O que aconteceu em 8 de janeiro? Um festival de viagem na maionese. De um lado, invasores de prédios públicos imitando o que aconteceu nos Estados Unidos em 2021. De outro lado, autoridades lideradas pelo STF com uma reação bem diferente do que se viu nos Estados Unidos. Uma reação que parecia emocional, meio que teatral, tentando convencer a população que havia uma luta do bem contra o mal para salvar a nossa democracia, que precisava deles, da coragem deles que seriam os nossos salvadores da pátria.
Dias depois do 8 de janeiro, fiz um vídeo mostrando as enormes diferenças de tratamento do mesmo problema entre os Estados Unidos e o Brasil. Mostrando que lá é uma democracia consolidada, enquanto aqui é um país onde atos antidemocráticos são corriqueiros, muitos desses atos muito piores que invasão de prédios públicos.
Lá, nos EUA o problema foi tratado na justiça comum – afinal uma democracia é o império da lei, resolve as coisas com as leis existentes, não precisa de nada acima da lei pra não dizer fora da lei.
Aqui, inventaram um super-herói com superpoderes para enfrentar um bando de viajantes da maionese, vindos de pequenas cidades do interior, hipnotizados por mensagens que recebiam no celular, sem a menor noção de coisa alguma.
Os bolsonaristas não gostaram do meu vídeo, porque usei imagens de gado na esplanada. Os petistas também não gostaram. Diziam que o Xandão sabia bem mais do que nós. Hoje, sabemos que é verdade. Sabia mesmo. Só que o que o Xandão sabia era o contrário do que imaginavam os petistas.
O próprio Xandão admitiu, só agora, que tinha certeza que as Forças Armadas não iriam aderir. Isso ele disse agora, só agora, em entrevista à VEJA comentada pelo Estadão. Mesmo assim, ele segue viajando na maionese, dizendo que havia algum mané golpe em andamento. Só se for de forças desarmadas, só pode.
Também agora, só agora, o Ministro da Defesa, José Múcio, falou a mesma coisa e ainda acrescentou que não havia um líder que dissesse assim: “Nós queremos, eu sou o chefe, vamos! Não existe revolução sem um chefe.” – disse Múcio.
– “Podia ser até que algumas pessoas da instituição quisessem, mas as Forças Armadas não queriam um golpe. … No final, me parecia que havia vontades, mas ninguém materializava porque não havia uma liderança. Você pode dizer: “No governo anterior havia pessoas que desejavam o golpe”, mas não havia um líder que dissesse assim: “Nós queremos, eu sou o chefe, vamos”. Não existe revolução sem um chefe.”
O deputado federal petista Lindbergh Farias (PT-RJ) não gostou da declaração de José Múcio. Ele disse no twitter que quer ver militares sendo julgados pelo STF (Correio Braziliense, sábado, 06/01/2024, página 15).
Vamos supor que havia mesmo militares desejando uma intervenção militar. Intervenção para quê? Para tomar o poder e governar como ditadores? Ou seria uma intervenção para salvar a nossa democracia de quem está fazendo dela gato e sapato?
Eleição é a parte fácil de uma democracia. A nossa democracia está na UTI depois de sofrer inúmeros atentados. Quem promoveu esses atentados pode ter motivos para desejar que tudo continue como está. Manter o poder. Pode ser que achem melhor ter presidente fraco.
A causa dos nossos problemas políticos pode estar nos partidos, que não demonstram interesse em indicar candidatos preparados, mas apenas candidatos que conseguem votos à base de populismo barato.
Como vê isso um político experiente como Roberto Brant, que foi deputado federal por 5 mandatos consecutivos, hoje do alto dos seus 81 anos, sem maiores pretensões. Em sua coluna nos jornais, Roberto Brant diz que temos “um sistema partidário que mais se assemelha a uma franquia comercial, o Legislativo não representa a população.” Ele fala nos: “…excessos constantes e generalizados do Poder Legislativo e da cúpula do Poder Judiciário, que comprimiram o espaço do Poder Executivo, impedindo-o de governar com um mínimo de autonomia.”
Mesmo que ele tenha razão, a má qualidade dos chefes do Poder Executivo é tanta que talvez fosse pior caso não fossem impedidos de governar plenamente.
Vamos ver os nossos últimos eleitos nos últimos 30 anos. Dois deles foram condenados por corrupção. Um outro virou meme nas redes sociais, motivo de chacota por suas frases desconexas. Outro tem nítidos transtornos mentais admitidos não por seus opositores, mas por vários parlamentares aliados da mesma corrente política.
O que vocês acham que acontece com o nosso sistema de governo, quando o eleito presidente não reúne requisito nenhum daqueles necessários para ocupar o cargo? Quem sai forte? São os outros poderes: Judiciário e Legislativo, como ressalta Roberto Brant.
Aliás, em uma democracia normal, o Judiciário some, não aparece. Cuida de causas constitucionais. Na nossa aqui, cuida de tudo, inclusive de causas penais, decide não só quem vai para a cadeia, mas também quem sai dela – um poder imenso que não existe em democracias saudáveis.
Pra terminar, por que só agora eles estão admitindo a verdade? Por que só agora dizem que sabiam que não haveria golpe militar em 8 de janeiro?
Quem fez primeiro revelações nessa direção foi o livro dos jornalistas Felipe Recondo e Luiz Weber, “O Tribunal” lançado há pouco tempo, em novembro. Felipe Recondo escreveu vários livros sobre o STF, inclusive um sobre a atuação do Ministro Marco Aurélio que pode ter sido sua fonte principal.
Comprei o livro, que chegou há poucos dias. Não deu tempo de ler, mas corri o olho em diversos capítulos. Na ocasião do lançamento do livro, esta matéria da Folha dizia que:
– “… ministros do STF mantiveram contatos frequentes com a cúpula militar — em particular, com o Alto Comando do Exército — para sondar o ânimo da caserna diante de um golpe.”
– “”O Tribunal” indica que foi essa aproximação que deu aos ministros a força necessária para dobrar a aposta diante das situações mais tensas, pois os ministros sabiam que os generais não apoiariam uma aventura tresloucada.”
Não gostei do subtítulo do livro: “Como o Supremo se uniu ante a ameaça autoritária”.
Acho que a ameaça autoritária é justamente a união dos ministros do STF. A base de uma democracia como a idealizada pelo grego há 2000 anos é o conflito, não a união. Eles não estão lá para fazer conchavo entre eles. Estão lá para discordar, um vigiando o outro. Se um ministro viaja na maionese, os demais têm a obrigação democrática de apontar o que está errado.
Infelizmente, no Brasil isso não acontece. Fiz vários vídeos mostrando que o Brasil segue o modelo político e econômico russo, baseado no compadrio, isso há 30 anos. Roberto Brant acha difícil prever o futuro, mas diz que uma coisa é certa: nenhum excesso dura para sempre.

