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Antonhy Fauci não viaja na maionese

epa08511042 National Institute of Allergy and Infectious Diseases Director Anthony Fauci speaks in front of US Vice President Mike Pence (L) during a White House Coronavirus Task Force news briefing at the US Department of Health and Human Services in Washington, DC, USA, 26 June 2020. Coronavirus COVID-19 cases have surged across states in the US South. EPA/MICHAEL REYNOLDS

Qualquer um pode ser candidato e qualquer um pode votar. Isso é democracia? Claro que não. Eleição é a parte fácil da coisa. Democracia é consciência não só dos limites do poder, como também do respeito a princípios ao usar o poder. Essas duas coisas não existem em países cucarachos, que podem ter eleição, mas tem um arremedo de democracia.

Vamos supor uma manhã em que o presidente Trump amanhece surtado, com mania de perseguição e resolve trocar peças chaves de seu governo: ministros militares, da Justiça, o Chefe do FBI e da CIA… Ele decide demitir todo mundo e nomear para os cargos amigos dos filhos, amigos de parlamentares e adeptos da sua religião. O que você acha que aconteceria com Donald Trump nos Estados Unidos da América?

Desde o século XVIII, os Estados Unidos da América tiveram 46 presidentes. Os americanos consolidaram uma consciência do que é sagrado em uma democracia de verdade. Eu disse consciência do que pode e do que não pode, não é algo escrito em constituição ou leis. Essa consciência é capaz de defender o sistema democrático até mesmo no caso de a população errar no voto e acabar elegendo um presidente chegado a uma viagem na maionese.

Tudo isso está cristalizado em Antonhy Fauci, o melhor exemplo que achei para ilustrar o que estou dizendo aqui. Em um país como os Estados Unidos, a máquina pública é formada observando princípios como o da meritocracia. O presidente vai ter problemas se tentar violar este princípio.

Antonhy Fauci, é o chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, uma agência governamental do departamento de saúde americano. Ele foi conselheiro de sete presidentes dos Estados Unidos, desde Ronald Reagan no início dos anos 80 e agora, aos 80 anos, prosseguirá com Joe Biden, que o nomeou conselheiro-chefe do presidente para assuntos de coronavírus.

Donald Trump não cogitou conspirar para retirar do cargo Anthony Fauci, a quem chamou de idiota em um discurso: “As pessoas estão cansadas de COVID, de ouvir Fauci e esses idiotas”, afirmou Trump.  

Na primeira coletiva concedida à imprensa, Fauci fez piada comparando com o governo anterior: — O lado bom dessa gestão é que se você não sabe a resposta, você não tenta adivinhar. Você só diz que não sabe — disse ele rindo, depois de afirmar que não saberia responder a uma das perguntas feitas pelos jornalistas.

Muitas perguntas de coronavírus ainda não tem respostas. Isso incomoda o Viajante da Maionese que quer resposta instantânea para tudo. Quem faz o contrário e diz que não sabe, como é o caso de Fauci, não é viajante da maionese.

Por isso, quando um cara como ele fala alguma coisa, pode estar certo que é melhor ouvir o que ele diz. E o que ele vem dizendo?

Em agosto, no programa “This Week” da ABC, ele disse que “as coisas vão piorar”, e colocou a culpa em milhões de pessoas que não se vacinaram contra o vírus. As vacinas são abundantes nos Estados Unidos e disponíveis para quem quiser. Mas tem um problema: vacina só funciona em quem toma.

Nos EUA, no primeiro semestre, os casos de coronavírus despencaram de 250 mil por dia para 10 mil, porém, no mês de julho, mesmo com metade da população vacinada, os casos multiplicaram por 10 e já superam cem mil casos diários.

O fato é que o vírus adora uma democracia. Especialmente os direitos individuais tão cultuados nas democracias. Ele se espalha utilizando o direito de ir e vir, de ficar viajando pra lá e pra cá. Ele não é contido graças ao direito de não se vacinar.

Julho também não foi bom para Europa, Ásia e até a África. O gráfico dos novos casos diários dá impressão de estarmos diante de uma nova onda. Europa triplicou, passando de 40 mil para 120 mil casos. Ásia duplicou, de 130 mil para 260 mil. África saiu de 10 para 40 mil casos. Já na América do Sul, os casos despencaram de 140 mil para 60 mil, felizmente.

Eu sei que tal como Trump, você está cansado de ouvir falar em Coronavírus e louco de vontade de acreditar que a vacina vai resolver. Porém, o mais sensato a fazer é ouvir a voz da experiência de Anthony Fauci.

Hoje, o colunista de ciência do Estadão, o brilhante biólogo Fernando Reinach, faz um alerta para a variante Delta no Brasil:  “Os poucos dados reunidos no Brasil demonstram que 20% das amostras … já são desta variante. Se por aqui ocorrer o que ocorreu em outros países, no próximo mês serão 90%. Em todos os países em que chegou, essa variante provocou uma nova onda de casos.”

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