
Hans Berger nasceu em Neuses no interior da Alemanha. Em 1891, aos 18 anos, mudou-se para Berlim para seguir carreira em matemática com o objetivo de se tornar astrônomo. Adiou este plano para passar um tempinho no serviço militar na artilharia alemã, quando ocorreu um evento sobrenatural que mudou completamente seus planos.
Durante o treinamento militar, o cavalo de Berger empinou. Ele caiu bem na frente da roda de um canhão de artilharia, que parou no último instante. Berger escapou da morte certa. Olha o tamanho das rodas de um morteiro da primeira guerra. Ele escapou por pouco.
Naquela mesma noite, ele recebeu um telegrama de sua família, que não o contatava há quase um ano. A iniciativa foi da sua irmã, que era bem próxima a ele e tinha sido tomada naquela manhã por um sentimento de que algo terrível havia acontecido com ele. Ela convenceu sua família da necessidade de fazer contato com urgência, o que motivou o envio do telegrama. (Naquela época, ainda era usado o telégrafo com fio, único jeito de mandar uma mensagem urgente entre dois locais).
Ao saber do motivo do telegrama, Berger ficou obcecado com esse incidente. Ele interpretou como uma conexão mental entre ele e sua irmã. Anos depois, ele escreveu em seu diário: – Foi um caso de telepatia espontânea em que, em um momento de perigo mortal, transmiti meus pensamentos.
Depois de concluir o serviço militar, ele tomou a decisão de mudança de carreira. Ao invés de matemática e astronomia, migrou para medicina como ponto de partida para a compreensão do cérebro, concentrando sua carreira em psiquiatria e neurologia.
Hans Berger obteve seu doutorado em medicina em 1897 na Universidade de Jena, uma das mais antigas da Alemanha. Aí atrás você vê um dos prédios desta enorme universidade. Passou a integrar a equipe de psiquiatria clínica de um Hospital Psiquiátrico, sob a direção do célebre psiquiatra Otto Binswanger. Em 1918, Berger foi para o cargo de Binswanger no hospital, onde permaneceria por 40 anos, até o fim de sua carreira.
Berger passou a investigar o funcionamento do cérebro usando eletrodos. Como resultado da guerra, havia muitos pacientes com fraturas cranianas, buracos cobertos só pela pele. Parecia uma boa ideia usar esses pacientes como cobaias para experimentos com eletrodos usando estimulação do córtex motor, mas Berger fez novas descobertas e não precisou mais recorrer a fraturados.
Depois de 1925, Berger passou a detectar ondas cerebrais empregando aparelho de eletrocardiograma, que ele modificou para registrar as ondas cerebrais. quando Berger observou pequenos movimentos no galvanômetro em um jovem paciente chamado Zedel.
Berger descobriu que era possível registrar as fracas correntes elétricas geradas no cérebro humano, sem a necessidade de crânio aberto. Usando seus filhos como cobaias, ele conseguiu registrar as ondas no papel, em um aparelho que denominou “Elektroenkephalogramm”. Descobriu que o cérebro emitia duas frequências de ondas, que ele chamou de alfa e beta, como são conhecidas até hoje.
Os experimentos de Berger eram realizados em seu tempo livre e em total sigilo. Ele nunca mencionou o que estava fazendo, nem admitia visitas no seu laboratório. Por que isso? No centro de psiquiatria da Universidade de Jena, onde trabalhava, Berger era repudiado por seus colegas, que não o consideravam um verdadeiro psiquiatra por preferir o estudo da fisiologia cerebral às consultas clínicas. O medo de ser ridicularizado talvez explique por que ele manteve suas experiências em segredo.
As experiências prosseguiram por mais cinco anos, quando ele decidiu publicar seus resultados em uma prestigiada revista especializada. Ele publicou quatorze artigos entre 1929 e 1938 sobre os resultados de seus experimentos.
Por ter publicado em alemão e ser um sujeito desconhecido no resto do mundo, os achados de Berger não tiveram repercussão por cinco anos, até 1934, quando foram descobertos por dois grandes fisiologistas ingleses, Lord Edgar Adrian e Sir Bryan H. Matthews, ambos da Universidade de Cambridge, e por Herbert H. Jasper nos EUA. Utilizando equipamentos mais sensíveis e modernos que os de Berger, eles fizeram muitos estudos em seres humanos e animais, que corroboraram os resultados de Berger. Berger tornou-se famoso em todo o mundo, menos na Alemanha, vou explicar o motivo.
Em 1936, a Comissão do Nobel incluiu Hans Berger como cogitado para receber o prêmio. Porém, na época o prêmio era vetado a alemães por motivos políticos. Em 1937, ocorreu sua maior glória pessoal: foi convidado por Lord Edgar Adrian para que ambos dividissem a presidência de um simpósio sobre a atividade elétrica do sistema nervoso no Congresso de Psicologia em Paris. Berger foi festejado como o mais distinto dos participantes. Lágrimas vieram-lhe aos olhos ao declarar: – na Alemanha eu não sou tão famoso.
Uma segunda indicação para o Nobel viria em 1949. Tarde demais. Ao voltar de Paris, foi recebido na Alemanha com humilhação: sua aposentadoria forçada. Seu laboratório foi desmontado e ele teve que se mudar para a pequena cidade de Bad Blankenburg. Ele não podia mais prosseguir com suas pesquisas e, em 1º de junho de 1941, após uma longa depressão que ele havia auto-diagnosticado erroneamente como um problema cardíaco, Berger tirou a própria vida aos 68 anos. Um final muito triste para um cientista tão dedicado e competente.
Ele nada descobriu sobre telepatia. Berger escreveu no final de sua vida que as ondas que descobriu não podiam explicar a transferência psíquica que procurava; suas ondas não poderiam ter viajado longe o suficiente para alcançar sua irmã.
Bem, para finalizar, preciso explicar por que Hans Berger é tão importante para este canal? Por que foi o primeiro a descobrir o tipo de ondas cerebrais que ocorre quando o cérebro está viajando na maionese: as ondas alfa.
Usando seus filhos como cobaias, ele descobriu que o cérebro permanece bastante ativo, gastando uma energia tremenda, mesmo sem executar nenhuma tarefa. Foi o primeiro a estabelecer as bases neurológicas da viagem na maionese, que é o que o cérebro fica fazendo o tempo todo, gastando muita energia quando parece estar à toa, ocioso. Ele fica inventando explicação para tudo, explicações que acabam sendo transformadas em regras gerais. É isso que o viajante da maionese faz.
Vamos ver isso na prática, nos gráficos produzidos por Hans Berger. Em cima, as ondas alfas desaparecem quando a pessoa abre os olhos e vê a sala ao seu redor. Neste estado em que a atenção está ligada é quando surge o padrão beta. O padrão alfa reaparece quando os olhos voltam a se fechar e a pessoa novamente relaxa. No meio, as ondas alfas desaparecem durante o esforço mental para calcular algo. Enquanto está calculando o padrão muda para beta. Concluído o cálculo, volta o padrão alfa. Em baixo, o padrão de atividade cerebral típico de uma crise de epilepsia caracterizada por perda de consciência.
O que deduziu Hans Berger? Vamos às suas palavras: – “Temos de supor que o sistema nervoso central está sempre – e não só durante o estado de vigília – em um estado de considerável atividade.” Suas ideias foram ignoradas mesmo depois dos anos 70, em que se tornaram rotina métodos modernos de investigação do cérebro, como a tomografia de pósitrons, conhecida como PET, e a ressonância magnética (Scientific American 95, abril de 2010).
Hans Berger estava à frente de seu tempo. Tudo o que ele descobriu foi trabalhando sozinho, sem a ajuda de ninguém e ainda tendo que inventar o instrumento de sua pesquisa, o eletroencefalógrafo, com que identificou os padrões de ondas alfa e beta do cérebro. Esse cientista extraordinário poderia ter contribuído ainda mais, caso sua carreira não tivesse sido prejudicada pela descrença de seus colegas e por um ditador lunático.