqueira é a de que o comunismo não deu certo em lugar nenhum, o que automaticamente faz o cidadão ver com bons olhos o outro sistema que conhece, o capitalismo, de base individualista e egoísta. No entanto, a resposta pode estar na forma de organização das grandes corporações industriais, que os países atrasados não conseguem ter.
O salto dos países desenvolvidos só foi ocorrer no século XIX, depois de passar a prevalecer um formato de pessoa jurídica que favoreceu o crescimento explosivo das grandes corporações.
Antes, quando morria o dono de um negócio de maior porte, a empresa costumava morrer também na maior parte dos casos. A continuidade dependia de haver entendimento ao invés de briga entre os herdeiros, o que não acontecia com frequência. Mesmo havendo entendimento, o controle da sociedade era subdividido entre os herdeiros, que, com o tempo, tinham a tendência a fragmentar o negócio, criando suas próprias empresas individuais.
Outro fator que atrapalhava a continuidade era o choque do poder econômico com o poder político, dominado por monarquias, em que o rei tinha o mau hábito de interferir em tudo que lhe fizesse sombra, não raro tomando o negócio de seu dono.
Portanto, a continuidade no tempo de grandes corporações dependia da solução destes dois problemas: a transição entre gerações e o fim da interferência dos monarcas.
A substituição das monarquias por repúblicas foi um processo lento, que começou no século XVII e foi se consolidar no final do século XIX, justamente quando grandes corporações adquiriram uma característica até então pouco comum: a responsabilidade limitada dos sócios em caso de falência, presente em sociedades anônimas e companhias limitadas. Passou a prevalecer a separação entre a figura dos sócios e as empresas, que passaram a ser geridas por profissionais eleitos pelos sócios para esta função.
Houve resistência à regulamentação da responsabilidade limitada, justamente pelo fato da eliminação do vínculo entre a pessoa jurídica e a pessoa física dos sócios. Dizia-se que isso seria aceitar um sistema comunista, que poderia entrar em colapso, caso não fosse possível tomar o capital dos sócios para pagar as dívidas da sociedade para com os bancos e fornecedores.
A confiança prevaleceu sobre a desconfiança. A propriedade coletiva prevaleceu sobre a individual. A morte dos donos deixou de afetar a continuidade das grandes empresas, que encontraram no ambiente republicano a segurança contra os monarcas. Estes fatores deram origem ao grande salto que permitiu a dominação do mundo pelas grandes corporações dos países desenvolvidos.
A China medieval, mesmo mais adiantada na ciência e na educação, não deu esse passo em direção à modernidade, que só veio a ocorrer mais recentemente, quando as condições políticas permitiram mudanças inteligentes na forma de organização empresarial comunista – fator responsável pela enorme expansão na produção industrial chinesa, que somente ocorreu nos últimos 25 anos, multiplicando o PIB chinês em 7 vezes (era igual ao do Brasil em 1996).
A máxima de que “é o olho do dono que engorda o gado” pode ser aplicável a pequenos empreendimentos, mas não a grandes corporações. Nos EUA, são raras as que os donos possuem mais de 5% das ações ou cotas. Na verdade, as multinacionais são empresas administradas não pelos sócios, mas por profissionais contratados por eles, eleitos em assembleias anuais. São empresas que funcionam sem dono!
Claro que para viabilizar tais estruturas corporativas “comunistas” é necessário contar com outros avanços institucionais acessórios, dentre os quais o mais importante é o funcionamento de um sistema de justiça que puna o conluio entre os administradores para roubar a empresa e seus sócios.
O Brasil ainda não dispõe de um ambiente limpo de corrupção, dotado de segurança jurídica, prevalecendo um capitalismo jovem, em que a maior parte das grandes empresas ainda possui gestão familiar ao invés de profissional. O número de sociedades anônimas com ações na bolsa é pequeno, não chegando a 400, número que vem caindo nas últimas década. Não vou aprofundar na multiplicidade de erros que afundaram nosso mercado de capitais, mas um deles passa por um sistema judicial frágil, incapaz de servir de freio para os crimes de apropriação pelos controladores de dinheiro das empresas.
Ao contrário do que muitos viajantes da maionese acreditam, um olhar mais profundo sobre a questão dos países que prosperam possibilita constatar que a mudança de patamar depende muito da forma como estão estruturadas as unidades produtivas, as grandes empresas.
Individualismo e egoísmo estão em baixa na Bolsa de Valores. A prosperidade depende da substituição da gestão familiar pela profissional, do comportamento egoísta pelo cooperativo, da corrupção pela ética e de haver um sistema judicial que garanta um ambiente de negócios sadio. Enfim, o desenvolvimento requer os valores mais sagrados para os humanos: a solidariedade, a cooperação, a justiça e regras claras e estáveis – pouco importando se o país é comunista ou capitalista.