Em livro recém-lançado no Brasil, intitulado “Comporte-se. A biologia humana em nosso melhor e pior” o neurobiólogo norte-americano Robert Sapolsky, especialista em comportamento, tenta explicar por que o ser humano viaja na maionese. Ele não sabe, mas seu livro é sobre isso.
Professor de biologia da Universidade Stanford, ele também atua como pesquisador no Quênia, país que visita anualmente para estudar o estresse em uma população de babuínos selvagens, alvo de seu ainda relevante artigo de 1990 publicado em Scientific American, “Stress in the Wild”.
O livro foi lançado em agosto no Brasil pela Companhia das Letras. Chegou aqui quatro anos após o lançamento nos Estados Unidos, onde foi considerado um dos melhores do ano pelo Washington Post e Wall Street Journal.
Robert Sapolsky esclarece que cientistas costumam viajar na maionese ao tentar explicar por que o ser humano viaja na maionese. Ele diz que os cientistas tendem a trabalhar com foco estreito, porque gastam uma quantidade enorme de tempo e de esforço se especializando em uma pequena área da ciência.
– “O perigo está em decidir que esta pequena área da ciência representa o universo inteiro e explica tudo.”
O ser humano adora valorizar o objeto de seus esforços e, muitas vezes, embarca em uma cegueira deliberada para inúmeros outros fatores que também podem explicar o que ele está tentando explicar.
O que fascina o ateu Sapolsky é o mistério de neurônios serem iguais e usarem as mesmas moléculas para funcionar, seja em humanos, seja em um chimpanzé, um rato de laboratório ou um caramujo marinho. Não são nem moléculas similares, são iguais, assim como são os mesmos genes que codificam a mesma fosfatase, por exemplo. O que nos difere? Será que basta reunir neurônios suficientes e simplesmente surge a complexidade que nos caracteriza?
Em entrevista à Revista Galileu, perguntaram à Sapolsky o que seria possível fazer para superar viagens na maionese, como aquelas que surgiram da polarização que houve nos 4 anos de governo Trump?
– Não há meios de chamá-los de volta à razão. Por mais que você tente apresentar fatos que deveriam convencê-los a mudar, mais fortemente eles se agarram ao que já acreditam. É necessário entender quais são os fatores emocionais que levam uma pessoa a essa situação.
– E com as redes sociais, você simplesmente ouve seus próprios pontos de vista serem gritados no seu ouvido, 24 horas por dia se quiser. E, melhor ainda, elas dão as ferramentas para você decidir o porquê de o outro lado estar mentindo. É como uma barreira em que você pode passar a vida toda recebendo informações totalmente erradas, compartilhadas por pessoas que se parecem e agem como você, e com quem você mantém relações muito gentis. É um mundo todo seu, onde é possível ficar isolado.
Perguntado sobre o que uma pessoa deve fazer para entender suas próprias atitudes e parar de ficar viajando na maionese, Sapolsky dá a receita:
– Desconfiar de seus primeiros reflexos de julgamento e voltar uma segunda, terceira ou quinquagésima vez dizendo “de onde isso veio?”. A solução passa por reconhecer de onde vêm nossas vulnerabilidades emocionais e trabalhar duro para entender como chegamos onde estamos, os processos internos de nossa mente. Todos chegaram aonde estão por causa de suas próprias histórias e das coisas internas às quais só a pessoa tem acesso.
Na verdade, o ser humano não decide mudar. Ele só muda forçado por circunstâncias por que passa. Tudo pode ser alterado dramaticamente pelas circunstâncias.
Conclusão: Nunca tente convencer o viajante da maionese usando a racionalidade, usando argumentos e fatos, nada disso funcionará. Tente fazer perguntas.
– Quando você passou a acreditar nisso? O que ou quem te convenceu?
Por meio delas, há uma pequena chance de você fazer o viajante descobrir por si mesmo os processos emocionais que o levaram a passar a acreditar, acreditar.

