As principais fontes de conhecimento eram livros e jornais até umas poucas décadas atrás. Leitura é fundamental, porém… além da dificuldade de acesso, a população sempre teve pouco interesse em ler. Qual era a consequência? As pessoas se retraíam, evitavam emitir opinião. Havia uma sensação de desconforto, por causa do risco de passar vergonha por ignorância.
Ninguém tem vergonha mais, isso acabou. Agora, todo mundo tem opinião formada sobre tudo, mesmo quando não entende nada. Estamos diante de um paradoxo: temos muito acesso à informação, mas menos capacidade de compreender as coisas, menos vontade de refletir, porém nenhum receio de passar vexame ao dar opinião sobre qualquer assunto.
Isso não aconteceu de repente. Primeiro, veio a Internet, depois o Google e agora a Inteligência Artificial. Tudo isso parecia ser algo muito bom, um presente da tecnologia. O que se esperava? Que haveria mais discernimento, mais lucidez. Porém, não nos tornamos mais sábios. Ao contrário, nos tornamos mais rápidos, mais impacientes, mais reativos, mais rasos. Assim, ao invés de reduzir a ignorância, o que aconteceu? Sobreveio a maior das ameaças do século XXI: estamos assistindo ao colapso silencioso da razão humana. Assistindo a um novo tipo de ignorância em massa: a ilusão de saber.
Aos poucos, estamos desaprendendo a pensar. Não memorizamos, não raciocinamos, não investigamos – aceitamos passivamente como verdade o que aparece na tela. A velocidade da internet deu origem à cultura da pressa, ao Efeito Google. Surgiu o impulsivo informado, aquele que faz uma pesquisa rasa no Google e acha que obteve tudo o que havia para aprender. Esse impulsivo sabe que pode encontrar respostas quando precisar, por isso só pesquisa quando tem um motivo. Não pesquisa por curiosidade.
Aliás, a curiosidade é o principal motor do conhecimento e está cada vez mais enfraquecida pela facilidade de se obter respostas da máquina. A busca do conhecimento requer parar para pensar, obter e conectar informações de fontes diversas, especialmente de fontes conflitantes, requer desconfiar e amadurecer reflexões. Ninguém faz isso mais.
Tudo segue estruturado para eliminar o pensamento crítico, ao invés de estimular. Os líderes mundiais não acordaram para o tamanho do problema. Deveriam, sabe por quê?
Dentre as consequências, uma das piores vem acontecendo com a democracia. Viajantes da maionese sem noção estão chegando ao trono pela via democrática inclusive em países desenvolvidos, em potências nucleares. Para concorrer ao trono, os partidos escolhem candidatos que são comunicadores carismáticos, pessoas muito hábeis quando falam, mesmo sem saber o que falar. É gente despreparada para governar, mas que sabe como obter seguidores, votos, sabem usar a polêmica para polarizar, especialmente em temas onde a população está dividida e se torna presa fácil de narrativas. O pensamento crítico vai embora neste palco de espetáculo político, onde o que importa é se você é um dos nossos ou se pertence ao outro grupo, o grupo inimigo. Quem discorda é excomungado do grupo, tachado de burro, mal-intencionado ou mau caráter. Ninguém se importa em chegar no que é real e verdadeiro. O que importa é vencer a disputa que no fundo é de natureza emocional e não racional.
Sabe como foi que chegamos a isso? Sabe o que acontece com o cérebro quando é atormentado por milhões de informações todos os dias? O que ele faz? Cria atalhos mentais, evita o esforço, busca a comodidade, busca o que é rápido, vai atrás do que parece familiar, do que é confortável emocionalmente. Se todo mundo à sua volta está fazendo o mesmo, a pessoa se sente à vontade com sua mentalidade rasa, passando a acreditar que pensar é algo como um concurso de beleza, cujo propósito é escolher uma opinião dentre aquele monte que desfila à sua frente.
Isso é o efeito Dunnning-Kruger, um fenômeno psicológico em que os ignorantes se tornam confiantes de que sabem, confiantes em suas certezas, imunizados contra a dúvida. Aliás, os sábios, sabe qual é o principal motor de discernimento de todos eles? Sempre foi a dúvida.
Todo mundo sabe que Sócrates dizia “só sei que nada sei”. O que as pessoas ignoram é que essa frase não é uma demonstração de humildade. Sócrates era conhecido por suas perguntas que envergonhavam pessoas influentes, expondo sua falta de sabedoria. Era um mestre da demolição das certezas propagadas. Por conta disso, acabou condenado à morte, acusado de corromper a juventude, de questionar os deuses. Sócrates morreu por ensinar as pessoas a pensar, a duvidar.
Outros grandes gênios como Einstein, Planck e Hubble, duvidaram sabe de quê? Do que eles próprios haviam descoberto. Com sua teoria original, Einstein poderia ter sido o primeiro a prever a expansão do universo mesmo sem dispor de nenhuma evidência da astronomia, mas duvidou e até alterou suas equações para evitar essa possibilidade. Depois admitiu que este foi o seu maior erro. Planck levou onze anos para acreditar em um mundo quantizado, que ele havia descoberto. Hubble reuniu as primeiras evidências da expansão do universo, mas não se sentia confortável em defender isso. Suspeitava que podia haver explicações alternativas.
Por que todos os grandes gênios, todos os maiores sábios têm essa mania de duvidar? Descartes e Aristóteles também diziam que o conhecimento começa com as dúvidas, não com as certezas. Esta é a base filosófica deste canal, criado para combater as certezas, que estão na origem de todas as viagens na maionese.
Para ter pensamento crítico, você precisa de humildade. Só humildes são capazes de questionar as suas certezas favoritas, analisar se elas possuem base sólida. O humilde consegue investigar os argumentos dos que pensam diferente, ao invés de desprezar. O humilde duvida das próprias crenças.
– E se eu estiver errado?
Esta pergunta simples pode evitar um monte de decisões de agora, que vão comprometer sua felicidade, seu futuro. Algumas são decisões sem volta, mas que as pessoas costumam tomar porque não têm noção de um aspecto da vida que só os mais experientes conhecem. Hoje, você é um. Daqui a dez anos será outra pessoa, com outras prioridades, outros interesses, outras motivações. O que você acredita ser muito importante hoje, pode se tornar irrelevante amanhã, pode ser substituído pelo que você nem é capaz de imaginar neste momento.
O segredo de viver bem começa por questionar sempre. Questionar a si próprio. Isso não é tarefa simples, requer um bocado de humildade, mas o resultado pode ser crucial para sua felicidade. Você pode conseguir algo muito útil para o seu futuro: melhorar a qualidade das suas viagens na maionese.

