Numa mesa de bar, uma conversa inocente sai do tom e evolui para divergências pesadas. Todos tentando defender suas posições. Mostram opiniões de supostas autoridades no assunto, estatísticas, dados, frases de efeito, tiram da cartola, aliás do WhatsApp argumentos para convencer. Ao final da noite, o esforço em mudar a opinião do outro resulta apenas no quê? No reforço das próprias crenças. Todos vão para casa fechados em si mesmos sem saber como transformar a crença sempre obtusa, quando se trata da crença dos outros.
Coisas que nunca nos interessaram antes, passamos não só a acreditar nelas, como a prestar atenção em tudo relacionado que corrobora a nova crença (e passamos também a ignorar tudo o que a contraria). Isso é conhecido na ciência cognitiva como o viés de confirmação, que tem até verbete na Wikipedia. Eu prefiro chamar de viagem na maionese.
O próximo passo é um imenso interesse em tentar converter o próximo. Por que não conseguimos, mesmo apresentando fatos que consideramos irrefutáveis e suficientes para convencer qualquer um?
Como as pessoas decidem o que querem saber e por que algumas pessoas estão dispostas a procurar informações sobre vacinas contra a COVID, desigualdade econômica, políticos, mudanças climáticas etc., enquanto outras não?
No mês passado, um estudo publicado na revista Nature Communications tentou obter uma resposta. A partir de cinco experimentos com 543 participantes, os pesquisadores descobriram que a maioria de nós, quando busca informações, se enquadra em uma de três categoria:
- Pensadores – preferem temas que já pensavam com frequência;
- Utilitaristas – buscam informações que julgam serão úteis a suas vidas de alguma forma;
- Emocionais – julgam com base em como a nova informação os faz se sentir.
Um dos dois autores do estudo é a pesquisadora israelense Tali Sharot, que é neurocientista cognitiva e trabalha no Laboratório do Cérebro da maior instituição de ensino superior da Inglaterra, a University College London.
Ela escreveu o livro “A Mente Influente”, publicado no Brasil pela Editora Rocco, que comprei e aguardo chegar para ler.
Ela estuda as bases neurais das nossas emoções e tomadas de decisão. Obcecada por explicar por que agimos como agimos, ela vem analisando nosso apego a opiniões. Tali Sharot faz as seguintes perguntas:
- Por que é tão difícil alguém abandonar convicções e mudar de ideia mesmo diante de montes de evidências contrárias? Por que quase ninguém “troca de lado” em relação a tópicos espinhosos como mudanças climáticas ou vacinas contra coronavírus?
- Por que ao casar acreditamos que a chance de separação é zero, quando no mundo ocidental 40% dos casais se separam?
- Por que o amigo no WhatsApp insiste naquele candidato mesmo depois de você listar argumentos “irrefutáveis” contra ele?
O Globo perguntou a ela: Por que a evolução tornou os humanos tão resistentes a mudar de opinião? Ela responde que é porque a maior parte das nossas crenças é mesmo verdade:
– É como um algoritmo do nosso cérebro, que vai ser bom e eficiente na maioria dos casos, mas não em todos.
– Pesquisas de comportamento mostram que, em assuntos como religião, política e meio ambiente, vacinas, por exemplo, as pessoas, mesmo sem saber, só querem absorver informações que confirmem suas opiniões já formadas. Quando as encontram, as pessoas ficam mais confiantes e, assim, mais resistentes a mudar de ideia, mesmo diante de uma evidência contrária. Entretanto, os mesmos estudos mostram que, quando o assunto não é importante para uma pessoa, ela muda de ideia facilmente.
O Globo perguntou sobre notícias falsas. Por que, muitas vezes, parece que as pessoas querem acreditar numa informação falsa ou duvidosa? Ela respondeu:
– As notícias falsas muitas vezes são elaboradas sob medida para um grupo de pessoas, de acordo com aquilo em que elas acreditam. É mais ou menos o que observamos no escândalo da Cambridge Analytica. Os autores das notícias falsas, de posse de dados que demonstram quais são suas opiniões, atingem o usuário com informações forjadas para que você acredite nelas facilmente. Porque, se a notícia falsa diz algo que não se encaixa em convicções prévias, provavelmente o viajante da maionese não vai acreditar nela.
E como cura essa doença do viés de confirmação?
Ela aconselha seguir pessoas do outro lado de seu escopo ideológico, coisa que ninguém faz. Ademais, no vídeo que produzi com o pesquisador Robert Sapolsky vimos que o viajante da maionese pode não ter cura.
Vivemos em uma época de níveis sem precedentes de informações facilmente acessíveis. Todos andamos por aí com celular, um supercomputador capaz de nos conectar a todo o conhecimento humano. O que não adianta grandes coisas diante da vontade imensa de todo cidadão de viajar na maionese.
Eu não tento explicar o motivo desta vontade característica dos seres humanos. O dia em que fizer isso, com certeza estarei embarcando sabe aonde? Em uma grande viagem na maionese.

