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Dúvidas estão em processo de extinção?

No século XXI, suspeito que as dúvidas estão acabando, entrando em processo de extinção. Está cada vez mais difícil encontrar alguém que tenha dúvidas a ponto de criar coragem para fazer perguntas. Será que é porque há resposta para tudo no celular? Acho que não é isso não. A impressão que tenho é que em nenhum momento da história humana houve tanta gente de todas as idades em todos os países com tamanha quantidade de certezas.

Como dizia Abraham Lincoln, considerado um dos mais importantes presidentes americanos da história, o sujeito pode enganar a si próprio o tempo todo, pode enganar alguns por algum tempo, mas não se pode viajar na maionese o tempo todo. Não foi bem isso o que Lincoln disse; eu confesso que fiz umas pequenas adaptações.

Bem, o fato é que depois da pandemia e, também, da dupla Trump/Bolsonaro, saiu do armário uma quantidade imensa de pessoas que pareciam mansas, inofensivas. Explodiu o número de viajantes da maionese do tipo radical.

Pandemia é uma realidade dura de aceitar, ainda mais por ser provocada por um inimigo tão pequeno que não dá pra enxergar nem mesmo em um microscópio. O ser humano não aceita isso. Contrariado com a necessidade de se proteger de um inimigo invisível, o ser humano passa a alimentar um ódio do tipo que gera necessidade de identificar um culpado palpável.

– Como é que estou sofrendo tanto e não tem um culpado?

Surgiram inimigos da China aos montes. Gente que nunca leu nada, nem nunca teve o menor interesse em conhecer a realidade da China, passou a acreditar no ódio de pessoas dedicadas a produzir teorias da conspiração, gente que transmite narrativas pelas redes socias para culpar os chineses por tudo, inclusive pela origem do vírus.

Após ser obrigado a viver cheio de restrições, o ser humano passa a desejar ardentemente o surgimento de uma solução milagrosa, como um remédio. Passamos a conviver com gente que defendia abertamente tratamentos ineficazes para o coronavírus, muitos dos quais eram médicos.

Mais de um parente chegou para mim e disse: – Mas Marco Polo você está dizendo que se contrair o coronavírus não vai tomar nada? Você não vai lutar? Eu respondia que viajar na maionese ainda não tinha sido aprovado por nenhum país como tratamento preventivo eficaz. Eu vou falar o quê?

No início da pandemia, não consegui impedir que pessoas próximas seguissem viajando e indo a shows em locais lotados. Eu havia lido a vida inteira sobre vírus e bactérias, mas não me fizeram uma pergunta sequer. Alguns comentavam escondido até mesmo que eu tinha aloprado, que estava exagerando os riscos.

O fato é que, no século XXI, não adianta tentar convencer viajante da maionese mostrando a verdade. É inútil apresentar evidências para alguém que não tem interesse na verdade. Melhor não contrariar quem está aferrado a suas crenças, disposto a manter inalteradas essas crenças, mesmo que especialistas do mundo inteiro pensem o contrário.

– Ah, Marco Polo, então qual é a solução para enfrentar esse comportamento?

Eu não sei. Procure algum darwinista e pergunte a ele. Ele vai arrumar explicações instantâneas para esclarecer tudo que é comportamento humano típico do século XXI e de humanos robotizados também. Os darwinistas sempre têm explicação para tudo. Eu aqui no canal só apresento fatos para fomentar as dúvidas e, assim, de forma indireta, consigo ter a ilusão de que estou combatendo as certezas (eu acho).

A única coisa que sei é que neste século XXI tem duas coisas que as pessoas carregam: o celular e as certezas.

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