O modelo russo na política brasileira

O modelo russo está presente na economia do Brasil. Estaria na política também? O que você acha?

Fiz quatro vídeos apresentando sinais claros do modelo russo na economia brasileira, que nunca foi capitalista. Sempre seguiu o modelo russo, o modelo baseado no compadrio, um sistema de favorecimento em que ser amigo do rei é essencial para ter sucesso e, também, para não ser prejudicado em seus negócios.

No primeiro vídeo, comparei Brasil e Rússia para ver qual dos dois era o recordista mundial de corrupção.

Nesses dois casos é necessária          uma visão sistêmica mais ampla, onde o ataque ao Estado é no atacado, algo maior. Corrupção é só uma modalidade de lesar a população menos lesiva do que a prática de preços abusivos mediante monopólio ou cartel, coisa que, para ser viável, há necessidade de o rei fechar os olhos. O abuso depende da omissão do Estado. As pessoas não têm ideia do tamanho da espoliação por omissão do Estado.

O presidente da república pode se transformar em um super-rico sem fazer absolutamente nada. Basta ser omisso, não incomodar os oligopólios, deixando rolar os abusos, alguns deles parecem eternos. O brasileiro não sabe, mas ele paga um imposto privado na forma de um sobrepreço que não existiria se houvesse concorrência. Juros, preço do bujão de gás, dos combustíveis, o saco de cimento, a banda larga…

Você percebe a existência do modelo russo no Brasil nem tanto pelo que você vê, mas pelo que não vê. No Brasil, se quiser entender as coisas, você precisa prestar bastante atenção naquilo que você deveria ver, mas não vê.

Vou dar um exemplo. No Brasil, os grandes empresários que perdem negócios com o governo para seus concorrentes corruptos, o que fazem? Eles denunciam à imprensa, recorrem à justiça? Nenhum deles faz isso. Você não vê isso ocorrer.

Por que não fazem isso? Só no modelo capitalista é que existe isso de recorrer à imprensa ou à justiça. No modelo econômico russo as divergências entre grandes são resolvidas diretamente pelo rei – não há outro caminho. Mostrei isso em um vídeo contendo episódios do domínio da petroquímica no Brasil pelo Grupo Odebrecht.

Outra coisa que você não vê no Brasil é grande empresário expondo-se na imprensa, escrevendo artigo, queixando-se que a corrução está demais. Nos últimos dez anos, só vi dois deles fazendo isso. Um é o Flávio Rocha, dono das Lojas Riachuelo, que já foi deputado federal e que em 2018 chegou a se filiar a um partido para disputar a presidência da república, mas voltou atrás e caiu fora da disputa.

O outro nem brasileiro é. É chinês. Trata-se de Lawrence Pih, da Moinho Pacífico, que teve contratempos por aqui com o modelo russo e, decepcionado, vendeu seu império de moagem de trigo para uma multinacional em 2015, a Bunge. Seu pai veio da China para o Brasil em 1948, fugindo dos comunistas que tomaram suas empresas. O lugar mais longe da China que encontrou foi o Brasil, por isso ficou aqui. Seu filho Lawrence, que herdou o negócio, é uma pessoa admirável, foi o único grande empresário nacional que apoiou a oposição ao regime militar, ainda no final dos anos 1970. Ele sabe o que significa o modelo chinês e o russo. Saiu de cena com medo de ser prejudicado aqui no Brasil. Mudou-se para o Caribe.

Vamos mudar da economia para a política, para ver se a política brasileira também tem algo em comum com o modelo russo. Vamos atrás do que você não vê. Quais as perguntas certas a fazer para entender o modelo russo na política?

O importante são as perguntas, não é mesmo?  Vou fazer uma. O que você acha que é a ameaça mais grave à uma democracia?  Questão de múltipla escolha, vou te oferecer as seguintes opções para você dizer quem deve ser punido de forma exemplar:

a) Um grupo de WhatsApp em que alguns empresários cogitam fanfarronices, tais como fechar o Supremo Tribunal Federal;

b) Blogueiros de meia-tigela que ficam postando coisas parecidas, incomodando os seres supremos;

c) Um deputado federal fortão, com bíceps enormes, que usa seu direito constitucional, sua imunidade parlamentar por suas palavras para falar coisas que os seres supremos não gostam de ouvir;

d) Partidos políticos que usam o poder para enriquecer, cobrando taxa de suborno em contratos com o governo.

A Lava-Jato comprovou dinheiro de suborno sendo pago a partidos políticos. Apareceu até dinheiro do exterior, coisa que dá cancelamento de registro segundo a lei eleitoral.

Vejam que interessante o que “OAntagonista” publicou em 2016, quando o ex-ministro José Dirceu começou a cogitar um acordo de leniência para que o PT continuasse existindo. O ministro Alexandre de Moraes liquidou a proposta de José Dirceu:

– “Acho que é importante, por um lado, admitir as práticas ilícitas que acabaram ocorrendo, mas não é possível que um partido político, que recebe dinheiro público, financiamento público, faça uma leniência e continue existindo, porque a penalidade para a prática desses crimes que seriam confessados, a penalidade é a extinção [do partido]”.

A Lava-Jato chegou a botar na cadeia integrantes do quadro de dirigentes dos partidos, alguns confessaram. Quem mais confessou? Os próprios empresários que pagaram suborno com dinheiro oriundo de contratos com o governo. Os jornais publicaram os fatos à exaustão.

Em uma democracia, os partidos prejudicados, que não receberam suborno, o que deveriam ter feito? Claro que deveriam exigir punição dos seus concorrentes. Sua extinção. Mas…. Que eu saiba, só um fez isso em 2016, mas, a julgar por esta notícia, entrou sem muita convicção. Mais de 30 partidos… Por que a concorrência não se incomoda com quem usou o dinheiro público para ficar mais forte e ganhar condições de se perpetuar no poder? Por que será?

Advogado, eu posso dizer a resposta?  Não. Então vou fazer mais uma pergunta.

E os deputados e senadores desses partidos pegos pela Lava-Jato? Por que nenhum deles entrou na justiça contra seus colegas dirigentes? Afinal, se o parlamentar é honesto, não faz parte de quadrilha, sua imagem foi bastante prejudicada pela ação corrupta dos seus colegas dirigentes. Se decidiram não processar seus colegas, então é porque… advogado, eu posso dizer por que não processaram?  Não… Então tá. Vamos prosseguir.

Quem entrou para valer na justiça foram três juristas brasileiros, LAERCIO LAURELLI, MODESTO CARVALHOSA, LUIS CARLOS CREMA. Isso foi em 2017. Se você pesquisar no Google Laurelli Carvalhosa Crema vai encontrar algumas poucas notícias na imprensa sobre a entrada no TSE do Processo n. 0604166-27.2017.6.00.0000 pedindo a extinção dos principais partidos e demais envolvidos. Se essa ação tivesse tido sucesso, teriam sido extintos os partidos dos 4 candidatos mais bem colocados nas pesquisas da eleição deste ano.

Não encontrei nada nos grandes jornais sobre a decisão de arquivar o processo, decisão tomada por unanimidade no TSE. Só vi notícia em OANTAGONISTA. Por que será que algo tão importante não virou notícia? Seria o modelo russo em ação?

O motivo alegado pelo TSE para arquivar o caso é incompreensível para alguém que não tem supremo conhecimento de direito, como é o meu caso. Disseram algo como o seguinte: Se o dirigente elaborou esquema criminoso para captação de suborno, a conduta dele não pode ser atribuída ao partido.

Se um funcionário qualquer de uma empresa, não precisa ser diretor não, um simples funcionário causar prejuízo a consumidor, este consumidor pode responsabilizar a empresa. E o partido não pode ser punido quando seus dirigentes usam o acesso ao poder para roubar dinheiro público?

Bem, o meu advogado está fazendo sinal, mandando eu fechar a boca.

Quando falam algo que eles não gostam, não precisa nem ter processo. Eles dizem que é ameaça à democracia e caem de pau até em cima de blogueiros de meia tigela, como é o meu caso. Infelizmente, o modelo russo é assim. Aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei. Lawrence Pih entende isso muito bem, vendeu tudo e foi para o Caribe. Uma perda lamentável para este país que acolheu seu pai e permitiu que sua família progredisse aqui por 7 décadas.

Este post tem um comentário

  1. Nélio lacerda Wanderlei

    Gostei do novo cenário de backstage. Quanto a comparação com o modelo russo, concordo com suas perguntas. Entendo que essa situação decorre do estágio incipiente em nossa democracia. Com certeza iremos evoluir no rumo dos grandes democracias ocidentais nos próximos 100 anos

Agradeço seu comentário, especialmente se acrescentar informações novas!