Oligarcas na petroquímica – Como o Brasil trocou o modelo chinês pelo russo

Durante a ditadura, os militares decidiram criar o Polo Petroquímico de Camaçari para tornar o Brasil autossuficiente em plástico. Usaram um modelo parecido com o que a China viria a usar com sucesso 20 anos depois. Porém, quando acabou o regime militar, os civis que entraram trocaram o modelo pelo russo. O modelo russo é baseado no compadrio e não em regras fixas e estáveis.

Antes de contar como se deu essa trapalhada monumental, vamos começar conhecendo um pouco do polo petroquímico em menos de um minuto.

Antes de prosseguir, preciso explicar o que é o sistema do compadrio, a base do modelo empresarial russo. É aquela coisa de compadres. Se você se torna um oligarca meu compadre, terá tudo. Vou dar um exemplo prático. A Embraer só foi decolar depois de privatizada, por quê? Por causa do compadrio. Quando era estatal, o BNDES não financiava a venda de seus aviões.

Ninguém compra avião à vista. Se não tiver financiamento, não tem negócio. Quem mandava na Embraer depois de privatizada? O próprio Rei, já que a empresa foi comprada com dinheiro de fundos de pensão de estatais. Além de mandar nas estatais, o Rei também mandava no BNDES, que passou a fazer de tudo para ajudar a empresa, até mesmo extrapolar os limites de segurança, de concentração de operações, previstos no Acordo de Basiléia. Um dia conto essa história. Agora vamos voltar à petroquímica.

O projeto dos militares incluía a criação da estatal Petroquisa para se associar a oligarcas brasileiros. Isso mesmo. Oligarcas foram convidados pelos militares a participar do empreendimento. Há 50 anos atrás, banqueiros e empreiteiros eram os principais oligarcas. Ainda são. Os banqueiros que toparam foram os grupos baianos Econômico e Mariani, ambos dirigidos por políticos influentes da Bahia. Entrou também o banco paulista Itaú. Dentre as empreiteiras, vieram Camargo Correia e Odebrecht. Do setor de papel e celulose, aderiu o Grupo Suzano e, ainda, o Grupo Ultra da Ultragaz que já trabalhava com produtos petroquímicos em São Paulo.

Qual era a regra básica que guiava o projeto? A mesma que veio a ser aplicada pela China 20 anos depois. Preste atenção nisso, a China copiou o modelo adotado pelo Brasil. Com este modelo em poucos anos a China deixou de ser miserável e virou a segunda potência mundial. E por que nós naufragamos se começamos 20 anos antes deles?

Vamos por partes. Primeiro, vamos entender a regra básica do projeto dos militares, que a China viria a copiar. Como a coisa ia funcionar? Através de joint-ventures tripartites. O que é isso? Regras fixas para regular a relação entre o Estado, um parceiro privado local e uma multinacional estrangeira. O que cabia a cada um?

O estado brasileiro faria quase tudo. Assumiu a construção do Polo Petroquímico de Camaçari. A Petrobrás tinha recursos humanos habituados a operar refinarias de grande porte e podia promover treinamento em larga escala da mão-de-obra. O dinheiro viria de quem? Ora, ora, o grosso do dinheiro viria do povo, através do BNDE e dinheiro de incentivos fiscais da Sudene.

O parceiro privado, o oligarca local, o que ele deveria fazer? Escolher um sócio estrangeiro disposto a entrar com a tecnologia. O que faria mais? Nada além de botar algum dinheiro para disfarçar o tamanho da mamata. Oligarca não suporta correr risco. Gosta mesmo é de acender uma vela e esperar o lucro jorrar em seus bolsos. Se a coisa não desse certo, o prejuízo ficaria para quem financiou o grosso do projeto: o povo brasileiro.

O “modelo tripartite” previa que o capital votante seria dividido em três partes iguais: uma parte estrangeira, das multinacionais que entrariam com a tecnologia, uma parte local, de oligarcas e a terceira parte seria estatal, por meio da Petroquisa.

Quem estava por trás deste modelo? O General Ernesto Geisel. Ele ocupou o cargo de Presidente da Petrobras entre 1969 e 1973, quando o projeto foi decidido e iniciado. Em seguida, ocupou a presidência da República até 1979, período em que o Polo Petroquímico foi construído e inaugurado. Em seguida, ao deixar o poder, ele foi fazer o quê? Ao invés de aposentar, virou presidente da Norquisa, a holding que controlava a principal empresa do polo petroquímico, a Copene, Companhia Petroquímica do Nordeste.

Por que a Copene era o coração do modelo? Para saber a resposta, é necessário entender como funciona a indústria petroquímica, que começa na refinaria, onde é produzida a matéria-prima básica: a nafta.

A Copene compra a nafta e produz eteno e propeno – é o que faz uma indústria de primeira geração como é o caso da Copene. As indústrias de segunda geração transformam eteno e propeno em polietileno, PVC, polipropileno e outros insumos intermediários. Aí vem um monte de indústrias de terceira geração que os transformam em produtos finais: plástico, garrafas pet, tubos e conexões, embalagens, isolantes, espumas, fibras sintéticas, etecetera.

No modelo tripartite, a Copene foi a única exceção. O controle da Copene foi distribuído entre todas as indústrias do Polo Petroquímico que consumiam seus produtos. Isso era uma regra de segurança para garantir que não haveria monopólio dominando a matéria-prima básica, que toda a indústria usava. Em outras palavras, nenhum oligarca poderia ser dono da Copene.

Enquanto a China implantava este modelo em 1994, os oligarcas brasileiros estavam querendo dar fim nele, aguardando apenas o General Geisel morrer. Geisel morreu em 1996 e no ano seguinte acabaram com o monopólio da Petrobras, com o modelo tripartite, com a Petroquisa e com tudo que tinha dado certo.

De 1997 para cá, passaram-se 25 anos e o que o fim do monopólio da Petrobras trouxe de bom para o povo? Nada. Ninguém veio concorrer com a Petrobras, nenhuma grande multinacional veio para o Brasil. Sabem por quê? Porque a Petrobras passou a servir aos interesses de poderosos oligarcas brasileiros, que não suportam concorrência. Até mesmo a nafta era vendida pela Petrobras para a Copene a preços subsidiados.

Paulo Guedes, vai explicar para você de quem é a culpa do brasileiro pagar caro pelas coisas. Fala aí Paulo Guedes.

O que Paulo Guedes não gosta de esclarecer é que as forças competitivas não podem ser despertadas. Sabe por quê? Porque estão mortas. Foram assassinadas pelos oligarcas, que não suportam concorrência. Por exemplo, a Petrobras vendia a nafta mais barato para a Braskem. Favorecia o oligarca. Por isso é que o Brasil trocou o modelo chinês pelo russo.

A regra do modelo russo é a seguinte:

– Tem direito a se dar bem apenas o oligarca que é amigo e protegido do rei.  

No próximo vídeo, você vai entender a dominação da petroquímica brasileira pela Braskem, o braço petroquímico do Grupo Odebrecht. A Braskem passou a ser a dona da Copene e mudou seu nome para Braskem. Para isso acontecer, foi preciso superar conflitos entre grandes oligarcas. Você vai entender como essas coisas são resolvidas no Brasil de acordo com o modelo russo.

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