África. Vamos até a região da África do Sul onde fica o Berço da Humanidade, local em que foram encontrados fósseis de vários hominídeos bem primitivos. O mais antigo foi datado de 3,5 milhões de anos. Agora vamos observar uma paisagem do local. Nesta paisagem, há cavernas e mais cavernas, você está vendo? Há quilômetros de túneis interligando cavernas. Você não está vendo? Não mesmo? É que você não tem os olhos treinados do mais bem sucedido caçador de fósseis do século XXI, o paleontólogo Lee Berger. Olha ele aí.
– Esta paisagem está a meia hora da cidade de Joanesburgo. Quando você olha para ela, você vê uma dessas belas paisagens africanas. Mas não é isso que vejo. Eu vejo um bloco gigante de queijo suíço. Uma rede de centenas de quilômetros de cavernas. (Lee Berger, paleontólogo)
Berger é quase o único que pensa que a África do Sul é a região certa para procurar o primeiro Homo. O nosso ancestral. Trata-se de um profissional ambicioso e firme que não tem problemas em correr atrás de arrecadar fundos para suas pesquisas, nem tampouco em inspirar o grande público com suas inúmeras apresentações. Durante muito tempo, só lhe faltou uma coisa: os ossos certos para sustentar suas afirmações, afinal, um antropólogo de verdade tem que ter o seu hominídeo.
Não é fácil a vida de caçador de fósseis. Berger passou muitos anos sem achar nada. Estava pensando em desistir, quando, em 2008, ali por perto – fez uma descoberta sensacional. Na verdade, o autor da descoberta foi seu filho Matthew, à época com 9 anos. Ele encontrou uma clavícula. – Pai, olha o que achei. Berger estudou clavículas e percebeu que valia à pena investir naquele fóssil. As buscas tiveram sucesso. Acharam 220 fragmentos de ossos. Havia dois esqueletos do Australopithecus Sediba – um hominídeo primitivo que viveu há 2 milhões de anos. Ele andava como um humano, mas subia em árvores como um macaco.
Porém, uma descoberta ainda maior viria a acontecer 5 anos depois. Em 2013, a descoberta do Homo Naledi na Caverna Rising-Star. Mostrei como aconteceu no vídeo anterior. O nosso herói, Lee Berger, é o Indiana Jones responsável pela investigação da descoberta. As equipes sob a sua liderança recuperaram mais fósseis de hominídeos na última década do que foram recuperados nos 90 anos anteriores. Olha ele aí apresentando a descoberta do Naledi, usando sua jaqueta de couro marrom, sua marca registrada.
Ele é americano. Formado nos EUA em arqueologia, com especialização em geologia. Nos anos 90, decidiu fazer carreira na África do Sul, em Johanesburgo, onde concluiu o doutorado em paleoantropologia na Universidade de Witwatersrand, conhecida como Wits. Hoje é professor pesquisador da Wits. Ele recebe importante apoio da National Geographic, estrelando seus programas e documentários.
Para quem vocês acham que a África do Sul decidiu entregar a Caverna Rising-Star? A responsabilidade de retirar e investigar os fósseis do Homo Naledi? Claro que para o seu mais renomado pesquisador, Lee Berger, morador de Johanesburgo.
Com mais de 1,80 de altura, Lee Berger não era magro. Ele não tinha como atravessar passagens estreitas, com 20 a 25 cm de largura para chegar na última câmara, onde estavam os fósseis. Tucker e Hunter, os exploradores que descobriram os fósseis, tiveram que se espremer por uma passagem estreita conhecida como “Superman’s Crawl”. Só consegue ultrapassar se mantiver um braço próximo ao corpo e esticar o outro sobre a cabeça – como o Super-Homem em voo.
O que Berger fez para saber mais sobre a descoberta de Tucker e Hunter? Mandou o filho Matthew ir lá dar uma espiada – o intrépido Matthew, então com 14 anos, virou herói novamente. Ele cumpriu a missão.
Lee Berger sabia que estava diante do que poderia ser a descoberta do século. Para convencer e obter apoio para a investigação ele precisava retirar os primeiros ossos e apresentar os resultados das análises. O que ele fez? Botou um anúncio no Facebook para contratar especialistas. Requisito: precisava ser esbelto. Para sua surpresa, apareceram 60 candidatos, 80% mulheres. Ele selecionou uma equipe feminina. Foram contratadas seis jovens dispostas a arriscar suas vidas pela ciência! Seis extraordinárias profissionais que arriscaram suas vidas para fazer descobertas fundamentais no trabalho de desvendar as origens da humanidade.
As contratadas cumpriram a missão com sucesso. Nunca apareceu tanto osso de fóssil em tão pouco tempo. Elas calaram a boca dos paleontólogos rivais de Lee Berger, que o criticaram muito, dizendo que a exploração da caverna deveria ser feita por profissionais experimentados em escavações de fósseis. Só que os fósseis estavam na superfície. O que os colegas queriam seria outra coisa? Quem sabe, tirar Berger do caminho? Ficar com o crédito da descoberta? Paleontologia é assim mesmo. Muita inveja, vaidades e viagens na maionese – por isso que gosto de ler sobre este assunto.
Lee Berger é conhecido não apenas por suas descobertas, mas também por falar o que pensa na hora que acha que deve falar. Não fica mantendo tudo em segredo até ter certeza de alguma coisa, como muitos de seus colegas defendem. E mais, ele publica tudo o que descobre em detalhes. Seus colegas morrem de inveja de sua relação com a National Geographic, que ajuda a financiar suas pesquisas e divulga seus achados, tendo Lee Berger como astro principal – um superstar. Já houve ocasião em que colegas ameaçaram não participar de congressos, caso Berger fosse convidado para falar. O jogo é bruto.
Segundo matéria do New Yorker de 2016, a paleoantropologia é uma disciplina pequena e o número de paleoantropólogos que caçam ossos é ainda menor. Um seleto clube.
– “É um esporte competitivo”, disse Berger em uma palestra recente. “Há muito poucos jogadores. E quando sua cabeça estiver acima do parapeito…” Berger não completou a frase, mas acho que deu para entender o que ele quer dizer.
A descoberta do Homo Naledi revelou como é a espécie dos paleoantropólogos – o Homo Antropólogus, uma espécie quase idêntica ao homo sapiens, só que com um gene mais desenvolvido: o da inveja. Uma espécie capaz não só de viajar na maionese quando classifica fósseis, mas também de estar sempre a postos para atacar os competidores de sua própria espécie.
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O trabalho inicial de recuperação dos fósseis foi realizado ao longo de um período de 3 semanas pela equipe composta por Lindsay Eaves, Marina Elliott, Elen Feuerriegel, Alia Gurtov, Hannah Morris, e Becca Peixotto selecionadas pela sua experiência em espeleologia e perícia.

