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Qual a causa do salto da ciência nos últimos 200 anos?

Há uma narrativa repetida quase como um mantra: o capitalismo criou o mundo moderno e, por causa disso, a miséria teve uma redução sem precedentes na história. Seria mesmo graças ao capitalismo que surgiu a tecnologia e o conforto proporcionado pelo salto civilizacional dos últimos 200 anos? Defensores do capitalismo dizem que sim. Porém, essa afirmação, comum entre economistas, é enganosa.

O verdadeiro motor do progresso não foi o capitalismo. Foi algo muito mais básico, mais estrutural e, ao mesmo tempo, mais ignorado: a libertação da necessidade de lutar diariamente pela própria sobrevivência. Tempo para pensar, investigar o universo, a matéria, a vida e a mente – tal como faz este Canal (que só passou a existir depois que seu idealizador aposentou e passou a ter tempo livre para isso).

Durante cerca de 300 mil anos, a humanidade viveu estagnada do ponto de vista científico. Não por falta de inteligência, mas por falta de tempo. O cérebro humano já era capaz de descobrir leis físicas, desenvolver teorias matemáticas ou entender a biologia — mas estava ocupado demais tentando não morrer de fome. Caçar, plantar, criar animais, buscar abrigo: essa era a agenda diária.

Não sobra espaço para física teórica quando você precisa garantir o jantar.

E isso não mudou por milênios. Mesmo nas civilizações mais avançadas da Antiguidade, o conhecimento era privilégio de poucos, dependente de patronos e constantemente interrompido por guerras, instabilidades ou dogmas. A ciência não era um sistema — era um acidente.

O salto só acontece quando surge uma ideia radical: pagar especialistas para pensar.

Esse é o ponto de ruptura real. Quando universidades, centros de pesquisa e instituições científicas passam a oferecer salários, bolsas e infraestrutura, algo inédito acontece na história da humanidade: milhares de indivíduos deixam de gastar seu tempo produzindo abrigo, comida e passam a produzir conhecimento.

Esse detalhe muda tudo.

Um pesquisador moderno não precisa plantar, caçar, construir sua casa ou criar galinhas. Ele pode acordar e dedicar 100% do seu tempo a resolver um problema matemático. E, mais importante, ele não está sozinho. Ele faz parte de uma rede global de outros pesquisadores, todos fazendo a mesma coisa, todos acumulando conhecimento de forma contínua.

Isso nunca existiu antes. Até 200 anos atrás, 90 a 95% da população era rural, mesmo na Europa. O analfabetismo era superior a 90% no mundo, exceto no norte da Europa Ocidental e entre os 9 milhões de brancos da América do Norte, onde o índice de analfabetismo era de 30 a 50%.

Não foi a ganância de lucros que criou a relatividade, a mecânica quântica, a teoria dos germes ou a estrutura do DNA – descobertas fantásticas sem nenhuma perspectiva de retorno financeiro, descobertas que levariam décadas para encontrar aplicação prática. Em um sistema guiado estritamente pelo lucro, não haveria investimento nessas “pesquisas inúteis”.

O que permitiu essas descobertas foi um ecossistema que protege o tempo do pesquisador. Tempo para errar. Tempo para testar ideias até mesmo ideias absurdas. Tempo para investigar coisas que não dão dinheiro — pelo menos não imediatamente. Tempo para viajar na maionese.

E aqui está o ponto que desmonta o mito: esse ecossistema não é obra do capitalismo. Ele depende massivamente de recursos do Estado que financiam pesquisas em universidades privadas, públicas e outras instituições. A maior parte da infraestrutura científica jamais teria surgido se guardasse vínculos com taxas de retornos que motivam o capital.

O capitalismo é eficiente em pegar uma descoberta e transformá-la em produto. Pode acelerar a distribuição, melhorar a escala, baratear o acesso. Mas não é capaz de produzir ciência básica, também chamada de ciência pura ou pesquisa fundamental, aquela sem nenhuma preocupação com aplicações práticas imediatas, voltada para compreender os princípios e mecanismos fundamentais da natureza. O motor que produz esse tipo de ciência não é o lucro, mas a curiosidade dos cientistas e desejo de expandir o conhecimento por si só.

Portanto, a origem do progresso está na decisão social de sustentar pessoas para pensar. Simples assim. Quando uma sociedade atinge o nível de organização necessário para permitir que milhares de indivíduos se dediquem integralmente à investigação, o avanço deixa de ser lento, irregular e acidental — e passa a ser rápido, cumulativo e exponencial.

Foi isso que aconteceu nos últimos 200 anos.

Não foi uma mudança na natureza humana. Não foi um súbito aumento de inteligência. Foi uma mudança na alocação de tempo. Pela primeira vez, em larga escala, o cérebro humano foi liberado da sobrevivência imediata e direcionado para entender os mistérios que intrigam a humanidade.

O resultado é o que vemos hoje: uma civilização tecnológica capaz de oferecer a cidadãos comuns um nível de conforto e saúde que reis e rainhas jamais tiveram.

A ironia é que insistimos em atribuir esse salto a um sistema econômico, quando o fator decisivo foi o contrário, uma escolha civilizatória muito mais profunda: investir em conhecimento sem exigir retorno imediato.

Se há uma lição clara nisso tudo, é a seguinte: progresso não nasce da pressão constante por lucro. Ele nasce quando oferecemos a cientistas algo muito mais valioso — tempo para pensar, inclusive no que não tem nenhuma utilidade imediata, tempo para viajar na maionese.

E foi a liberação desse tipo de tempo, não o capital, que fez a humanidade evoluir, deixar para trás a estagnação que prevaleceu por 300 mil anos.

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